desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

O PROTAGONISMO INFANTO-JUVENIL NO CINEMA

Historicamente, as crianças e jovens foram consideradas e tratadas em segundo plano pelas lentes adultocêntricas da nossa sociedade. A forma como estes sujeitos são vistos e percebidos os coloca numa condição de silêncio que se amplia com o descaso vivenciado por muitos em seu cotidiano – crianças e jovens sem abrigo, sem comida, sem escolas, sem perspectivas, sem voz e sem vez.


crianças.jpg Imagem via Diário do Centro do Mundo.

Por: José Douglas Alves dos Santos e Aísha Kaderrah Dantas Melo

Refletir e discutir o protagonismo de crianças e jovens nos diversos espaços sociais nos parece uma necessidade urgente, quando dados recentes demonstram que a miséria em boa parte do mundo vem aumentando e que as crianças e jovens estão entre os mais afetados (WIMER, 2014). Nos parece que temos a obrigação ética e moral de repensar velhos conceitos há muito estabelecidos.

Historicamente, as crianças e jovens foram consideradas e tratadas em segundo plano pelas lentes adultocêntricas da nossa sociedade (GOBBI, 1997; OLIVEIRA, 2004; SANTOS, 2013). Por um longo período, essas crianças e jovens foram metaforizadas de múltiplas maneiras, desde o tom meloso e nostálgico da infância e juventude, a uma imagem de decadência e violência social (ARROYO, 2009). Os tempos mudaram e as crianças e jovens foram também modificadas. A condição de ser criança, adolescente e jovem, antes vista como um processo natural, em que eles saíam da menoridade para a maioridade de juízo já não condiz com a realidade vivenciada por muitos destes sujeitos.

O que as crianças e adolescentes nos dizem é que na luta pela sobrevivência são obrigados a ter que decidir como adultos. Nos problemas onde estão em jogo os grandes impasses éticos são obrigados a ter de escolher desde crianças: a indisciplina, a violência, o tráfico, a prostituição, o presente ou o futuro, a vida ou a morte. A própria sociedade transferiu essas gravíssimas escolhas para a menoridade. Se a pedagogia e a docência se imaginarem acompanhando passageiros que tranquilamente faziam o percurso da menoridade à maioridade moral, as coisas mudaram e não por capricho das crianças, nem por rebeldia dos adolescentes e jovens, mas porque a barbárie moral de nossa sociedade os obriga a ter comportamentos, valores, escolhas, antes tidos como próprios de adultos (ARROYO, 2009, p. 167). Imagem por James Mollison.png Imagem por James Mollison.

Desconsideradas do mundo político e das políticas sociais, criou-se um grave estigma social sobre as crianças e jovens, principalmente dos meios populares. A forma como estes sujeitos são vistos e percebidos os coloca numa condição de silêncio (OLIVEIRA, 2004; SANTOS, 2013) que se amplia com o descaso vivenciado por muitos em seu cotidiano – crianças e jovens sem abrigo, sem comida, sem escolas, sem perspectivas, sem voz e sem vez.

O protagonismo infanto-juvenil no cinema

Quando pensamos na imagem das crianças e dos jovens no cinema, logo temos outro tipo de representação destes sujeitos – inclusive em filmes que pouco poderiam ser relacionados quando se pensa a criança e jovem em seu protagonismo sociopolítico.

São muitas as películas que podem ajudar a repensar o olhar marginal lançado às crianças e jovens de nossa sociedade contemporânea, contribuindo na construção de novos modos de ver e de percebê-los. Nos propomos a fazer uma análise nesta perspectiva em três filmes: “Tartarugas Podem Voar” (Lakposhtha parvaz mikonand, 2004), “O Gigante Egoísta” (The Selfish Giant, 2013) e “Temporário 12” (Short Term 12, 2013).

