descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

O arranhão

Tropecei no penúltimo degrau, tropecei no quase-lá, tropecei na minha pressa. A caixa quis me dar uma lição e deixou um arranhão na minha perna. A caixa quis dizer que não importa o peso, caminhar devagar é necessário.


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Com uma caixa de madeira em mãos, subi as escadas correndo. Galopei porque o peso era grande e meus braços pediam "arrego". Tropecei no penúltimo degrau, tropecei no quase-lá, tropecei na minha pressa. A caixa quis me dar uma lição e deixou um arranhão na minha perna. A caixa quis dizer que não importa o peso, caminhar devagar é necessário. Eu desobedeci os avisos e o arranhão está desenhado na minha perna para lembrar que devagar é melhor. O arranhão andou passeando no meu corpo e está pensando em virar cicatriz.

E eu que sempre tropeço nas minhas próprias pernas, desfilo com ele por aí como quem acaba de fazer uma nova tatuagem. Se eu fosse um animal em extinção, minha pele iria valer uma fortuna e ela seria avaliada pela quantidade de marcas. Os especialistas jurariam que foi Van Gogh que pintou cada uma delas.

Eu caminho do mesmo jeito, com a mesma impaciência, tropeçando sempre no quase-lá. No penúltimo degrau. Às vezes, resolvo desafiar até a lei da gravidade, e quem danou-se nessa foi meu pé. Meu corpo já quis divórcio de mim. Meu olhos já não aguentavam ver bem debaixo do nariz tanto mau jeito de levar a vida. Até a boca que falava por todos também tropeçava na própria língua. Eu nunca levei realmente a sério a ideia de me abandonar, mas o arranhão pediu impeachment. Foi para as curvas do meu corpo, para meus quadris, para minhas costas e cansou em cima do meu ombro. Ensandecido, não sabia quem colocar no meu lugar. Era devaneio demais em um corpo só.

Eu não tenho culpa se a ordem das coisas é cair. Maldita lei de Newton. Juro que se pudesse, acertava bem acertado essa maçã da tal lei em quem resolveu escrever meu roteiro.


Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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