desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

GRANDES ESCRITORES...

A seguir apresento grandes escritores de destaque na cena literária contemporânea (não em relação à venda e divulgação de seus trabalhos, mas em relação à sua qualidade). São autores ainda pouco conhecidos pelo grande público, e que merecem nossa atenção devido à singularidade de suas obras. Conheça um pouco destes artistas, de seu trabalho, de sua arte!


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Não se deixe enganar. Esqueça (por um instante) nomes como Jorge Amado, Machado de Assis, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, José de Alencar, Manoel de Barros, entre outros autores consagrados de nossa literatura (só para citar alguns). A lista a seguir é composta por pessoas “comuns” (nem por isso, menos importantes dos que os já citados) que resolveram fazer parte desse rol de grandes mestres. No sangue dessa gente também corre palavras, que são tiradas e transformadas em versos, textos, poesias; palavras que marcam a vida daqueles que se atrevem a ler. Eles, assim como tantos outros, estão em busca de seu espaço, de um “lugar ao sol”. Conheçamos um pouco mais de sua arte!

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Essa jovem paranaense, nascida em abril de 1991, que reside na cidade de Dois Vizinhos, tem uma sensibilidade peculiar para contar pequenas histórias e para refletir sobre problemas de nossa sociedade. Formada recentemente em Direito, Angélica Miranda (A.M.) sabe que o mundo é complexo, todavia sabe também que em sua simplicidade está a resposta para muitas das perguntas que costumamos nos fazer. Sua escrita é como tomar um bom café quente. Você bebe devagar, saboreia cada gole e fica com aquela vontade de mais um pouco quando chega ao final. Aprecie um pouco de seus pensamentos:

“O amor não é um tipo de arma que você empunha, é a delicada flor do cotidiano.”

“Você vai perceber com o tempo, que ter ternura nos olhos e um coração enorme não é ingenuidade. É um jeito delicado de tocar almas, almas iguais a sua, assim tão vazias.”

“O mundo virou uma espécie de montanha russa, as pessoas passam tão depressa ao seu lado, vibram com a loucura de estar com os pés nas nuvens, mas logo estão no chão, tristes e solitárias. Amor virou sentimento de gente corajosa, ninguém aposta mais, virou carta sem valor, as relações passageiras viraram a nova modinha e ninguém mais acredita ou pensa que é coisa de gente boba e sonhadora. Pois eu te digo com firmeza, na loucura dos anos, quando a juventude já for teu passado e sua beleza for embora, compreenderá o que eu digo, ninguém vive muito tempo sem acreditar, é como morrer todos os dias e achar que está se vivendo bem.”

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Natural da cidade de Estância, Sergipe, este fã de Kerouac, Ginsberg e Bukowski, estudante do curso de Letras, admirador de (rap)entes e olhar apurado para a fotografia, tem muito a escrever; e nós, muito a agradecer. Suas palavras são livres como seu pensamento. Um escritor nos moldes antigos, que leva seu bloco de anotações e uma caneta a todo lugar que vai. Experiências passadas o fizeram ter mais cuidado com sua arte, que agora também se digitaliza. Marcio Souza (Marcio von Frankenstein) não é somente mais um na multidão. Longe de ser levado pela correnteza, ele sabe para onde tem que ir. E segue, pensando e escrevendo.

Não se superestime e nem a ninguém, afinal, somos todos um amontoado disforme de células. E quanto mais cedo tomarmos consciência disso, menos será o nosso sofrimento.

Meus heróis continuam vivos, os que morreram de overdose foram os do Cazuza.

Para defender a cultura brasileira, primeiro se faz necessário entender o que ela é. E o que é afinal a cultura brasileira? Ouso dizer que nossa cultura nada mais, nada menos, é uma cultura ANTROPOFÁGICA. Uma cultura que se alimenta de outras culturas, e isso vem desde o início da nossa formação enquanto povo.

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Mais uma artista de mão cheia. Além de produzir belas telas, essa sergipana também escreve com uma sensibilidade impressionante. Seu trabalho ainda está “engavetado”, prestes a ser revelado. Inspirada por eventos cotidianos, seus escritos trazem o comum por um ângulo que poucos costumam ver. Poemas leves e profundos.

A negra Cirina

Costumava esperar condução num ponto da esquina. / Foi lá que conheci a negra Cirina / ... Cirina só pra rimar com esquina. / Nunca soube o nome da negra. / Poderia ser chamada de noite... já que escura.

Minha condução costumava demorar / e a negra Cirina sempre estava lá. / Eu não entendia para onde se conduzia, / já que tal condução não existia.

