desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

AMOR EM QUATRO SESSÕES

O texto a seguir trata do amor em quatro sessões de cinema. São apresentados quatro filmes que se tornaram memoráveis na história do cinema nas últimas quatro décadas (Paris, Texas em 1984; A Mulher e o Atirador de Facas em 1999; Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças em 2004; e Antes da Meia-Noite em 2013). O amor aqui é representativo, mas nem por isso menos real.


É estranho conhecer pessoas. E não é ruim, de modo algum. Acontece que algumas pessoas surgem de forma inesperada em nossas vidas, em nosso caminho, transformando em caos a ordem ou ordenando o caos quase imperceptível de nossas vidas. Eis uma deliberada terapia de autoconhecimento proposital. Como afirma a personagem Adèle em A Mulher e o Atirador de Facas: “A vida começa quando se faz amor.”

Em se tratando de amor, o cinema é uma perfeita representação dos diferentes tipos e formas de se amar. Desde o mais banal ao mais clichê, há uma representatividade daquilo que pode nos atormentar e acalentar. Como exemplos de filmes que apresentam esta temática, deixo abaixo quatro títulos que servem para nosso consumo; não é como consumir um fast-food ou ouvir as mais pedidas. É do tipo de consumo em que apreciamos o trabalho sem se preocupar com o tempo (ou com o que vem depois). Esqueça a coca-cola e saboreie calmamente o seu prato (como se nunca fosse acabar).

A Mulher e o Atirador de Facas (La fille sur le pont, 1999, de Patrice Leconte)

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Temos neste longa a representação do amor em dois personagens que, cada um à sua maneira, acabam se complementando. Ela busca algo que muito precisa (e para isso recorre ao sexo); ele busca algo que muito precisa (e para isso, recorre a ela). Do distinto surge o comum. Como duas substâncias diferentes que se combinam pela primeira vez. Não dá para saber o que vai sair dessa experiência, apenas notamos que o valor dado a ela ultrapassa a própria compreensão da nossa história.

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Utilizando de um atirador de facas, podemos imaginar que o diretor faz uma metáfora de nós mesmos. Afinal de contas, “todos nós somos atiradores de facas em maior ou menor grau, porque precisamos arriscar para alcançar nossos sonhos, neste risco podemos arranhar, nos ferir gravemente, perder tudo ou vencer”. Só vence ou perde, quem arrisca o que tem (mesmo que tudo que você tenha seja seu tempo). Outra metáfora interessante que vemos no filme é em relação a ponte, em que no início da película Adèle se joga dela no mar gelado, mas é salva pelo atirador de facas. No fim, temos novamente o cenário da ponte, mas dessa vez é ele quem está prestes a tirar sua vida; no entanto, Adèle surge e o salva. É neste momento que podemos pensar na ponte como nós mesmos – podemos ser como uma ponte a outra pessoa. Às vezes temos medo de passar por essa ponte, temos medo que ela não seja firme e segura o suficiente; e então, quando nos encontramos distantes e a reencontramos depois, percebemos que ela segue ali, à espera de nossa passagem.

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E ao final do espetáculo – sim, porque cinema também é espetáculo – temos a sensação de que entre eles, entre as duas substâncias desconhecidas, surge um elemento novo, que catalisa sua energia na aproximação intelecto-corpo-espiritual dos personagens. A soma de todos os erros é a prova de que "admiramos as pessoas pelas suas qualidades, e as amamos pelos seus defeitos".

Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013, de Richard Linklater)

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Este é o filme que fecha “a mais romântica trilogia do cinema”. Para quem acompanhou a trajetória de Jesse e Celine em Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e em Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004), sabe o quanto o diretor Richard Linklater (junto com os protagonistas da obra, Ethan Hawke e Julie Delpy) trata com maestria o amor em seus pequenos e grandes detalhes. E é nos diálogos (verbalizados ou não) que percebemos o quanto estamos próximos daquilo que vemos.

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Podemos chamar este de a maior representação cinematográfica de um “amor verdadeiro” no sentido mais intenso da palavra. Todos os elementos de uma rotina comum aos casais da “vida real” se encontram aqui. E as caminhadas com seus incríveis diálogos continuam dando o tom do filme.

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O amor também cansa, sufoca, perturba, mexe com nossa mente, nosso corpo e nosso espírito. Mas a confiança não é com um copo quase cheio ou quase vazio, que pode ser preenchido ou esvaziado a qualquer momento. E é ela que possibilita ao outro ter a certeza que mesmo estando distante, estando errado ou agindo diferente, o sentimento não se esvairá. Porque no silêncio, um olhar pode dizer muita coisa. Porque no presente, o passado pode acender a memória. Porque em uma relação, são duas pessoas criando e inventando histórias de si mesmos.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004, de Michel Gondry).

