desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

NÚMEROS DO TERROR: PERDAS FORA DE COMBATE

Em 2010, a média de suicídio por ex-soldados estadunidenses era de 18 por dia. Em 2014, este número subiu para 22. Confira uma breve análise e reflexão sobre alguns dos números do terror produzidos pela guerra.


00. By LOLITA C. BALDOR.jpg Image by Lolita c. Baldor

"Talvez não fossem seres humanos, mas apenas material descartável."

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Em 2010, a Carta Maior publicou uma matéria de Juan Gelman, intitulada "Baixas silenciosas", a respeito do suicídio de soldados estadunidenses que participaram das guerras do Iraque e/ou Afeganistão. Segundo a matéria:

"Em 2009, 245 efetivos ceifaram suas próprias vidas e a cifra este ano [2010] pode ser superada: 145 se suicidaram no primeiro semestre e 1713 tentaram-no, sem êxito. A taxa é mais alta que a da correspondente [aos suicídios] na população civil dos EUA."

Tim Embree, militar, citado por Gelman, afirmava que "A maioria de nós conhece um companheiro que o fez ao regressar para casa e os números não incluem sequer a quem se suicida quando termina seu serviço: estes estão fora do sistema e suas mortes podem ser ignoradas". Talvez não fossem seres humanos, mas apenas material descartável."

O militar, na época, também recordou os dados publicados pelo semanário Army Times, "que divulga notícias do exército e possibilidades de carreira na instituição: “18 veteranos se suicidam a cada dia e se registra uma média mensal de 950 tentativas de suicídio entre veteranos que recebem do departamento federal correspondente algum tripo de tratamento (www.armytimes.com, 24/04/2010)”".

Uma média de 18 suicídios por dia em 2010.

02. Credit - Manjunath Kiran -AFP - Getty Images.jpg Credit: Manjunath Kiran/AFP/ Getty Images

Quatro anos depois, em 2014, esse número cresceu para 22 suicídios diários, segundo Adin Dobkin, em artigo intitulado "Veterans face a national lack of empathy" e publicado no jornal estadunidense The Hill.

"In fact, the Medical Surveillance Monthly Report, a journal produced by the U.S. armed forces, recently reported that suicide has surpassed war as the primary cause of death among active service members. It is clear that the status quo can no longer remain in place." (algo como: "Na verdade, o Relatório Mensal vigilância médica, uma revista produzida pelas forças armadas dos Estados Unidos, informou recentemente que o suicídio tem superado a guerra como a principal causa de morte entre os membros do serviço ativo. É claro que o status quo não pode mais permanecer no lugar.").

Dado já abordado em matéria da BBC Brasil, em 2013, sob o título "EUA buscam saídas para frear suicídios de veteranos de guerra".

03. Colleen Rivas detém uma foto de seu marido, Ray Rivas, em sua casa em New Braunfels (Image by Jay Janner).JPG Colleen Rivas com uma foto de seu marido, Ray Rivas, em sua casa em New Braunfels (Image by Jay Janner)

De acordo com a matéria publicada pelo Diário Liberdade, a respeito da publicação do jornal The Hill: "Essa informação vai de encontro com dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que afirma que o suicídio é a principal causa de morte atualmente entre os militares da ativa e retirados, superando inclusive o número de vítimas fatais em combate. No Afeganistão, por exemplo, morreram menos militares em combate do que os que se suicidaram após voltar para casa. Este ano, o Departamento de Assuntos de Veteranos constatou que mais de 120 mil ex-militares permaneceram durante muito tempo em listas de espera para receber atendimento médico." Só este ano, em um hospital de Phoenix, estado de Arizona, quarenta ex-combatentes estadunidenses morreram devido a esta espera no atendimento.