A negra Cirina era bela / magra e bela / usava sapatos de salto bem alto... / e quase sempre de cor pura, / tinha pernas bem torneadas / ... e atraía olhares masculinos. / Suas roupas distintas modulavam o corpo / numa forma tão perfeita / que dispensava a bolsa que, pendurada, / escondia do seu lado o quadril.

A negra Cirina / a quieta Cirina / a Cirina bela / e seu cabelo pixaim... formando um pequeno coque / ... no alto do ser que pensa.

A negra Cirina / admirada por todos e por mim / de olhar negro / de boca fina / nariz bem feito / aparência de menina.

E chegava a minha condução. / Então eu ia e esquecia que Cirina existia / Acontecia em vários dias, / alternados dias. / Eu vinha da escola, / e Cirina... de onde vinha? / ... então um dia descobri! / Cirina não vinha, Cirina ia... / carro do branco ao preto / passando pelo azul e pelo vermelho / não eram putos como Cirina / puta Cirina, puta menina, puta escuridão da noite.

A época de escola terminou, / mas algo me fez crer que naquela esquina / ainda posso ver Cirina. / Aliás, em muitas esquinas / Aliás, muitas Cirinas / pobres meninas.

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Natural de Cícero Dantas, na Bahia, doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe e um fotógrafo de mão cheia, Eder Malta também se destaca por suas produções literárias. Com a calma de quem sabe esperar, este autor reflete (entre tese, filmes e produtos orgânicos) sobre o desenvolvimento das cidades e da humanidade. Reflete sobre a vida.

Desde que somos uma conversa

Cícero aprendeu naquela noite que para dormir bem e receber um abraço de boa noite é preciso ser sereno, resguardando-se mesmo com as coisas que mais afetam. Ele não cogita que ficar mudo, calado, é saída para isso. Mas omitir opiniões sinceras talvez preservem sua imagem diante do outro. Uma imagem já não bem compreendida pode ser motivo para distorções do que se fala. Às vezes - disse ele - em um relacionamento, a coisa mais importante é não opinar sobre o que não precisa ser dito. Balance a cabeça, concorde, assopre, suspire, bufe, sorria, beba água, acenda um cigarro, tome uma cerveja, coma um biscoito, chame a vizinha de louca, fale de seus medos de infância, fale de suas perspectivas profissionais, conte segredos bobos, beije, abrace, trepe, coma, fode muito, sorria, fale com muita felicidade "eu te amo", e repita sempre, com leveza, "eu te amo", chame pra dançar, façam compras juntos, descreva nuvens, coma maçãs vermelhas e suculentas, comprem um pote de sorvete e brinque na cama em dias de calor, graceje, goze a vida! Entre tantos atributos, Cícero optou por falar suas opiniões mais estúpidas sobre acontecimentos que perpassam sua vida. Ele, então, destoou-se de seus objetivos. Ah! Cícero - reclamei. Falar o que mais para ele, a não ser as mesmas opiniões que me dissera: Balance a cabeça, concorde, assopre, suspire, bufe, sorria, beba água, acenda um cigarro, tome uma cerveja, coma um biscoito, chame a vizinha de louca, fale de seus medos de infância, fale de suas perspectivas profissionais, conte segredos bobos, beije, abrace, trepe, coma, fode muito, sorria, fale com muita felicidade "eu te amo", e repita sempre, com leveza, "eu te amo", chame pra dançar, façam compras juntos, descreva nuvens, coma maçãs vermelhas e suculentas, comprem um pote de sorvete e brinque na cama em dias de calor, graceje, goze a vida! Por fim, repita tudo... Balance a cabeça... goze a vida! Tempos depois, Cícero resolveu mudar de vida quando percebeu ser necessário deixar de lado aquilo que tinha como valor moral e moralmente aceito entre os entes: a identidade. Inventou que todas as pessoas deveria não ter cor definida. Ser sempre mutável e adaptável para viver a dois e entre os amigos. Ele entendeu que seu cotidiano tornou-se um jogo de xadrez, como se a vida social fosse característica de um tabuleiro artístico, em que as pessoas são as peças das composições enxadrísticas. Cada qual jogada como na teoria do Xadrez que abrange aberturas, meio-jogo e finais (que seria o 'gozar a vida'). Para isso, ele precisou tomar uma decisão única. Tomou a mão de sua mulher e enunciou a nova filosofia de vida: "vamos, juntos, gozar a vida!". Com um sorriso esquisito, olhou nos olhos dela e concluiu: "vamos mudar de lugar". Ela, surpresa, preferiu não opinar. Foi graças a ela que ele deixou de lado as opiniões que não precisam ser ditas. Ela então concordou e foi arrumar as malas. Prontamente estavam no aeroporto e embarcaram às 18h00 daquela intempestiva quarta-feira. Liguei para eles e me despedi por telefone, pois se fosse ao aeroporto estaria pasmado demais para comentar algo. Disse ele: "meu caro o avião saí daqui a pouco e estou tomando um cappuccino decente!". No primeiro instante não entendi o porquê desta informação, mas logo me apercebi que ele estava mais que decidido. Ele estava despreocupado. E assim foi. Subiu às nuvens e por e-mail enviou uma foto do seu desembarque. Cecília já entusiasmada com o novo lugar enviou-me 17 fotos de duas pessoas sorridentes que dormiriam abraçados numa noite agradável de sono e amor sincero na nova cité. Não imaginei que um conselho fosse recebido com tamanha força que passei a repetir: Balance a cabeça... goze a vida! Tudo que Cícero fez foi agir o mais rapidamente sem olhar para trás, afim de evitar curtos-circuitos. Foi o que me disse ao finalizar nossa última conversa por celular antes do embarque do casal: "Atitudes! Porque as palavras eu já tô até decorando". Tomei isso pra mim e acabei por levar a sério, como contra-resposta a minha estagnação aqui nesta cidade. Sempre que recebia um cartão postal deles me comovia saber que eu não estava lá ou em qualquer outro lugar.

