descortinada

Os olhos do moço bonito me avistaram daqui

Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana.

Apropriação cultural e a luta de classes

"A sociedade branca bebe, come e dança a cultura negra."
Antônio Pitanga


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"Apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Ela descreve aculturação ou assimilação, mas pode implicar uma visão negativa em relação a aculturação de uma cultura minoritária por uma cultura dominante." Geledés Instituto da Mulher Negra

O caso de uma jovem branca usando turbante no ônibus suscitou a discussão sobre apropriação cultural de novo nas redes sociais essa semana no Brasil. Um amigo resolveu me perguntar o que eu achava daquilo, e receio que a publicação da minha resposta vá gerar uma série de agressões verbais, como tudo na era do haters. Mas... vamos lá. Vamos começar pelo fato de que discutir sobre apropriação cultural não tem nada a ver com proibir as pessoas de usar acessórios que são símbolos de luta das minorias. Discutir é refletir criticamente sobre um fenômeno que vem acontecendo há muitos anos no Brasil e só agora as minorias estão dando vazão à voz que antes era silenciada. A confusão toda é que para algumas pessoas, os indivíduos com esteriótipo branco não devem usar deliberadamente os acessórios da cultura negra, indígena, etc. E com isso não quero dizer exclusivamente da cultura negra ou indígena. Fiz esse recorte, porque no Brasil o histórico de massacre e opressão se deu massivamente sobre negros e indígenas desde a sua colonização. Sendo, estes, aqui, uma minoria se tratando de falta privilégios ou obstáculos para mobilidade e/ou ascensão social.

A questão fica conflituosa quando me pergunto: De quem vai ser a régua que vai medir o quanto se é negro ou indígena o suficiente para delimitar apropriação cultural ou não? E as pessoas de religião afrodescendente que são brancas? E as pessoas que tem a cultura negra enraizada em familiares, na sua construção social quanto indivíduo, mas não tem o fenótipo suficiente para carregar os acessórios? A resposta é simples: NÃO TEM COMO SABER. E o maior equívoco é esse, de sair acusando pessoas que você não conhece de apropriação cultural. A luta não é contra as pessoas, mas contra a indústria da moda que lucra milhões em shoppings, boutiques e grifes usando araras em extinção em estampas de roupas que o preço deveria ser mais ilegal que comprar a própria arara. As mesmas lojas, que a propósito, mandam os seguranças seguirem os clientes "mais suspeitos". A mesma loja que não atende o cliente "suspeito". A mesma loja que pede por favor, senhor, abra a bolsa. A minha luta não é contra a vizinha branca periférica que pega ônibus junto comigo para ir trabalhar todos os dias. Enquanto odiamos uns aos outros, a lojas vendem, vendem e vendem, e os índices de feminicídio negro sobe. O verdadeiro alvo não é sequer atingido: a briga deveria ser pelo oportunismo e lucro das empresas com a cultura de um povo tão explorado e não com os consumidores que são a ponta do iceberg.

Semana passada, vi um vídeo de um encontro de jovens em um posto de gasolina, bebendo e ouvindo funk. Os comentários giravam em torno de chamá-los de "vagabundos", "marginais", "bandidos", "ratos". Alguns sugeriram, inclusive, que o posto de gasolina deveria pegar fogo. Assisti uma, duas, três vezes. Será que eu havia deixado algo escapar? Não havia nada além de dança e bebida. Por que será que quando toca funk em um baile de formatura de Direito e a moçada vai até o chão embriagada, ninguém acha um ultraje? Estão apenas se divertindo. A questão da apropriação cultural tem uma nascente muito forte na luta de classes. Não se trata simplesmente de música "obscena" ou "imoral", trata-se de qual classe faz uso dela. Assim como foi no samba, que nos anos 1920 já foi considerado coisa de marginal e de vadios, e hoje faz parte da trilha sonora oficial dos banquetes da elite, reconhecido como a verdadeira música brasileira. Exportada mundo a fora MADE IN BRAZIL. Quem é carioca, pode atestar, as rodas de samba não são mais as mesmas. O raio hipsterizador deixou seus vestígios. Há ainda quem faça turismo na favela, mas morar na favela o turista branco da classe média não quer. Ficar sem trabalhar, porque o confronto com a polícia ficou feio no morro, ninguém quer. E nem se preocupam com os que lá vivem. A favela vai para o asfalto e as varandas gourmet tremem. "Queremos paz". Queremos Imagine all the people. Imagine all the people com segurança, saúde, saneamento básico e educação? Imagine all the people com os mesmos privilégios e acesso de bens intelectuais e de consumo. Imagine all the people podendo voltar para casa sem levar um sacode da polícia. Imagine all the people sem problemas de autoestima por causa do padrão eurocêntrico de beleza. O grande problema da apropriação cultural é esse. É usurpar tudo de mais bonito que há na cultura das minorias, sem nem ao menos se preocupar com vida dessas pessoas. É objetificar o corpo negro e depois descartá-lo mais uma vez. É ignorar décadas de marginalização e luta. É fingir que não vê nos noticiários o amontoado de corpos mortos pela sociedade higienista e gentrificadora.

A briga não é pelo turbante, queridos.


Maria Gabriela Verediano

Libriana com ascendente em sagitário, Maria é das Letras. Ora Maria bonita, ora Maria Madalena. Dramática e cinematográfica, às vezes, acredita que o enredo da sua vida saiu de uma novela mexicana..
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