Tartarugas Podem Voar” (Lakposhtha parvaz mikonand, 2004) tartarugas00.jpg

Em uma co-produção Iraque-iraniana, o quarto filme do diretor Bahman Ghobadi (poético já em seu título), nos apresenta mais uma vez o tema da guerra – um tema que não poderá ser considerado “moda” ou “ultrapassado”, já que se trata da condição da vida de tantas pessoas em todo o mundo. A diferença desse filme para os demais que abordam a temática é o enfoque dado à trama. É a história do ápice da guerra no Iraque contada a partir da rotina de uma pequena aldeia. E mais do que isso: é a história da guerra contada através dos olhos (e de marcas profundas, externas e internas) de crianças e jovens. Crianças que já não são mais crianças ou que perderam o seu direito à infância.

Esse olhar “infantil-juvenil” recai principalmente sobre quatro personagens: Satélite, um jovem que têm muito poder na aldeia, tanto com as crianças quanto com os adultos; Agrin, uma garota órfã por quem Satélite se encanta; Hengao, que é irmão de Agrin e que perdeu os braços devido a um acidente com uma mina terrestre (situação comum entre as crianças da região); e uma criança pequena, Pasheo (um garoto com deficiência visual) que os dois irmãos carregam.

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Através das ações destes personagens descobrimos sobre suas histórias e somos nocauteados pela crueldade que não costumamos ver nos noticiários. “Tartarugas Podem Voar” não é só um filme sobre a guerra do Iraque (ou dos Estados Unidos), nem tampouco só mais um filme sobre o assunto. É uma situação que pode ser encontrada em todos os campos de batalha do mundo globalizado. Cenas de uma guerra que não é particular, mas que ainda nos parece ser incomum.

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Em uma das tantas cenas memoráveis, os garotos (como sempre a mando do jovem Satélite) armam o arsenal na escola – escola, leia-se aqui, um pequeno perímetro com uma cadeira e uma mesa, em meio a um campo aberto – com o intuito de aprenderem a atirar. O professor aparece e questiona o que eles estão fazendo naquele local, com aquelas armas, num lugar proibido a elas, onde há uma bandeira branca hasteada; o professor, dialogando com Satélite, diz que as crianças precisam aprender matemática e ciência. Satélite então responde que elas já sabem, e muito bem. Para provar, faz com que algumas respondam equações matemáticas, mostrando que isso elas realmente já sabem e que precisam, no momento, aprender a atirar. O professor logo percebe que eles têm razão.

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A cena tem uma simbologia que vai muito além do mero diálogo. O fato de questionar a função dos saberes científicos e sua validade é um dos motivos fundamentais que nos levam a questionar as estruturas das guerras modernas. O homem e suas ciências proporcionaram avanços significativos, todavia, por outro lado, deixaram um rastro de sujeira e destruição. As escolas ensinaram os jovens sobre “a arte da guerra”, mas não ensinaram sobre “sobreviver à guerra”.

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Outra cena antológica é quando Agrin está com Pasheo (o garoto cego) num amontoado de sucatas da guerra, cápsulas de artilharia antiaérea. Pasheo, por um instante, foge aos olhos da menina e busca, entre os muros da desumanidade – através das fendas abertas nas cápsulas –, encontrar seus pais, chamando-os em vão. Vencendor de diversos prêmios internacionais, “Tartarugas Podem Voar” é um filme denso/tenso, forte, impactante e, em certo ponto, difícil de assistir. Duas curiosidades: “Primeiro filme rodado no Iraque durante a ocupação americana” (MATTOS, 2005, s/p); e as crianças que atuam na obra não são profissionais, e sim refugiadas de guerra (RISO, 2008).

Trailer Tartarugas Podem Voar:

O Gigante Egoísta” (The Selfish Giant, 2013) ogigante00.jpg

O Gigante Egoísta”, longa-metragem dirigido pela inglesa Clio Barnard, traz como protagonistas dois personagens, dois amigos, Arbor e Swifty, que moram na periferia inglesa e estão passando por dilemas profundos em suas vidas – preferem a rua que a escola (um dos personagens inclusive comemora quando é expulso da escola); têm problemas familiares; sentem-se no direito de ajudar financeiramente a família e a ter independência, mesmo sem saber exatamente como; entre tantos outros sentimentos.