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Quem já entrou na casa de Bruna sabe que a decoração é repleta de palavras e sentimentos. Natural de Fátima, Bahia, morava em um lugar onde dava para se admirar o sol nascendo e se pondo; hoje reside em Aracaju, Sergipe, em um lugar onde se vê cada vez mais prédios (apenas nascendo, não se pondo). Uma escritora que resolveu filosofar na Psicologia. Na estante tem vários livros, no computador vários filmes; o que lhe falta mesmo, agora, parece ser tempo. Fique com um pouco de seu trabalho:

A vida é ir, é vir, e voltar sempre. Mas, principalmente, não parar. O movimento é a lei maior! É por isso que estou sempre de viagem, que só venho de passagem, que passei, vou passar. Só... Me deixa ir.

Estou indo, hora devagar, hora com uma velocidade de quem não quer ser alcançada. Vou indo, como se nada quisesse, mas com a ambição daquele que surpreende pela falta de jeito. Chego já! Mas não precisa me esperar, porque eu posso mudar o rumo.

Minha estrada

Eu sou Aqui. Mas não sou agora: não somente o agora, porque eu também sou retalhos de tecidos rasgados ou velhos demais para serem usados; eu também sou todas essas gotinhas de curiosidade, esperança, amor e, principalmente, vontade. Sabe as pedras do caminho? Não irei tropeçar, nem construir castelos, não irei atirá-las em quem me faz mal (eu também faria), não irei ignorar a existência delas, nem andar sobre elas como se fossem degraus de uma escada muito minha. As pedras do caminho, desde que surjam em minha frente, serão minhas companheiras pelo resto da caminhada. Levarei minhas pedras no bolso e com tinta das flores farei desenhos em meu corpo e os mesmos nas pedras, para que também elas sejam partes de mim. Não só as pedras, mas também toda a luz, toda a alegria que encontrar em meu caminho, irei colorir com as mesmas tintas que uso para me pintar, para me fazer aparecer diante do sol. Tudo aquilo que estiver em meu caminho, será meu, será parte de mim, mas também terá a mim por toda a estrada, ainda que cheia de dúvidas, cheia de caminhos escuros ou limitados, cheia de interrupções. Ainda assim, a estrada um dia nos faz chegar a algum lugar, que irei dividir com tudo aquilo que carregar em meu bolso. E como aprendi nas cantigas de ninar, meu bolso e meu coração, em essência, são um só.

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Este sergipano, natural de Aracaju, graduando em Pedagogia pela Universidade Federal de Sergipe, gosta de escrever sobre as lutas de nosso dia a dia, tanto as maiores (aquelas que nem podemos ver) como as não muito menores (aquelas que muitos fingem não ver). Mas além das lutas, ele fala também do amor. Amor e luta enquanto direito; enquanto dever. Sensível a qualquer situação, é difícil não perceber em suas palavras a sinceridade do que escreve.

Companheiro(a)

Ao te ver / me vejo

Pois meus sonhos / correm nas suas veias, / seu grito de indignação / vibra na minha garganta / e sai tão alto quanto o teu.