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E no amor há espaço para a filosofia? Sim, claro. Aquele que consegue conectar o coração ao cérebro e vice-versa consegue se conectar ao mundo e à natureza da forma mais pura e humilde possível. Também amamos com a cabeça e pensamos com o coração (apesar de o essencial, como bem nos ensinou O Pequeno Príncipe, só ser perceptível aos olhos do coração). E quando entramos num estágio de amor em que a necessidade de um torna-se maior que a vontade mútua? Precisamos esquecer (pelo menos essa é uma das formas mais clichês que o cinema costuma nos apresentar).

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No entanto, nada clichê é o longa Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Com uma atuação acima da média de Jim Carrey (tão incrível quanto em O Show de Truman), somos apresentados ao amor que se perde no tempo e na memória. O tempo renova e a memória apaga cenários que constituíam uma história peculiar. Quando queremos esquecer, sofremos porque não podemos simplesmente fazer isso. Quando não queremos esquecer, sofremos porque há a possibilidade (sem intenção alguma) de que isso aconteça.

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“Clementine: – Daqui a pouco vai acabar. Joel: – Eu sei... – E o que fazemos? – Aproveitamos.”

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“Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos.” (Nietzsche)

“A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.”

“Você ama quem você ama, não importa porque ama”.

Paris, Texas (1984, de Wim Wenders)

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Este é um dos trabalhos mais conhecidos do diretor alemão Wim Wenders. Com uma fotografia sublime, grandes atuações e um dos roteiros mais poéticos e sensíveis da história do cinema, este é um filme que permanece em você depois de assistido (ou melhor: contemplado).

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Não há muito que comentar quando tratamos de uma obra-prima. O amor, assim como na vida cotidiana, é aqui tratado como uma busca (busca esta que pode levar a lugar nenhum). Peço licença e deixo abaixo um dos diálogos finais do filme:

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[Dois personagens, num pequeno espaço, tipo uma sala ou um quarto, separados por um vidro, em que de um lado, o lado dele, dá para ver o que há do outro lado, ela; mas no lado dela, ela só consegue ver a si mesmo no reflexo do vidro; a comunicação entre ambos ocorre por meio de um telefone.]

