desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

A AMIZADE COMO EXPERIÊNCIA FORMATIVA

A amizade, fundamental na formação humana, estabelece-se como a criação de um vínculo afetivo que difere das relações estabelecidas materialmente. Diante desse pressuposto, proponho pensar a amizade como experiência formativa na contemporaneidade, quando vivenciamos um período que se estabelece pela velocidade em que os fenômenos acontecem e logo deixam de fazer sentido.


happy-friendship-day-20141.jpeg Imagem via mothersdayimages2014

Introdução: um contexto de nossa época

"I'm so happy 'Cause today I've found my friends." (Lithium, Nirvana)

Tradução: "Eu estou tão feliz porque hoje eu encontrei meus amigos."

Vivemos um período histórico que se distingue dos demais pelas rápidas transformações sociais e culturais; transformações tanto no espaço físico, seja urbano ou rural, como nas relações estabelecidas entre os sujeitos e seus semelhantes – como poderíamos também dizer entre os sujeitos e o meio ambiente, os outros animais e até mesmo entre as coisas (os objetos materiais).

A produção científica, atrelada à produção tecnológica, tem possibilitado ao homem (pós)moderno experimentar inúmeras situações. E este é um processo global, que mesmo se diferenciando em sua forma e na acessibilidade com que as pessoas são atingidas, afeta de maneira geral o nosso mundo.

Lucia Santaella (2003), afirma categoricamente: “O que mais impressiona não é tanto a novidade do fenômeno, mas o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas e os consequentes impactos psíquicos, culturais, científicos e educacionais que elas provocam” (p. 18). Parece-nos urgente pensar nestes impactos, principalmente nos espaços formais de ensino.

Celso Furtado (1998) refletia sobre esse distanciamento das universidades dos problemas sociais. “Surpreende-me que o tema de maior relevância no momento atual – a exclusão social – não tenha destaque nos currículos universitários” (FURTADO, 1998, p. 14). Hoje, ainda compartilho da ideia de que a exclusão seja o tema de maior relevância social, no entanto a forma como ela se organiza em nossos dias é que dá a dimensão de seu alcance.

O processo de globalização, ao mesmo tempo em que lançou aos países periféricos a promessa de um desenvolvimento rápido, sustentável e devidamente distribuído a todos os habitantes, também sepultou os sonhos de muitas pessoas frente ao novo momento de esperança na humanidade.

Em nossos dias, o povo do Peru produz farinha de peixe, muito rica em proteínas, para as vacas dos Estados Unidos e da Europa, mas as proteínas brilham pela ausência na dieta da maioria dos peruanos. A filial da Volkswagen na Suíça planta uma árvore para cada automóvel que vende, gentileza ecológica, ao mesmo tempo em que a filial da Volkswagen no Brasil arrasa centenas de hectares de matas que dedicará à produção intensiva de carne para exportação (GALEANO, 2011, p. 387). Seca, Miseria e Fome 3.jpg Imagem disponível em: http://saovicentenews.blogspot.com.br/

Não é mais novidade que o interesse de grandes nações ou grandes corporações e grupos econômicos por determinados lugares “menos favorecidos” (economicamente falando) seja apenas o de buscar não uma melhoria de vida local, mas uma garantia de poder utilizar de recursos ambientais e humanos da forma mais banal possível.

As nações ricas podem ostentar uma densidade populacional elevada porque são centros de “alta entropia”, drenando recursos, sobretudo as fontes de energia, do resto do mundo, e devolvendo em troca o refugo poluente, muitas vezes tóxico, do processamento industrial que esgota, aniquila e destrói grande parte dos recursos energéticos do planeta (BAUMAN, 2005, p. 58). the corporation.jpeg Imagem do filme "The Corporation"

Não convém ressaltar todas as barbáries sociais cometidas pelas grandes corporações e legitimadas pelos dirigentes das grandes nações mundiais aos países considerados “subdesenvolvidos”, pois não é este o objetivo do texto. Diante desse quadro geral, interessa apenas ressaltar a relevância da amizade como processo formativo, já que ela, para se constituir, trabalha necessariamente com o conceito de solidariedade – a amizade não se constrói sozinha, em isolamento. “Só há amizade na reciprocidade” (SILVA, 2012, p. 35). O sentimento da amizade precisa da reciprocidade para existir.

Um elogio à amizade

E seja qual for o nosso destino após a passagem na terra, a vida já valeu a pena, pelas amizades que conseguimos construir no tempo em que por aqui passamos.” José Paulino da Silva, em Elogio da Amizade (2012, p. 40)

“Nestes tempos sem tempo, onde a resposta está a um clique” (GESSINGER, 2011, p. 51), vivenciamos as mais diversas contradições. As pessoas, “mais do que nunca vivenciam extrema solidão mesmo em meio às multidões das grandes cidades” (GOMES; SILVA JUNIOR, 2007). É o mundo ao avesso (GALEANO, 2009), em que a grande indústria alimentícia produz mais alimentos do que a população terrestre necessitaria, e ainda assim a fome se multiplica, produzindo novas e mais vítimas (GALEANO, 2011).

