descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

Debaixo do meu tapete

Sacudiram meu corpo e puxaram meu tapete.


mulher-idosa-rugas-1307386280006_956x500.jpg

Puxaram meu tapete.

Sacudiram meu corpo e puxaram meu tapete. Colocaram-no no sol. Eu que estava habituada a ir empurrando coisas que poderiam ser jogadas fora mais tarde para debaixo dele, agora tenho que encarar sua cara de mistério pra mim, tenho que encarar o sol do lado de fora. Eu poderia me levantar e fingir que nada debaixo daquele tapete era meu, mas era. E era inegável meu DNA ali. Era criminoso mentir minhas digitais. Era ilegal negar que era minha caligrafia nas cartas de amor. Puxaram meu tapete debaixo do meu nariz, dentro da minha casa-confusão.

Não posso nem registrar boletim de ocorrência, porque não se sabe quem foi mais criminoso: quem entulhou as coisas debaixo do tapete ou quem puxou. Aquela fresta do sol retraíram minhas pupilas, eu fechei os olhos. Não queria encarar mais nada, nem você, nem meus crimes bem debaixo dos meus pés. Estava confortável passar por cima do estrago que você fez, até soprar o vento que forçou a fechadura e abriu a porta. Até eu ver que você sempre esteve ali sem ter coragem de chamar meu nome. Eu do lado de dentro com medo das queimaduras do sol e você plantado na minha porta. Eu te chamei de covarde e você puxou meu tapete. As memórias estavam intactas. Ficou exposto para quem quisesse ver que os seus fragmentos nunca saíram da minha casa-confusão. Jogo desleal. Quem é o mais imoral de nós dois?

A quem lançaremos os dardos?

Um senhor gigante, dono do destino dos mortais, queria apagar da lousa o que tínhamos escrito até ali. E o deus Chronos nos cobrava respostas. Eu esperei que você respondesse alguma coisa, mas não disse nada. Caiu minha túnica de mãe do universo, de bruxa, de santa, de louca. Era eu, meus seios, meus quadris e um fiasco de luz que me reluzia inteira. Eu ri do seu atraso, da sua perda de tempo na minha porta, da minha nudez. Puxaram meu tapete e me deixaram entre a cruz e a espada. Eu ri até meus pulmões cansarem, e só queria que você saísse pela mesma porta que entrou.

Você estava lá, mas chegou tarde, perdeu o trem das onze. Eu esperei na plataforma e você nunca veio. Logo agora que o gigante-destino ameaça apagar tudo, você diz que cabe mais uma linha ou um parágrafo. Mas não cabe mais nenhuma letra. Por favor, não me peça para tomar as decisões que você adiou por medo, moço. Todos nós pagamos, dia após dia, as prestações do que poderia ter sido e não foi. E não é. Agora vá com esses olhos de ressaca. Acerte-se com Chronos, devolva meu tapete e feche a porta ao sair.


Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Maria Gabriela Verediano