desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

SOMOS TODOS ARTIVISTAS!

Este texto tem o intuito de discutir sobre o equilíbrio entre a produção artística e científica para a humanidade. Devemos usar nossas mentes para pensar e produzir não somente conceitos e fórmulas científicas concretas, quase dogmáticas e absolutas, mas também balancear nossos estudos e pesquisas com formas de expressão e representação não tão rígidas e controladas. O simples e complexo, o concreto e abstrato, o certo e duvidoso, o perfeito e imperfeito... Na arte, assim como na ciência, são inúmeras as possibilidades.


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“O equilíbrio da vida é a poesia” (Laise Oliveira do Carmo)

No Brasil, desde o final do primeiro semestre de 2013, muitos movimentos sociais estamparam as capas dos jornais e foram transmitidos entre as principais matérias dos noticiários da grande mídia. Vale registrar que tais movimentos não surgiram do “nada” (como se de repente, depois de tanto tempo de precariedade, a população resolvesse “se levantar da poltrona, desligar a TV e ir pra rua”) ou a partir do “nada” (do nada que os políticos, no exercício de sua função, oferecem a milhões de brasileiros que necessitam sobreviver).

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Sim, diante de tantas desigualdades que esmagam e deixam famintas tantas pessoas, não dá para dizer que este não seja um fator de (re)ação contra a atual conjuntura. No entanto, tais movimentos vêm se organizando e reivindicando seus direitos há muito mais tempo. Acontece que a grande mídia, através da televisão – essa “célebre máquina de fazer doido”, parafraseando Stanislaw Ponte Preta – só gosta de propagandear o incêndio quando as chamas começam a se aproximar de seu “território”.

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Depois que a seleção brasileira de futebol conquistou a Copa das Confederações, diante da seleção espanhola, os noticiários – e boa parte da população, é bom dizer – esqueceram do fogo quase incontrolável que vinha devastando toda uma floresta de contradições políticas em nosso país. Foi como se, de repente (tão de repente de quando supostamente começou), o fogo apagasse. Mas não apagou! O fogo continua aí, diante de nós e em todos nós, mas já não vale mais falar sobre isso quando não afeta o território restrito dos grandes meios de comunicação em nosso país; ainda mais levando em consideração que se aproxima o novo BBB! Debaixo do tapete muito fogo está queimando. E o foco de todo esse incêndio, onde está?

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O Natal, com todas suas luzes e músicas repetidas, passou e em nada modificou o espírito que reside em nossos governantes. Dizem que para se acabar com a fome tem primeiro que se oferecer a comida, e não o prato. Mas aqui o prato vem antes porque a comida fica retida na alfândega enquanto espera a liberação (só que diante de tantas drogas e produtos contrabandeados, passa-se o prazo de validade e a comida é jogada no lixo nosso de cada dia – às vezes, apenas devolvida ao lugar de onde veio).

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Mas 2014 começou! Ano da prosperidade e da fraternidade, como assim será cada velho novo ano... E o texto foi iniciado com uma bela frase de Laise Oliveira do Carmo, é bom não esquecer: “O equilíbrio da vida é a poesia”. Tão profunda e leve, essa frase soa como uma máxima a ser lida, relida, trelida, pensada, repensada e refletida. Onde está esse equilíbrio? Na música, cinema, pintura, dança, escrita, encenação... Eis a poesia da vida: a arte! E onde está essa arte, que pouco se percebe? Ela está em todo lugar, em cada pessoa, ela está nos grandes e pequenos detalhes, no ínfimo, no complexo, no absoluto, no extremo. Se ela está em todo lugar, porque poucos a percebem?

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Vejamos alguns indicativos que podem esclarecer um pouco desse momento histórico que estamos vivendo (ao menos, no campo dos estudos acadêmicos e científicos). Em rápida pesquisa na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pude obter o registro de produções artísticas e de produções técnicas (delimitado ao campo “apresentação de trabalho”) do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe (PPGED/UFS), no que se refere ao período 2002-2012. Durante esse tempo, o Programa registrou um total de 14 produções artísticas; já do outro lado da balança, foi registrado um total de 2684 produções técnicas (2684 trabalhos apresentados em eventos acadêmico-científicos!). Não que seja de todo ruim esse fato, é bom saber que se produz muitos trabalhos técnicos. Mas, para quê tudo isso? Para onde vai tudo isso? Quem consegue consumir e fazer a devida digestão de tanta coisa? E desde quando a produção técnica passou a ser mais relevante que a produção artística?

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É preciso que a universidade seja um campo profícuo à produção técnica tanto quanto à produção artística, pois o mundo necessita, urgentemente, de mais artistas. Será por isso que há tanto stress, competição doentia e inúmeros atos de mesquinharia no ensino superior? Será que falta arte para se produzir mais sorrisos e olhares sinceros, para se desenvolver em grande escala solidariedade e empatia? A universidade pode muito bem ser analisada como um microcosmo social; e assim como a sociedade contemporânea, ela parece estar distante desse equilíbrio vital a todos os seres. Precisamos fazer algo (alunos, professores, comunidade em geral) antes que a balança, de tão pesada e irregular, caia somente para um lado. Buscar um novo equilíbrio (social, econômico, humano, planetário). É preciso transformar! E é bom que se saiba:

“Só o amor transforma” (Laiane Oliveira do Carmo)

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José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.
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