São nestas condições que a amizade se reflete como antídoto contra todo e qualquer mal. Os meios de informação, através de suas propagandas diárias, continuam sua ode ao consumismo e ao isolamento das pessoas, buscando formar um sentimento de egoísmo acima do de solidariedade.

absolutely-finished-cover-e1384800737452-1024x950.jpg Imagem via Outras Palavras

A lógica do mercado tenta se apropriar da ideia de amizade visando atingir mais audiência e, dessa forma, vender mais, obtendo o seu tão esperado resultado: o lucro – maior que a última apuração; menor que a próxima. Nesse processo formativo, as crianças podem confundir “amigos” com “brinquedos” da mesma forma que os adultos podem confundir “amizade” com “cobrança”.

A amizade, para a condição humana, não é um adereço como é uma jóia, uma vestimenta, um chapéu. O ser humano, por menos afortunado que seja, terá sempre um campo aberto para o florescimento da amizade. As mudanças na sociedade, a evolução dos seus costumes, as normas, as leis, não apagam no homem as qualidades que lhe são inerentes e existem em potencial. As guerras, as injustiças que ocorrem no mundo, são consequência do não-cultivo da amizade entre os seres humanos. Onde não se educa para a amizade, floresce o egoísmo, o isolamento. A amizade ainda é o antídoto para anular o preconceito, o racismo, a indiferença, a prepotência, muito presentes ainda entre os povos, principalmente nos países ditos desenvolvidos. Milhões de pessoas atualmente vivem, em diversas partes da Terra, em condição de miserabilidade, sem água potável, sem moradia, sem pão, sem saúde, em condições subumanas. A humanidade chegou a esse ponto, certamente porque não se cultivou suficientemente a amizade – que é sempre solidária – como valor da condição humana (SILVA, 2012, p. 38). onde está o amor.jpg Imagem via Blog Psicólogos

São muitos os problemas que acarretam a humanidade. Fome, violência, sistemas de ensino ruins, saúde pública em situação de risco, transporte público precário, moradia, desemprego... A amizade não produz soluções para todas essas questões, nem tampouco mata a fome ou a sede dos seres humanos. Ela salva vidas, mas não dá fim aos mais graves problemas sociais.

Algumas considerações

Com um amigo ao lado, nenhum caminho é longo demais.” (Ditado Japonês)

As práticas formativas em nossa sociedade, principalmente em espaços formais de ensino, promovem um incentivo à concorrência entre os sujeitos. Requer tempo modificar uma lógica que domina o quadro estrutural dessas instituições e de boa parte da sociedade, o que alguns movimentos sociais vêm tentando combater.

Neste sentido, não coloco sob segundo plano as práticas pedagógicas historicamente transmitidas nas escolas e universidades; reconheço suas qualidades, os benefícios de sua prática, porém acredito que se somado a uma prática mais humana de educação, com respeito à solidariedade e valorização aos elos de amizade, em nada perderá de valor e poder.

Na verdade, concordo e corroboro com o educador Paulo Freire (1996), quando ele afirma: “Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. Gente mais gente” (p. 146). A competição conduz as pessoas, na maioria dos casos, à arrogância e ao egoísmo. Processo que pouco contribui à formação humana.

eduardo marinho observar absorver.JPG Imagem por Eduardo Marinho

Superar a resistência a processos formativos mais humanos, que considerem mais os sujeitos do que os métodos ou os objetos de determinada pesquisa ou disciplina, é o que podemos defender e buscar fazer em nossas práticas pedagógicas diárias. Não fugiremos à responsabilidade e ao compromisso profissional. Muito pelo contrário, o teremos segurado em nossas ações.

Em outras palavras, acredito que o processo educativo, formal ou não, está vinculado diretamente a um projeto de homem e de sociedade que buscamos construir em coletividade. Uma sociedade mais justa e igualitária; e, por que não, uma sociedade mais feliz. Na amizade encontramos campo para semear e cultivar tais ideais. Também acredito, como Eduardo Galeano (2011) que “a solidariedade é o eixo das relações humanas” (p. 389). E, como escreveu Chris McCandless – Alexander Supertramp – em sua jornada no Alasca: “FELICIDADE SÓ É REAL QUANDO COMPARTILHADA” (KRAKAUER, 1998, p. 197).

large into the wild blu-ray2.jpg Imagem via Evelinn Gomes

José Douglas Alves dos Santos

Este é um resumo do texto original: "Notas mentais de uma breve reflexão: amizade como experiência formativa", apresentado no V Seminário Internacional sobre Filosofia e Educação e o I Congresso da Sociedade Brasileira da Filosofia da Educação: Racionalidade, amizade e experiência formativa, em setembro de 2014, na cidade de Passo Fundo/RS.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FURTADO, Celso. O capitalismo global. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

__________. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM, 2009.

GESSINGER, Humberto. Mapas do acaso: 45 variações sobre um mesmo tema. Caxias do Sul, RS: Belas-Letras, 2011.

GOMES, Lívia Godinho Nery; SILVA JUNIOR, Nelson da. Sobre a amizade em tempos de solidão. Psicol. Soc., Porto Alegre, v. 19, n. 2, Aug. 2007. Disponível em: . Acesso em 03 Mai. 2014.

KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

SILVA, José Paulino da. Elogio da amizade: um registro de memória e experiência. São Luis/MA: Edt. Sotaque Norte, 2012.


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.
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