Seu inimigo é meu inimigo / Seus outros companheiros / também são meus companheiros

Os teus passos rumo a utopia real / da libertação do nosso POVO / não serão dados solitários e doloridos

Pois estarei do teu lado / caminharei ao teu lado. / A caminhada será coletiva, / as dores serão divididas / e as alegrias multiplicadas.

Por Fim / Companheiro(a), / Confesso! / Olho no teu olho / e sinto a confiança / de que nunca estaremos sós / enquanto estivermos em movimento.

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Mais uma estudante de Pedagogia da Universidade Federal de Sergipe que também gosta de brincar com as palavras. Crislaine Cruz (Cris Cruz) tenta “falar de tudo que incomoda, comove e desperta”, como ela mesma cita em seu blog. Abaixo um pouco de sua arte:

Viagem

Devemos olhar para dentro de nós! / Eis o que dizem todos. / Lá se encontram as respostas... para as angústias, para as tristezas; até para a felicidade. / Porém, tudo o que vejo é vaidade. / Alguém realmente tem tempo para olhar lá dentro? Acho que não! / É que já são tantas as cadeias que nos mantêm presos aqui fora. / Que chegar lá dentro tornou-se distante... absurdamente distante. / Não há tempo para uma viagem tão longa.

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Francisco de Assis Sousa Morais (Assis Caim) é outro fatimense a aparecer nessa lista. Formado em Letras pela Faculdade Atlântico, este autor gosta da obscuridade em seus escritos. Suas referências vão de Augusto dos Anjos a Marcelo Camelo, podendo ora optar pelas sombras das palavras, ora por sua luz. Confira um pouco de seu trabalho:

Pois o tempo passa

E agora o nada / Onde antes havia uma casa / Pois o tempo passa. / Ele cedinho indo retirar o leite das vacas / Pegava a gamela com o milho e ia moer para fazer o cuscuz / Na volta jogava o farelo às galinhas / E ia aos ninhos buscar os ovos / Olha para o cavalinho malhado / E sorria ao olhar o roçado Os meninos já acordavam / E iam subir na jaqueira, catar laranjas / E brincar com o cachorrinho magro que deram o nome de Baleia ou xira ou xerém / Bem não sei. / E corriam para ela / A mãe / Pequena, vestido de xita, lenço nos cabelos e pele avermelhada do sol / Ele chegava até ela e reclamava de qualquer coisa, como se fosse pra marcar território / E ela fingia que obedecia / Mas na verdade era ela quem mandava / Daí os meninos cobriam os olhos e ele dava um cheiro nela. / Ele catava alguns gravetos e assim acendia o fogo a lenha / Todos comiam / Mas antes rezavam /Para que aquilo não acabasse /Pois o tempo passa. /E assim seguiam sua vida dormindo cedo / Acordando cedo / E vivendo cada dia seu esmo. / O milho de novo de molho / As vaquinhas apartadas / O cachorro amarrado / E as orações rezadas... / Pois o tempo até pra isso passa...

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Gutembergue Nascimento (Bergue) é mais um nativo da cidade de Fátima, na Bahia. Escritor que vem aos poucos construindo seu acervo de produções autorais, ele não deixa de citar aquilo que sente, mesmo que pareça piegas ou caminho comum no campo da literatura. No momento ele está terminando de escrever seu primeiro livro.

O último romântico...

Já lhe disseram que se parece careta dizer eu te amo, e mesmo assim ele insiste. / Com poesias, seu caderno e seus versos, suas história com amor que diz não ter fim. / Lhe contaram que o amor virou título de novela, que foram tirados de contos de fadas. / Pediram que esquecesse de seus sonhos e das palavras, pois elas já não movem o mundo. / Pois o mundo agora é uma balada, com seus sons e canções, que não importa ter amor, mas sim suas ambições. / Quanto você pode construir, quanto o que você pode consumir, o que você pode oferecer, o que tem de valor. / O mundo não é mais um colorido em uma tela de pintura, agora é só mais um copo de bebida que te leva à loucura. / Frustrado, o último romântico se vê abandonado, pensando no amor, mas se sentindo solitário.

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Mais um escritor da cidade de Fátima. Adrian Oliveira (A.O.) lançou recentemente seu primeiro livro, “Entre realidade e devaneios, Eu percebo e me Percebo” (2014), contendo contos e poemas de sua autoria. Acabou de escrever seu primeiro romance, “O Mar e o Amor” e pretende publicá-lo em breve. Um autor jovem que está em grande fase de produção.

