descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

A morte é como um unicórnio

Quando me dei conta de que isso não era um jogo, apesar de se parecer muito com a dança das cadeiras, a pergunta mor que me sobreveio foi: O que fazemos com a vida enquanto a temos nas mãos? A sequência egocêntrica foi lógica: A morte existe, logo eu vou morrer.


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Eu demorei 21 anos para me dar conta de que as pessoas morriam. 21 anos vivendo em um mundo no qual a morte, unicórnios e a ficção científica estavam no mesmo patamar de significado. A morte estava lá na casa do vizinho, no bairro do outro lado da cidade, do outro lado do mundo. Sim, eu sabia que as pessoas morriam. Aos 6 anos, eu sabia que minha tia tinha visto a morte quando ela apareceu lá em casa chorando e abraçando minha mãe. Meu avô tinha "partido dessa para melhor". Eu ouvi falar da morte como quem escuta contos de fada. As pessoas descansam, viram estrela, dormem, vão se encontrar com algum deus, mas as pessoas morrem?

É claro que ainda não encarei a morte, caso tivesse visto, esse texto não seria um artigo, seria uma carta psicografada. Mas foi num dia desses de dezembro, que a morte passou por mim, bem debaixo do meu nariz, levou minha vó e deixou cair seu lenço vermelho aveludado na sala da minha casa. Vermelho escarlate. A morte tem bom gosto, eu tinha que admitir isso. Como lufada, um breve lembrete, ela me disse um olá.

Os unicórnios saíram em bando correndo floresta a dentro, e eu já não sabia mais em que pódio deveria colocar a velha senhora que tinha acabado de ser furtivamente apresentada a mim. Dizem que não há como passar impune mediante aos encontros ou pseudos encontros que ocasionalmente ocorrem com a morte. Acho que a humanidade simplesmente não conseguiu conviver com seu tom sóbrio e misterioso. Independente do significado doloroso, dramático, heroico ou epifânico que nós gostamos de dar a tudo que existe ou deixa de existir, o princípio é básico: as pessoas morrem.

Quando me dei conta de que isso não era um jogo, apesar de se parecer muito com a dança das cadeiras, a pergunta mor que me sobreveio foi: O que fazemos com a vida enquanto a temos nas mãos? A sequência egocêntrica foi lógica: A morte existe, logo eu vou morrer. Falar que a morte existe é cair em um hiato antitético sem fim, considerando que a morte é tudo aquilo que deixa de existir. Definitivamente, essa Lady Die veio para chutar os bagos da arrogância humana. Não temos a menor autonomia sobre o nosso destino astrológico. Não sabemos se a vida é uma viagem onde tudo começa ou onde tudo acaba.

É claro que há muitas teorias nas quais gostamos de acreditar de que a vida não acaba aqui. Mas sendo muito filha de São Thomé, não é usual na sociedade termos acesso naturalizado ao mundo dos mortos. Isso só me leva a pensar que mais importante que saber o que há do outro lado dessa linha tênue é o que fazemos antes de atravessá-la. Minha vó dormiu acreditando que no outro dia iria preparar a tradicional ceia de natal, e simplesmente não acordou. Não sabemos qual será a última refeição. Não sabemos qual será a última palavra até o momento exato de partir. Trágico ou mágico?

O que faremos da vida enquanto fingimos que temos o controle absoluto?


Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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