04. Oliver Munday - For The Washington Post.jpg Oliver Munday/For The Washington Post

Adin Dobkin enfatiza que "[...] many veterans are not referred for thorough evaluation and appropriate treatment — effectively falling through the cracks of the system. Without properly addressing the physical and psychosocial subtleties of TBI including the cognitive, psychiatric and emotional problems, these veterans will not receive the care required for proper rehabilitation and integration back into society." (em tradução livre: "[...] muitos veteranos não são encaminhados para uma avaliação minuciosa e tratamento adequado - efetivamente caindo através das rachaduras do sistema. Sem abordar adequadamente as sutilezas físicas e psicossociais da TBI, incluindo os problemas cognitivos, psiquiátricos e emocionais, estes veteranos não receberão os cuidados necessários para a reabilitação adequada e integração de volta à sociedade.").

Quando atendidos, muitos desses ex-soldados são tratados com medicamentos (caso da maioria), o que geralmente não resolve o problema (torna o sujeito dependente de medicações pesadas, contribuindo para deixá-lo dependente de tais remédios e até mesmo, em certos casos, contribuindo também ao próprio ato do suicídio). Outra possibilidade são as terapias alternativas, "mais prolongadas, que exigem mais recursos humanos, mais tempo e, assim, mais investimento.", segundo matéria da BBC Brasil.

05. (Image by Jay Janner)2.JPG (Image by Jay Janner)

A matéria, porém, ressalta que "julgar que a situação é resultado da mera falta de recursos é, segundo especialistas, simplificar o problema. Essa é a opinião de Raúl Coimbra, diretor do sistema de saúde do Hospital de San Diego, na Califórnia. Segundo ele, existem outros fatores que têm um papel muito importante, como o estigma que persiste em torno dos problemas mentais: muitos militares não se sentem confortáveis para pedir ajuda, pois não querem ser classificacos como loucos. Existem ainda os que querem receber ajuda, mas não pelas mãos de um especialista civil. Os militares se queixam que os civis desconhecem a realidade enfrentada pelos membros do Exército e, por isso, preferem recorrer a outras fontes de ajuda. É o caso da organização Veterans4Warriors (Veteranos para os Guerreiros, em tradução livre do inglês), que oferece assistência específica a todo militar veterano. Por meio de um serviço telefônico ou por e-mail, um ex-militar que sofre de algum tipo de sequela mental pode receber ajuda de uma outra pessoa que pode compreender melhor sua situação."

06. Photo - (U.S. Air Force photo illustration by Airman 1st Class Corey Hook) - See more at httpairforcelive.dodlive.miltagwingmen#sthash.c5YCdKwV.dpuf.jpg Photo - (U.S. Air Force photo illustration by Airman 1st Class Corey Hook)

Computados todos os mortos e feridos (em combate externo, nos "campos de batalha", ou em combate interno, em si mesmo) temos números mais que suficiente para admitirmos que argumento nenhum justifique essas perdas.

E estes são somente os dados referentes aos suicídios dos ex-soldados estadunidenses depois que voltam para casa. E aqueles que foram ou são vítimas destes profissionais formados para matar? Quem pode fazer a conta do número de suicídios – entre civis ou combatentes – de todos os atingidos pela guerra ao terror (ou das guerras ao terror, talvez seja mais coerente colocar o termo no plural) que os Estados Unidos impõem sobre eles?

07. Um soldado do exército dos EUA na patrulha de soldados iraquianos em 2007 - USAF.jpeg Um soldado do exército dos EUA na patrulha de soldados iraquianos em 2007 - USAF

FONTES:

Matéria de 2010: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Baixas-silenciosas/6/16048

Matéria de 2013: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/bbc/2013-06-06/eua-buscam-saidas-para-frear-suicidios-de-veteranos-de-guerra.html

Matérias de 2014: http://thehill.com/blogs/pundits-blog/defense/228097-veterans-face-a-national-lack-of-empathy

http://www.prensalatina.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=3399791&Itemid=1

http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/400-reportagens/53331-a-cada-dia,-suicidam-se-22-veteranos-do-ex%C3%A9rcito-dos-eua.html


José Douglas Alves dos Santos

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