desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Corações de Concreto

Este texto tem como objetivo trazer algumas reflexões a partir de um projeto particular intitulado "Corações de Concreto", em que busco registrar corações formados pelo tempo nos mais distintos espaços. Compartilho com vocês o prazer de contemplar a beleza nos pequenos detalhes.


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A bela canção "Beautiful Day", da banda irlandesa U2, começa com a seguinte estrofe: "The heart is a bloom shoots up through the stony ground" ("O coração é uma flor que brota no chão rochoso"). Se cada um de nós prestasse mais atenção aos detalhes e desse menos importância às propagandas dos meios de informação/comunicação, talvez pudéssemos perceber que esta mensagem possui um sentido mais literal do que imaginamos.

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Há alguns meses comecei um projeto particular, intitulado Corações de Concreto, com o objetivo de buscar corações em espaços pouco privilegiados pela visão humana. Nos lugares menos comuns, caminhava tentando encontrar representações daquilo que se assemelhasse a este órgão humano. No entanto, não entrava na lista aqueles formados intencionalmente pela ação humana. São os corações formados pela ação do tempo que definiram meu modo de ver "vida onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar".

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O mais interessante de todo esse processo foi perceber o quanto estamos rodeados de corações. Mesmo nas mais cinzas das cidades, mesmo nos mais obscuros espaços, há pequenos sinais de vida que estão, em muitos dos casos, bem debaixo dos nossos pés. Se direcionarmos nosso olhar para novos ângulos, se o permitirmos ver além do que costumamos enxergar, talvez essa seja uma ideia interessante para não cairmos na monotonia do cotidiano infeliz.

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Não é tão difícil perceber essa arte entre nós quando paramos e prestamos atenção. Muitas das imagens que registrei foi quando caminhava em direção a lugares comuns (ponto de ônibus, padaria, supermercado...) ou quando ia em direção ao meu "muro das maravilhas" (aquele lugar que todos precisam para respirar um pouco de ar puro). Caminhar faz bem para o corpo, para a mente e para a alma. Menos um automóvel na estrada; mais tempo de reflexão e contemplação; mais prazer espiritual.

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Claro que nessas caminhadas você sempre acaba encontrando muitos formados intencionalmente pelo homem. Como se fosse quase vital fazer com que as pessoas percebam que aquilo representa um coração (mesmo que sua forma seja simetricamente perfeita e que nosso coração, como bem conhecemos, esteja longe dessa perfeição).

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O fato desses corações serem criados intencionalmente não tira a beleza da arte produzida e muito menos diminui o valor de sua finalidade. Às vezes precisamos que alguém nos leve a ver o simples da forma mais convencional possível. Vivemos tempos difíceis, em que pronunciamentos de guerra ecoam pelas gargantas das vozes mais autoritárias do planeta; fugir dessa realidade através (ou a partir) da própria realidade, é algo de que precisamos.

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Somos seres pensantes. Quando conectamos nossos pensamentos ao nosso coração passamos a praticar aquilo que os pensadores mais humildes e sábios chamam de humanidade. O escritor Eduardo Galeano disse uma vez: "Cuidado com quem somente raciocina . Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. E quando a razão se separa do coração, comece a tremer. Porque esse tipo pode te levar ao fim da existência humana no planeta. [...] Eu creio nessa fusão contraditória, difícil mas necessária, entre o que se sente e o que se pensa". A conexão humana com a natureza não se dá a partir da visão. Ela acontece a partir do que sentimos.

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Para concluir esta postagem, deixo para vocês uma visão de algo que aconteceu essa semana, enquanto trabalhava. Um homem, de alma muito sensível, ao varrer as folhas caídas no chão próximo ao prédio da Universidade em que trabalho, acabou criando o formato de um coração. Poderia dizer que foi intencional se ele tivesse percebido isto. Mas não foi. Sua construção partiu de sua alma. As duas imagens abaixo mostram esta fabulosa criação (formada da união homem-natureza). Uma prova de que tudo aquilo que fazemos pode ter um outro/novo sentido.

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José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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