descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

Liberte-se do sutiã

Como se não bastasse estipular um padrão, colocaram vergonha no corpo feminino.


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Eu devia ter uns 12 anos, quando na hora do intervalo da escola, vi um grupo de colegas rindo de uma menina. Resolvi me aproximar do tumulto de crianças e, no meio daquela roda, havia uma menina envergonhada, sem nem conseguir responder a todas as acusações, risos e chacota do grupo. O estardalhaço era puxado por um menino e a turma toda aderiu. – Até ontem você nem tinha peito, e agora está vindo para escola de sutiã, todo mundo sabe que você coloca meia aí dentro. A coordenadora apareceu, a garotada toda se espalhou e a menina começou a chorar.

Eu fiquei com vergonha por ela, porque me coloquei no seu lugar. Aos 11/12 anos, eu também fazia isso em casa. Por pouco, não saio uma travesti, porque sempre gostei de me fantasiar, de me transvestir. Enchia duas bexigas de água ou enchia os sutiãs de minha vó de meias, calçava os sapatos altos, usava batons, e, de repente, eu era uma drag em um palco iluminado cantando para um grande público.

Havia casos - na minha época de escola - de meninas que, aos 12 anos, já tinham “corpo de mocinha”, seios grandes, quadris mais redondos. Os garotos de 13/14 anos, com os hormônios à flor da pele, bajulavam as mais desenvolvidas. Pronto, ali começa se estabelecer a mensagem de que precisamos atender a um padrão de desejo para sermos aceitas. A hipersexualização dos corpos. Voltamos ao início do texto, lembra da menina que encheu o sutiã com meias? Então, ela só queria ser aceita.

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Entende-se muito cedo que você não pode ser gorda demais, magra demais, nem negra demais.

Como se não bastasse estipular um padrão, colocaram vergonha no corpo feminino. Aos 15 anos, eu já estava desesperada porque meus seios não cresciam como das outras meninas. Apelei para o bojo. Eu simplesmente não conseguia usar roupa nenhuma sem um sutiã de enchimento. Dormia de sutiã, porque uma amiga falou que só assim o peito não ficava caído. Eu estava preocupada aos 16 anos com a possibilidade de um peito caído! Estava escrava! Aos 17, ainda na escola, fui corneada por um namoradinho, com uma menina loira que tinha seios enormes. O boato era que a tal menina fazia “a espanhola”. Eu nem sabia o que era isso, tive que pesquisar no Google. Concorrência desleal, aquilo só podia ser um pesadelo. Eu sonhava em arrebentar com a cara dela todos os dias. Mais um estigma: uma mulher rival da outra.

Vivemos em um clima de terror. Porque fomos educadas para agradar os outros e não a nós mesmas. O corpo é meu, mas nenhuma decisão que tomo sobre ele é minha. Quem determina é a revista, é a propaganda, é a opinião masculina.

Hoje, resolvi vestir uma camisa que tenho há anos. Sim, minhas roupas duram muito tempo. É primeira vez que a uso sem sutiã, apesar dela não ser transparente e ter um desenho enorme de uma mandala no peito. Aboli o uso excessivo desses pares de bojo já tem alguns anos, e hoje me perguntei porque não fiz isso antes. Até quando vamos ficar no meio da roda sendo subestimadas e ridicularizadas por pessoas que não habitam nossos corpos? Até quando vamos marchar em bando atrás do estereótipo do corpo perfeito?

Até hoje, a maioria das pessoas que criticam o movimento feminista não entendem porquê as mulheres queimavam/queimam os sutiãs em praça pública. Alegam: só querem aparecer.

Eu entendo cada faísca que queima dos tecidos do bojo. Sim, eu quero aparecer. Eu quero que me enxerguem como eu sou e não como um produto. Além de mulher, sou um ser humano, e quero que meu corpo seja respeitado como ele é. Sim, queimem os sutiãs! Aceitem seus corpos. Libertem-se.

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Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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