descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

Escrever é um parto

Tem dia que escrever um texto é um parto. Fico de cócoras, ando pela casa, medito, faço uma posição de yoga, faço dança da chuva, dança do acasalamento e nada de palavra nenhuma sair.


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São 7 horas da manhã, sinto o sol entrar pela janela do meu quarto e um texto puxar meu lençol. Eu tento negociar, como negocio com despertador mais cinco minutos de soneca, mas o texto fica irredutível, despejando palavras em cima de mim. Há dias que eu tenho textos rebeldes em mim. São os piores! Você está andando na rua, bebendo com amigos, atrasada para o trabalho, e lá vem o texto puxar a barra da sua saia insistentemente. Se ignorar é pior!

Textos rebeldes não são lá seres de boa lida, jogam palavras no meio do caminho e a gente tropeça. Se cair, melhor ainda, porque assim, forçam sua parada e ganham atenção. Com ímpeto, saem de mim, jorram um verbete inteiro no Word ou no papel. Não importa onde ou como, o texto só quer existir.

Mas confesso, alguns textos eu levo ao supermercado para fazer compras. Quando são mais dóceis, deixo até “maturar”. Levanto da cama e levo o texto para tomar banho comigo, ele não gosta muito do shampoo, porque as palavras ficam soluçando bolhas a tarde toda. Textos dóceis gostam de café, por isso, no fim do dia, bebo uma xícara com eles. Há textos que para sair de mim precisam de silêncio, outros precisam de barulho. Tem texto que gosta de gargalhada e se eu estiver triste, ele não sai de jeito nenhum. Alguns gostam de respirar maresia e entrar no mar, outros gostam da montanha bucólica.

Antigamente, eu ia à biblioteca para ler qualquer coisa. Nos tempos de escola, usava a biblioteca para me esconder dos garotos chatos ou das aulas insossas de química. Às vezes, saio de casa, pé a pé, para texto nenhum acordar dentro de mim. Saio vitoriosa, nenhum verbo se mexeu. Mas quando estou quase chegando na prateleira de literatura brasileira, um texto científico, me toma no sobressalto. "Bú! Te peguei!" As palavras tomam minha boca e verbalizo: Não acredito! Um coro na biblioteca faz: "Xiiiiu!". É, acabou minha paz.

Tem dia que escrever um texto é um parto. Fico de cócoras, ando pela casa, medito, faço uma posição de yoga, faço dança da chuva, dança do acasalamento e nada de palavra nenhuma sair. Quando me canso, sem pedir autorização nenhuma, a bolsa estoura e nasce o texto. É uma crônica! É uma crônica! Seguro-o em meus braços e choro emocionada. Ter textos dentro de mim bagunça minha vida inteira, mas nunca tive coragem de gritar com nenhum deles. Claro que já me passou pela cabeça que esse ofício não é bem o melhor que se poderia ter. Mas é que eu tenho sensibilidade aguçada, as palavras descobriram que eu as escuto. Descobriram que eu ficava espionando o ritual, de letra em letra, entre as páginas, nos livros por aí. Não sei se por afeto ou por vingança, agora resolveram me espionar também.

Tem palavra escondida atrás da cama, tem palavra dentro das gavetas, tem palavra escondida no meu cabelo. Ei, acho que acabei de ouvir uma palavra roncar. Opa, já é meio dia, é hora de levar o texto para almoçar.


Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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