Diferentemente de muitos filmes hollywoodianos, este filme inglês apresenta crianças que transgridem as normas não por mera curiosidade, desobediência maternal e paternal; aqui elas o fazem por uma questão de necessidade. Nesta película, as crianças falam palavrão abertamente e vão às ruas em busca de dinheiro, buscando uma forma de vida melhor – já que elas são condicionadas a pensar desde cedo (e também percebem logo) que quanto mais dinheiro conseguirem, melhor viverão.

Quando Arbor e Swifty conhecem Kitten (que vive daquilo que seus empregados catam dos lixos pela cidade), eles decidem pedir uma oportunidade para trabalharem para ele. Insistentes em suas posições, logo eles passam a ter sua rotina modificada: não mais acordam para ir à escola e depois voltar para casa; agora eles vão trabalhar nas ruas catando metal e depois vão para casa.

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Isso nos faz refletir sobre os diversos contextos da realidade dessas crianças. O que poderia ser considerado uma exploração do trabalho infantil, passa também a ser visto como um processo de amadurecimento e de enfrentamento das situações reais da vida. Temos ainda a possibilidade de pensar sobre as crises sociais que não afetam somente os adultos, mas também – e em certos casos, principalmente – as crianças e jovens.

Ao acompanharmos a história destes dois amigos, logo percebemos o quanto a situação das crianças e jovens na Europa, principalmente as dos menos favorecidos e de muitos imigrantes, é crítica e precisa ser abordada de maneira mais condizente com a realidade; como a diretora Clio Barnard faz com segurança.

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Destacamos ainda a relação que estas crianças mantêm com o cavalo que as carrega diariamente em seu trabalho. Naquela região, estes eram "[...] animais representativos e indispensáveis na Inglaterra antiga e agora destinados a servir como meio de transporte para catadores de lixo, fazendo, assim, um paralelo no mínimo curioso de como o Reino Unido deturpou suas referências e simbologias ao longo do tempo" (MONTEIRO, 2013, s/p).

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Um filme referência para se discutir o papel das escolas hoje, quando percebemos que aquele espaço não faz muito sentido na vida dessas crianças. Para se discutir a questão do trabalho infantil – quando o não-trabalhar pode ser uma opção na vida das crianças? O papel da família na formação de seus filhos. E muitas outras problemáticas que incidem sobre a realidade cotidiana de inúmeras crianças ao redor do mundo.

Trailer O Gigante Egoísta:

Temporário 12” (Short Term 12, 2013) short00.jpg

Em “Temporário 12” temos uma história que cativa pela sua singularidade e especificidade. O filme foi “inspirado pela experiência pessoal do diretor e roteirista Destin Daniel Cretton, quando ele trabalhou por dois anos em um abrigo infantil” (AZEVEDO, 2014).

O cineasta hawaiano Destin Cretton apresenta a história de jovens cuidando de crianças e outros jovens. “Short Term 12” refere-se ao nome de uma instituição, um centro, que acolhe este público mencionado em situação de risco – abandonados e/ou vítimas de violência por seus responsáveis – temporariamente.

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De forma natural e bem realista acompanhamos um pouco da rotina do local e das trajetórias dos personagens envolvidos, com destaque para Grace e Mason, um jovem casal que assume as maiores responsabilidades para que o local continue em funcionamento; ambos, outrora, receberam o mesmo tipo de ajuda, por isso compreendem o valor daquilo que fazem com os novos atendidos.

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Esta é uma daquelas obras que estimula o espectador e pensar. Ao conhecer um pouco da realidade daquelas crianças e jovens, e daqueles que os atendem, percebemos que ajudar o outro é ainda a melhor maneira de ajudar a nós mesmos. Trazendo temas historicamente tão caros às infâncias e juventudes – agressões, abusos, violências, abandonos, gravidez, entre outros –, Destin Cretton demonstra, de forma bastante realista, que por meio do cinema é possível tocar na sensibilidade do outro.

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Neste longa-metragem, temos uma maneira de enxergar o protagonismo infanto-juvenil de maneira a perceber que mesmo tomando a ação da história, assumindo responsabilidades e compromissos sociais, estes jovens não perdem algo inato a todo ser humano, inclusive os adultos: o medo e as incertezas perante a cruel realidade que os atinge.