(Travis) – Posso lhe dizer uma coisa? (Jane) – Claro, diga o que quiser. – Vai demorar. – Tenho tempo de sobra. – Conheci umas pessoas. – Que pessoas? – Duas pessoas. Elas se amavam. A moça era muito jovem, tinha uns 17 ou 18 anos, acho. O rapaz era bem mais velho. Era bruto e rude. E ela era muito bonita, sabe? – Sei. – E juntos faziam de tudo uma aventura. E ela adorava isso. Uma simples ida ao mercado já era... uma aventura. Sempre riam de bobagens, ele adorava fazê-la sorrir. E... Não se importavam com o resto, porque só queriam ficar juntos. Estavam sempre juntos. – Parece que eram muito felizes. – Sim, eles eram felizes. E ele... a amava mais do que... julgava ser possível. Não suportava ficar longe dela enquanto trabalhava. Então ele largava o emprego. Só para ficar com ela em casa. Quando faltava dinheiro, ele arrumava outro trabalho. Depois ele se demitia novamente. Mas, então, ela começou a se preocupar. – Com o quê? – Com o dinheiro, por não ter o suficiente. Por não saber quando chegaria o outro cheque. – Sim, sei o que é isso. – Daí ele começou a se atormentar. – Como assim? – Bem, ele sabia que tinha que trabalhar para sustentá-la... mas não suportava ficar longe dela também. – Entendi. – Quanto mais ele ficava longe dela, mais enlouquecia. Até que ele enlouqueceu de verdade. Ele começou a imaginar todo o tipo de coisas. – Que coisas? – Que ela começava a sair... com outros quando ele não estava em casa. Quando voltava, ele a acusava de ter ficado com outros. Ele gritava e quebrava tudo no trailer. – No trailer? – Sim. Eles moravam num trailer. – Desculpe-me, senhor, mas não esteve aqui num outro dia? Não quero ser intrometida. – Não. – Pensei ter reconhecido sua voz. – Não, não era eu. – Por favor, continue. – Então ele começou a beber muito. Passou a voltar tarde para casa para testá-la. – Como assim, testá-la? – Para ver se ela sentia ciúmes. Ele queria que ela sentisse ciúme, mas ela não sentia. Só se preocupava com ele, o que o enfurecia ainda mais. – Por quê? – Porque... pensava que se ela não sentia ciúmes... não se importava com ele. E os ciúmes seriam um sinal de que ela o amava. Então numa noite... Numa noite, ela contou que estava grávida. De uns 3 ou 4 meses. Ele não sabia. E, então, tudo mudou. Ele parou de beber e conseguiu um emprego fixo. Ele se convenceu com amor dela, pois ela levava um filho dele. E ele ia se dedicar inteiramente a lhes dar um lar. Mas aconteceu uma coisa estranha. – O quê? – No início ele não reparou, mas ela havia mudado. Desde que a criança nasceu, tudo em volta a deixava irritada. Ela se irritava com tudo. Até o bebê parecia uma injustiça para ela. Ele se esforçava para agradá-la. Dava-lhe presentes... Levava-a para jantar toda semana... Mas nada a satisfazia. Durante dois anos ele fez tudo para que voltasse a ser como era. Finalmente, acabou entendendo que isso seria impossível. Daí ele voltou a beber e as coisas pioraram. Quando voltava tarde, ela não ficava mais preocupada... nem com ciúmes. Ela só ficava furiosa. Ela o acusou de tê-la raptado só para fazer um filho. Dizia que queria fugir, que só sonhava com isso. Via-se correndo à noite nua na estrada. Correndo através dos campos. Correndo pelos leitos dos rios. Sempre correndo. E sempre que estava prestes a fugir, ele aparecia e a impedia. Ele sempre chegava para impedi-la. Quando ela lhe contava esses sonhos, ele acreditava. Sabia que se não a impedisse, ela fugiria para sempre. Daí ele amarrou um guizo ao tornozelo dela... para ouvir se ela tentasse se levantar da cama à noite. Mas ela aprendeu a abafar o som com a meia para sair no meio da noite. Uma noite a meia caiu enquanto ela tentava fugir pela estrada. Ele a pegou, a arrastou até o fundo do trailer e a amarrou ao fogão, com o seu cinto. Deixou-a ali e voltou para a cama. Deitou-se e a ouviu gritar. Depois ouviu o filho aos gritos. Ele admirou-se porque não conseguia sentir mais nada. Ele só queria dormir. E pela primeira vez, ele quis ficar bem longe dela. Perdido num país enorme onde ninguém o conhecesse. Num lugar sem idiomas... e sem ruas. Ele sonhou com esse lugar sem saber o nome. E quando acordou, ele estava num incêndio. Chamas azuis queimavam os lençóis da cama. Correu pelas chamas para os únicos dois que ele amava. Mas eles tinham sumido. Seus braços estavam pegando fogo. E ele saiu de casa... e rolou no chão molhado. Daí ele correu. Ele nunca olhou para trás para ver fogo. Só correu. Correu até o sol nascer. Até não poder mais. E quando o sol se pôs, ele tornou a correr. Por cinco dias, ele correu assim. Até que o último sinal de vida... tivesse desaparecido. [Silêncio até que ela pergunta] – Travis? – Se você apagar a luz, será que pode me ver? – Eu não sei. Eu nunca tentei. [Ela levanta e apaga a luz] – Pode me ver? – Sim. – Você me reconhece? – Oh! Travis! – Trouxe Hunter [o filho] comigo. Não quer vê-lo? – Sim. Quero vê-lo tanto que nem posso mais imaginá-lo. Anne [com quem ela deixou o filho] me mandava fotos dele. Até que eu pedi para que parasse. Não aguentava a dor de vê-lo crescer e perder isso. – Por que não ficou com ele, Jane? – Eu não podia, Travis. Eu não tinha o que ele mais precisava. Não queria usá-lo para preencher meu vazio interior. – Ele precisa de você, Jane. Ele quer vê-la. – É mesmo? – Sim. Ele está esperando por você. – Onde? – No centro, hotel... The Meridian. Quarto 1520. 1520. – Você não está indo embora, não é? – Não posso vê-la, Jane. – Não vá embora ainda. Não vá embora ainda. [Ela para por um instante e começa a falar] – Eu... Costumava fazer longos discursos após você partir. Eu falava sempre com você, mesmo quando estava sozinha. Conversava com você por meses a fio. Agora não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu só o imaginava. Eu até imaginava que você me respondia. Conversávamos longamente. Só nós dois. Era como se você realmente estivesse comigo. Eu o escutava, via-o, sentia seu cheiro... Eu podia ouvir sua voz. Às vezes sua voz me acordava. Acordava-me no meio da noite, como se estivesse comigo. Depois... Tudo foi acabando. Já não podia mais imaginar você. Tentei falar com você como sempre fazia, mas foi em vão. Já não podia mais ouvi-lo. Então... Eu apenas desisti. Tudo acabou. Você... simplesmente desapareceu. Agora estou trabalhando aqui. Ouço sua voz o tempo todo. Todo homem tem a sua voz. [Mais um tempo em silêncio até que ele fala] – Direi ao Hunter que você vai vê-lo. – Travis? – O quê? – Eu estarei lá. – Ótimo! – Hotel The Meridian? – Sim. Quarto 1520.

Segundo o diretor Patrice Leconte, “o cinema existe, ou foi inventado, para contar histórias de amor”. Estes quatro filmes traduzem muito bem essa afirmação. A vida não é um simulacro, por mais que tentemos manter aparências ou dramatizar suas situações. Diferente de um filme, não temos somente 120 minutos (ou mais, ou menos) para lembrarmo-nos de tudo que (ainda) não (ou já) aconteceu. Somos quase que obrigados a despertar antes que as legendas cheguem ao fim. E o amor permanece eterno em nós, enquanto a faca não corta, o diálogo não acaba, a memória não apaga e, na busca, não nos perdemos.


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.
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