O Garoto das Vestes Vermelhas

Pensei várias vezes antes de fugir de casa. Hoje, estou aqui sentado em um banco de uma praça na qual eu não sei o nome, com a bermuda rasgada e aquela camisa vermelha que você me deu toda suja. Todos passam me observando, isso era uma coisa que ninguém fazia quando eu andava bem arrumado. Às vezes não durmo à noite de tanto frio, de tanto medo de não acordar no dia seguinte. Pelas manhãs ando de pés descalços na praia procurando uma razão para viver; hoje eu vivo de lembranças do futuro, esperando um dia alguém me tirar deste lugar. Já roubei várias felicidades das pessoas achando que iria encontrar a minha própria felicidade. Na solidão eu percebi que ninguém é feliz o suficiente para viver sorrindo; meus olhos não brilham mais no escuro, a minha sombra mudou de alma de não me aguentar chorando pelos cantos da cidade, agora só resta eu e o silêncio das pessoas passando por mim. Em algumas noites é a tristeza que me consola e o escuro não me atormenta mais quando fico vagando pelas ruas, vivo com os olhos vendados andando sem destino, sem rumo, procurando a essência dos deuses e da luz que se apagou para mim.

Certo dia, algumas pessoas pensaram que eu não iria aguentar viver fora de casa, abrir mão daquela vida de ter tudo para começar uma nova história; os meus conceitos foram mais fortes, hoje estou convivendo com o silêncio do amor. Meus pais um dia foram à praia e me encontraram dormindo na areia, todo sujo, praticamente sem roupa; conversaram comigo pedindo para voltar para casa, mas pensei “viver aquela vida chata de comer, dormir e morrer lentamente sem aproveitar cada segundo dessa vida não é para mim”, meus pais choraram muito, mas logo perceberam que era essa vida que eu escolhi para viver. Na minha infância não fui daqueles garotos de brincar o dia inteiro, gostava mais de ficar sozinho pensando no futuro, no dia em que eu iria sair de casa para ser o meu próprio “Deus”. Gosto muito de ficar sentando na praça fumando um cigarro e observando as pessoas, principalmente os sorrisos que logo depois se desfazem lentamente; é algo que não sei explicar ainda quando vejo um sorriso se desfazendo, parece que a pessoa volta para a sua realidade. A felicidade é um universo que ninguém consegue viver por muito tempo. Vivo da infelicidade, não sorrio para ninguém, acho que é o único momento que eu sou feliz; ando tão sozinho que quando uma pessoa fala comigo eu penso que é fruto da minha imaginação e fico calado só olhando nos olhos dela; hoje vi uma luz tão linda que cheguei a lacrimejar, pela segunda vez me encontrei com ela, uma sensação de um ser poderoso ao meu lado. Neste exato momento senti um arrepio, um medo de olhar para os lados, acho que ela veio me buscar.

Corri sem olhar para trás. Pela primeira vez senti medo de morar na rua. Comecei a desconfiar de tudo que me rodeava até mesmo da minha própria imagem. Não sou de chorar, mas naquele momento que ela quis vir até mim eu chorei, senti falta da minha família.

*

Hoje à noite vou dormir na frente da Catedral de Aracaju, uma imagem bela; fico parado só observando o espetáculo das estrelas cadentes passarem em volta do prédio, acho que ali eu me sinto alguém porque não são todas as pessoas que veem o que vejo nas noites sóbrias. Quis ter tudo para mim, hoje estou aqui sentado no chão olhando o nada, o silêncio dos pombos da praça me faz lembrar que nunca morei no mesmo lugar todos os dias, lembro vagamente do meu quarto, uma obra prima que eu criei, sabia de tudo sobre as pessoas, as paredes me contavam, guardo todos os momentos que eu passei ali dentro. Mas hoje a minha arte é de criar mundos dentro de mim; tento ser feliz em um deles, quando não consigo vou para o outro e assim por diante. Tem momentos que não sei diferenciar a realidade com os meus sonhos, vivo sozinho em qualquer um, não sei mais ficar acompanhado de alguém, principalmente quando ela vive sorrindo para mim. Acho que virou um trauma ou é geneticamente passado para os filhos, não consigo sorrir; minha mãe na juventude era assim também, não gostava de sorrir para as pessoas. Saí de casa por motivos familiares; reclamavam tanto de mim, eles queriam algo que eu não podia fazer: “ser um jovem normal”. A tristeza maior é que sou filho único, passei minha infância sem ninguém ao meu lado para me proteger do escuro; hoje é o escuro que me protege dos outros. Todo “dia pela manhã fico admirando o sol nascer, um espetáculo, uma obra prima feita por Deus”, não sei se estou desperdiçando minha vida, vivo um dia após o outro, se eu partir dessa vida para outra vou ter muitas histórias para contar. Hoje pela manhã senti falta do meu próprio eu, sentimentos que nunca senti antes, uma saudade imensa do jovem que eu era. Fui para o lugar mais alto da cidade para refletir melhor, na trajetória as pessoas me olhavam com um olhar estranho, eu já estava acostumado; fiquei sentado em uma pedra olhando a capital, as luzes acendendo e o sol se pondo, pensei “daqui de cima tudo é mais tranquilo”, agora posso gritar o que eu guardo dentro de mim, o nome de alguém que eu sempre amei. Mas acho melhor conversar com os animais que passam por mim, todos têm um caminho para seguir, não sei os dos pássaros; chegou a hora de ir embora, voltar às ruas para pedir sorrisos.