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Uma obra que estimula a pensar e toca nos principais atos e sentimentos humanos: solidariedade, compaixão, altruísmo, empatia. Como afirma Camacho (2014, s/p): “o profundo drama Short Term 12 é um daqueles filmes que de tão bonito vira lembrança inesquecível dentro dos nossos corações”.

Trailer Temporário 12:

Nas três obras vemos crianças assumindo responsabilidades e tendo que lidar com uma série de sentimentos, sem saber ao certo com quem podem contar. Mas todas elas, em algum momento, esquecem disso e se tornam simplesmente crianças, brincando com o perigo ou chorando sem medo. Crianças fazendo e contando suas histórias.

Por novas considerações IH003800.jpg Imagem por João Roberto Ripper.

A forma como a sétima arte vem abordando a situação de crianças e jovens ao redor do mundo, nos possibilita (re)pensar e refletir sobre as representações sociais difundidas sobre este público. Sujeitos silenciados em diversos espaços, como na escola, por exemplo, e que ganham destaque e projeção nas telas do cinema.

Sabemos que há filmes que apenas reproduzem uma conduta que exprime a infância e a juventude como meramente fases cronológicas da vida, baseadas sobretudo no imaginário de uma criança tipicamente ocidental, que pouco contextualiza a verdadeira situação daqueles grupos.

Muita criança com fome na rua -2009 – os gêmeos.jpg Imagem por Os Gêmeos.

Entretanto, notamos que o cinema é um recurso viável quando precisamos encontrar material que estabeleça novos parâmetros e conceitos a serem discutidos sobre as distintas infâncias e juventudes, e sobre o protagonismo sociocultural de crianças e jovens; para uma reeducação de nosso olhar e de nossa sensibilidade enquanto seres humanos. Dessa forma, esperamos ter contribuído para que novas considerações possam ser produzidas sobre as infâncias e juventudes do tempo presente.

Este é um resumo do artigo "O PROTAGONISMO INFANTO-JUVENIL: O QUE O CINEMA PODE NOS ENSINAR?", apresentando no II Seminário Debates do Tempo Presente: “Educação, Guerras, Extremismos”, em dezembro de 2014, na cidade de Recife/PE.

REFERÊNCIAS

ARROYO, Miguel G. Imagens quebradas: trajetórias e tempos de alunos e mestres. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

AZEVEDO, Kamila. Temporário 12. Cinéfila por Natureza (online), abr. 2014. Disponível em: . Acesso em 26 nov. 2014.

CAMACHO, Raphael. Crítica do filme: ‘Short Term 12’. Guia do Cinéfilo (online), fev. 2014. Disponível em: . Acesso em 27 nov. 2014.

GOBBI, Márcia. Lápis vermelho é coisa de mulherzinha: desenho infantil, relações de gênero e educação infantil. Campinas, SP. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Estadual de Campinas, 1997.

MATTOS, Carlos Alberto. Tartarugas podem voar. Críticos (online), jul. 2005. Disponível em: . Acesso em 25 nov. 2014.

MONTEIRO, Victor. O gigante egoísta. Almanaque Virtual (online), out. 2013. Disponível em: . Acesso em 26 nov. 2014.

OLIVEIRA, A. M. Entender o outro (...) exige mais, quando o outro é uma criança: reflexões en torno da alteridade da infância no contexto da educação infantil. In: M. J. Sarmento, A. B. Cerisara. Crianças e miúdos: perspectivas sociopedagógicas da Infância e Educação, Porto - Portugal: Asa, 2004.

RISO, Ricardo. Tartarugas podem voar. Nov. 2008. Disponível em: . Acesso em 25 nov. 2014.

SANTOS, José Douglas Alves dos Santos. “O professor é importante, porque é porque se não for aí não é”: escutando as crianças e pensando o professor”. (Monografia) Departamento de Educação - Universidade Federal de Sergipe, 2013.

WIMER, Carolus. Monstruo del capitalismo incrementa porcentaje de niños en pobreza y hambre en Europa y EE.UU. TeleSur (online), nov. de 2014. Disponível em: . Acesso em 25 nov. 2014.


J. Douglas Alves

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