descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

Porque ler O livro dos Abraços

Eduardo Galeano tem a incrível capacidade de dedilhar a alma humana sem fazer estragos. O livro dos abraços é para nos lembrar de descansar a cabeça em algum braço quente, apesar das durezas do mundo.


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No tempo em que se confunde militância com ódio e radicalismo, no tempo em que a indignação é seletiva, e, por vezes, cega, no tempo em que perdemos o tato e a sensibilidade, Eduardo Galeano se faz necessário. Mais que necessário, Galeano deveria ser uma prece urgente na humanidade. No meio dessa convulsão social, ele nos deixou em abril deste ano (2015). Fiquei o dia 13 desse mês de luto, inconsolável com a perda do autor que me ajudou a ver o mar. Como uma órfã, fui pegar O livro dos abraços para ler as palavras de quem foi para mim, mais que um escritor, foi profeta. O primeiro conto-poema, "O mundo", queimou-me inteira e me fez lembrar que toda chama, seja ela grande ou pequena, um dia se apaga. Enfim, a "minha ficha" caiu, Eduardo Galeano se foi.

— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas

Mas ele não me deixou de mãos vazias, me deixou um abraço, me deixou fé, me deixou um deus infinitamente melhor que o Deuscêntrico dos humanos. O deus de Galeano conversa comigo todos os dias ao entardecer e me conta confidências. O deus de Galeano é tão humano quanto eu, e não está em um pedestal sendo julgador do universo. Sinto que esse deus não se importa com meus pés descalços e, por isso, me debruço nos ombros dele, rindo da minha idiotice de existir. O mundo, definitivamente, precisava da coragem altiva Galeana, da sua capacidade de não se deixar colonizar, da sua crítica pontual e sóbria. O livro dos Abraços é como "um vento errante, desses que vagabundeiam de déu em deu" que "abre a porta da frente, como se tivesse sido chutada por algum bêbado" e escancaram também a porta dos fundos. Não há como passar impune. Eduardo Galeano conseguiu reunir em um só livro todo seu significado na vida. Eduardo poeta. Eduardo político. Eduardo místico. Eduardo teólogo. Quem não é um amante da literatura uruguaia, quem não pretende ler todas as obras produzidas por este autor magnânimo, leia, pelo menos, esse livro-polvo que te abraça por inteiro.

Eu poderia facilmente dividir minha vida antes e depois de Eduardo Galeano. Quando me esqueço de algum mandamento poético, sinto que ando precisada dele, abro o livro para folhear algumas páginas e me lembrar do "barro luminoso" do qual fui feita. Uma luvada de literatura Galeana me despenteia inteira, caem as resistências, as armaduras e as armas. E, então, de mãos leves e peito aberto me lembro de sorrir.

E de tudo o que José Luis aprendeu de seu pai, isso foi o principal:

— O importante é rir — ensinou-lhe o velho —. E rir juntos.

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"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contra-vento, e sou o vento que bate em minha cara."


Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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