*

Hoje fez seis meses que moro na rua, um semestre de muitas aventuras e loucuras, de solidão e saudades, a rua virou o meu lar, tudo o que tenho está nela. Ando pelas avenidas procurando algo que me complete, uma nova história para ser desvendada, mas que pena que ninguém dá atenção para os moradores de ruas. Ainda continuo com o vermelho estampado no meu corpo, no meu rosto as cicatrizes do tempo; às vezes penso que somos objetos de algum ser sem valor nenhum, mais adiante percebo que as ruas estão cheia de cartazes escrito que “somos todos iguais”, “temos os mesmos direitos”, mas não adianta. Há tempos que a minha vida vem mudando os meus pensamentos, sempre soube que um dia tudo chegaria ao fim, sem nenhuma explicação o mundo pararia e de repente nós todos morreríamos diante do sol. Ultimamente as pessoas evitam certos comentários sobre o fim dos tempos, mas somos obrigados a saber da verdade.

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Uma escritora de muito talento e que também está em ótima fase de produção. A obra de Milena Macena, formada em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), é marcada pela simplicidade e sinceridade que a caracterizam. Confira um pouco do que ela tem a dizer:

Presidente Negro, Presidenta Mulher.

Lembro que há anos atrás quando estávamos prestes às eleições, a universidade pipocava debates sobre uma mulher assumir a presidência. No meu curso, especialmente, eu parecia ser a única com opinião diferente sobre essa questão de gênero.

Pra falar a verdade eu evitava certas conversas porque começava o murmurinho e a chuva de críticas contra o meu posicionamento. De antemão aviso: não é um texto crítico ao governo Dilma, mas sim no que se refere à intolerância a ideias contrárias.

Já era noite quando aguardava minha aula começar, estava sentada na pracinha entre as didáticas 3 e 4. No banco de cimento, observava um pessoal falar em espanhol, achei graça e me intrometi. Começamos a conversar, muitas gargalhadas e muito portunhol, se alguém passasse e visse podia jurar que éramos amigos de infância. Imagina, meros desconhecidos quebrando o tédio com uma boa conversa.

De repente a palavra política foi citada. Um rapaz era militante e gostaria de saber em quem eu iria votar, respondi:

- Ainda estou confusa. Tucano é privatização, não quero. Mas Dilma também não, pra falar a verdade eu nem a conhecia, é praticamente uma reeleição de Lula!

E então começou a discussão. Ele de forma alterada “argumentou”:

- Minha filha você é burra é?! Você tem que votar na Dilma, ela é mulher, quer sua classe no poder não é?!

Quase não acreditei no que ouvi: burra? Foi isso mesmo?

- Como é?! Burra?! Porque não penso como você eu sou burra?!, seu radical. Eu votaria facilmente numa mulher que eu admirasse, teria orgulho de ser representada enquanto mulher, enquanto pessoa. Mas mal a conheço e não quero votar nela! E preciso que me respeite por isso!

- Burra! Mulher é muito burra mesmo! Deveria votar, minha filha ela é mulher!

Vocês podem imaginar que essa conversa rendeu e muito. Mas, de meros desconhecidos nos tonamos amigos, com direito a um pedido de desculpa, da parte dele...é claro! Kkkkk

O que quero enfatizar é que não é pelo fato de ser uma mulher na presidência, ou um homem negro no poder de uma grande potência mundial é que preciso votar neles por possuírem essas características. Para mim, enaltecer o gênero e uma cor é uma forma de diferenciá-los e torná-los especiais ou não por isso.

É claro que Dilma repercutiu de tal forma que o número de mulheres em cargo de grande responsabilidade e poder aumentaram, não nego.

