descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

Elena

Um documentário que flutua no tempo e no espaço.


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Elena é um documentário lançado em 2013, sob direção e roteiro de Petra Costa, e atuação sua mãe e amigos. Petra é a prova de que uma obra de arte não surge apenas em alta tecnologia, nos equipamentos de última geração, full HD. É na técnica primária, vídeos caseiros, depoimentos ou monólogos que ela transborda originalidade. A diretora alcança a sensibilização nas memórias quase perdidas. Memórias longínquas que aparentemente só têm importância pra quem viveu a história. Mas é nesse momento que ela surpreende. No estranho, no outro, o espectador também se encontra, porque a matéria prima de Petra Costa é o ser humano e seus sentimentos. A saudade, a memória, a ausência, o amor e a morte.

Elena é baseado na vida da atriz Elena Andrade, irmã de Petra. Depois de dez anos da ausência da irmã, Petra inspirada por diários, filmes e cartas resolve documentar a perda. A certeza de que a morte é um fato irreversível torna cada palavra de Petra uma despedida doída e epifânica. Porque é na tentativa de exorcizar a dor que o documentário é produzido. A vida e a arte se encontram e não divergem, mas poetizam juntas. Mais do que “baseado em fatos reais” a dor da família é interpessoal. Transpõe-se e nos faz questionar sobre nossas paixões, sobre o sentido singular que cada um carrega da vida e sobre “pelo o que vale a pena viver”.

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O documentário demonstra seu caráter introspectivo ao projetar em cada cena a perspectiva da pessoa que caminha, que reflete em quanto caminha, alguém que passa pelo mundo, observa, e, não é observado. É a perspectiva de Petra sobre Elena. É o enfrentamento das respostas nunca obtidas e talvez a identificação dela na irmã. É a tentativa de entender o caótico raciocínio de um suicida. O trânsito, o caminhar desordenado das pessoas nas ruas, as placas reluzentes contrastam com a fala mansa e com o semblante risonho de Elena.

O desfoco das lentes, os tapes gravados pela irmã e a trilha sonora acompanha a melancolia de quem perdeu alguém que ama. Além da ausência, Elena é um documentário que discursa sobre a alma artística e todos os tormentos que a acompanha. Não se torna artista, se nasce. Elena já sabia aos quatros anos de idade que queria ser atriz. Uma artista que tem a necessidade de traduzir o mundo através do seu dom, do seu corpo e da sua fala. Uma artista como um cristal transparente que reflete com veracidade o mundo que vive. E se o mundo é caótico, a artista também o é. Com problemas nas cordas vocais, Elena se viu impedida de fazer aquilo que nasceu pra fazer, e assim seu corpo e sua mente adoeceram. “Arte para mim é tudo, sem arte eu prefiro morrer. Se eu não consigo fazer arte é melhor morrer”. Meses depois cometeu suicídio. As memórias inconsoláveis são frutos da percepção da menina Petra,agora uma mulher que deseja voltar no tempo, mudar os fatos, digerir a falta que a irmã faz.

Consciente das impossibilidades, Petra Costa resolve transformar a saudade em arte, em dança e em poesia. Elena é um documentário que exige extrema sensibilidade, e é quase impossível não se comover ao assisti-lo. É uma produção que materializa aquilo que a gente não encontra palavras pra dizer, aquele momento que você não sabe onde colocar as mãos ou como expressar seus olhos. O espectador acompanha o processo de luto da família até tudo desaguar em Ophélia, personagem de Shakespeare em Hamlet. A cineasta encerra o documentário com a perfeita intertextualidade da literatura inglesa e enriquece a obra com imagens poéticas do clássico. As Ophélias fazem com que, pouco a pouco, as dores virem água e memória. Memórias inconsoláveis. Mas “as memórias se vão com o tempo, se desfazem e encontram alívio nas pequenas brechas de poesia. E é nela que tudo se encontra”.

O resultado da produção gerou elogio, prêmios e estreias internacionais. É preciso se encontrar com Elena, tomar um café com sua irmã e mãe para entender a curta trajetória da vida. Elena exige a mínima capacidade de sensibilização do espectador, e quem alcança a plenitude do longa-metragem faz uma viagem introspectiva inesquecível. Elena, sem dúvida, é um documentário que vale a pena ser visto, observado, e, além disso, sentido.

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Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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