Mas, se pararmos para pensar, o que uma cor diz sobre o caráter de um homem? Porque devemos enaltecer o gênero feminino para mostrar que somos capazes?

Só demonstra o quanto ainda somos preconceituosos.

Mulheres são capazes sim! E não sinto necessidade em fortalecer isso votando em alguém que não admiro, pelo simples fatos de sermos mulheres.

Homens negros? É espantoso que em pleno século XXI ressaltemos a cor. Embora a dívida que nossos antepassados deixaram seja eterna. É tão surpreendente imaginar que ainda exista racismo. Afinal, o que é uma cor? Senão a mais bela forma de diversificação dos seres.

Somos todos seres humanos.

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A obra de José Roque dos Santos Nascimento, autor de "Dias de Sonho" (2005), em parceria com J. Douglas Alves, é de extrema reflexão. Cada palavra ou vírgula tem relevância fundamental no contexto de seu trabalho. Ele é um autor que não se dedica à escrita porque não tem tempo (trabalha demais, ganha pouco e sonha alto o suficiente para continuar vivendo). Quem o conhece sabe que poucos escrevem daquela forma e com tal facilidade. Um filósofo contemporâneo que ganha destaque na literatura.

A loucura é provocada pela lucidez.

Eu sou o nunca depois do antes e o antes do que nunca aconteceu.

Amor compartilhado, amor despedaçado. / Sonhos divididos, sonhos repartidos / Ainda são os mesmos, mas não são perfeitos. / Segredos, revelações, mentiras e perdão: / Tudo é comum no seu tempo. / Mas os sentimentos expostos de ontem causam mudanças. / A surpresa de ontem muda muito com a gente. / Enchentes de pensamentos em meio a mentes vazias. / Solidão em meio a multidões. / Pessoas normais delirando com a realidade, / Com sede de liberdade, / Com coisas sujas e vulgares.

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Eis uma escritora, que entre os demais da lista apresentada, talvez seja a que tenha mais reconhecimento em relação ao número de público. Criadora do tumblr “Zaluzejos”, sua obra é aclamada por um grande número de internautas. Já tentou escrever um livro, mas imprevistos aconteceram. A depender da qualidade de seu material, e do público que a segue, isso não tardará a acontecer. Uma arquiteta das palavras que voou da cidade de Cícero Dantas em busca de terras ainda não encontradas. Ela segue voando. Rumo a algum lugar...

Voos rasantes. Não, não é isso. O termo certo. Qual era mesmo, meu deus? Passei o caminho todo pensando, derrotada e encolhida no assento do ônibus, os pensamentos correndo como os edifícios, fugazes à frente da janela. Uma lástima, os detalhes barrocos perdidos nas fachadas. Não há tempo. Os olhos não capturam as feições das velhas debruçadas nos parapeitos dos andares superiores, observando o movimento central. A velocidade. O fluxo inflexível. Placas de “vende-se” para pessoas vendadas.

Só pode ser assim que acontece uma anunciação. Um ser distraído na multidão teve que aprender forçosamente a ir comendo pelas beiradas. Assim mesmo. Migalhando como um pobre diabo intoxicado pelo tédio. Esperando o conta-gotas das boas ideias. A terra seca e poeirenta há meses, ele de boca aberta aguardando com fé cega um instante de garoa cair dos céus.

Não fizeram sequer uma outra mão para guiar a sua. E a caligrafia? O momento certo de inverter a linguagem? Não fizeram sequer um roteiro mal’acabado. Ninguém acerta a direção das minhas pernas, assim como não há quem melhore minhas imprecisões no papel. Interpretações difusas. Tento manter enjaulada minha impulsividade de falar. Falho como uma boa mulher. Carregando o sonho de ser alguém intransponível. Serena como uma madre superiora, suportando saber que as realidades se proliferam por aí, embaixo de viadutos, peles e pontes, e eu não sou capaz de fazer nada com relação a isso.

Dá-me um milagre. Uma iluminação de conhecer o peso de cada palavra no passado alheio. Cada figura ilusionista naqueles olhos. De conseguir falar a língua dos outros. Como posso, eu, falar seu dialeto? Alguma vez você se reconheceu dentro de mim? Que infelicidade esse silêncio. O laço incomunicável. É preciso horas e horas digerindo o mesmo fato. Andando em círculos ao redor do diamante central, lambendo as volutas, caminhando curvilineamente através delas. Um viajante perambulando desidratado em busca do oásis. O oásis é um grão de tradução. Como a imagem doce da vida derretendo seus segredos na nossa boca.

O poder instantâneo de desvendar os mistérios que submergem no ar.

Com voos rasantes, eu e você não entendemos nada disso.

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Eis que na lista surge uma paraense-potiguar-sergipana. Diante de tantas naturalidades, tal mistura só podia dar em poesia. Com textos simples, mas com grande acepção, Aísha (que significa “vida”) compartilha seu olhar atencioso e gentil em forma de palavras. Uma lutadora contra qualquer tipo de opressão, ela se aproxima da publicação de seu primeiro livro, enquanto tenta "sobreviver" ao Mestrado em Educação na Universidade Federal de Sergipe. Suas maiores influências são Raul Seixas, Beatles, Frida, cultura/comida mexicana, a Linda (sua bike), Mestre Yoda, crianças, animais (em especial, Mike), sua família e seus amigos.

Quando começamos a entender o que é amor? Piaget nos ensina que é por volta dos 12 anos de idade, quando passamos a compreender conceitos abstratos, sem relação direta com o concreto. Bom, primeiramente, quero dizer que todos aqueles estágios de desenvolvimento que ele delineou estão sendo totalmente ignorados pelas crianças cada dia mais, com todo o respeito à obra dele, parece que as crianças aos 5 anos de idade já entendem tudo e não precisam mais passar de um estágio para outro. Mas, como essa não é a discussão principal, o que quero dizer é: alguém que conhece uma criança de 2 anos de idade (ou 5, a idade não interessa) e tem uma forte relação com ela duvida que ela sinta amor e que entenda isso, mesmo que de sua maneira? – talvez seja a maneira mais sincera e livre de estereótipos de enxergar o amor. Realmente, talvez ela demora para entender esse conceito torto, de amor que inventamos, que envolve posse, ciúme, exigências, cobranças a uma série de outros sentimentos que o fazem menos feliz. Como disse John Lennon: “Love is free, free is Love” ou o amor é livre e a liberdade é amor (numa tradução livre que me permiti fazer), e as crianças mais do que ninguém sabem disso.

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Chegamos ao fim da lista, trazendo o fatimense Maurício Ramon dos Santos Oliveira (Maurício Ramonnd). O autor de “Prosa Poética Impura” (Editora J Andrade, 2012), hoje coordenador do curso de Pedagogia da Faculdade Ages, tem uma bagagem considerável de experiências literárias a compartilhar com o público. Com uma linguagem por vezes de difícil assimilação (àqueles que tiveram pouco contato com as palavras), Maurício Ramonnd exalta sabedoria e domínio de técnicas linguísticas. Sua obra é marcada pela autenticidade e pelo estilo inconfundível com que escreve. No momento, ele trabalha na finalização de duas obras que poderão ser lançadas juntas.

O meu coração amador / Fez vestibular, estudou / E, cansado de tanto tomar Anador, / Se profissionalizou.

[Maurício Ramonnd. Projeto: "Esperas e Esporas"].

Assenta em / Mim uma cisma,

Rio sem fora,

Fustigando a casca da palavra / Do livro do teu ser

Roçando a cor imprecisa / Da jura clandestina

Que me alucina / Tanto quanto me suprime;

Que sinto / Experimentando os meus pés no chão.

[Maurício Ramonnd. Projeto: "Esperas e Esporas"].

FLAMER

Feito elevador vazio, / Trago no peito um nó;

Danço entre nuvens, / Silente querubim alquebrado;

Observo as esquinas do teu corpo, / Mar de impermanência

E, / Contemplo esse teu jeito, insurreição descabida, / De dizer que ama, vestindo sem mais / A casaca de estrelas da despedida.

[Maurício Ramonnd. Pequenas Verdades Distraídas, 2011, p.56]

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O intuito dessa postagem não foi de enaltecer os nomes apresentados, mas de fazer uma justa homenagem àqueles “operários das palavras”, mostrando que além dos escritores “mais vendidos” (muitos deles, inclusive, mortos) existem pessoas comuns (que trabalham de dia, dormem durante a noite e sonham sempre que possível) que também fazem literatura. Este não é um campo restrito àqueles da família real ou da alta aristocracia; a arte de escrever está em todos os espaços sociais, em todos os sujeitos (seja ele uma criança, um pessoa de idade avançada ou uma mulher!). Talvez amanhã alguns desses nomes citados estejam dividindo o mesmo espaço nas livrarias e nas prateleiras de nossas casas com os autores mais consagrados pelo público. Nunca se sabe...


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.
Saiba como escrever na obvious.
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