desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO

É um dever ético e moral não deixar a memória coletiva ser apagada, esquecida ou manipulada em mãos daqueles que detêm o poder – econômico, político e social. José Eduardo Agualusa nos esclarece que a história pode ser modificada, reorientada e até ressignificada, porém jamais apagada quando nos propomos a não deixar isso acontecer.


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A obra “Teoria Geral do Esquecimento”, do angolano José Eduardo Agualusa, conta a história de Ludovica (ou Ludo), que na Angola, no ano de 1975 “[...] ergue uma parede separando seu apartamento do resto do edifício onde vive. Isolada do mundo, vai sobreviver, durante quase trinta anos, observando ao longe as transformações da cidade [...]”.. É uma obra de referência sobre aquilo que talvez possamos chamar de dialética do tempo (passado, presente e futuro). Por meio de uma linguagem simples e atrativa – e de personagens memoráveis –, seu texto nos prende de uma forma que passamos a compreender melhor as problemáticas que envolvem este tema – por meio da memória, da história e do esquecimento (para lembrar Paul Ricoeur).

02. agualusa.jpg José Eduardo Agualusa.

Todos podemos, ao longo de uma vida, conhecer várias existências. Eventualmente, desistências. Aliás, o mais habitual. Poucos, contudo, têm a possibilidade de vestir uma outra pele. [...]” (p. 45), escreve Agualusa. Outros têm a possibilidade de narrar uma parte da história e dos sujeitos que produzem a história. José Eduardo Agualusa é daqueles que apresentam outros pontos de vista sobre o processo histórico. Tomando como base as reflexões de Roger Chartier (2010, p. 23), podemos dizer que o autor angolano “[...] relembra os desafios éticos e políticos ligados ao acesso à escrita [...]”.

03. folha347.jpg José Eduardo Agualusa. Imagem livre para utilização pela imprensa, cedida pelo autor.

Jacques Le Goff (2003, p. 434) nos recorda que, “[...] segundo sua orientação, a memória pode conduzir à história ou distanciar-se dela [...]”. Agualusa parece decidido a se aproximar o máximo possível da história – mas daquela não contada; ou que pouco tem espaço diante das narrativas históricas com orientações bem definidas – assim como interesses bem definidos. Logo, o que este escritor faz é seguir “contra a corrente”, não estabelecendo elos partidários em sua análise dos fatos sociais produzidos (uma opção um tanto difícil de seguir na literatura). E seu trabalho torna-se ainda mais relevante quando hoje sabemos que “[...] a luta contra a incompletude não terminará nunca, e isto se chama História” (BALANDIER, 1999, p. 212).

04. agualusa04.jpg José Eduardo Agualusa. Imagem livre para utilização pela imprensa, cedida pelo autor.

“Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens” (LE GOFF, 2003, p. 471). O filósofo Paul Ricoeur também ressalta que “[...] cada um de nós tem o dever de não esquecer mas de dizer o passado, de um modo pacífico, sem cólera, por muito doloroso que seja”. Que possamos contar com mais defensores da História e da memória coletiva, como José Eduardo Agualusa, para o bem de toda sociedade.

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Caro leitor, se por acaso ainda não leu a obra “Teoria Geral do Esquecimento”, sugiro que só continue a leitura deste texto em caso de não se importar com spoilers, pois para encerrar esta postagem transcrevo a seguir uma parte central do livro, em homenagem às mulheres (não só pelo dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, mas por todos os dias, para não esquecer que diariamente muitas mulheres ainda são vítimas de violências – as mais diversas. Ver: "PROBLEMA DE HOMENS (POR SARAMAGO)"). Também ressalto se tratar de uma passagem forte, tensa, até mesmo angustiante. Mas sendo dever nosso não esquecer o que passou, todos os crimes e injustiças cometidos, temos que continuar repetindo este processo para relembrarmos de um passado muitas vezes nem tão distante assim (objetivando chegar o dia em que isso não seja mais necessário). Como o próprio Agualusa afirma: “[...] A maldade também precisa descansar.” (p. 59). “O luto continua” (p. 30).

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Não lhe quis dizer que, muitas vezes, ao olhar para os espelhos, via debruçar-se sobre mim o homem que me violou. Naquela época eu ainda saía de casa. Levava uma vida quase normal. Ia e vinha do liceu, de bicicleta. No verão, alugávamos uma casa, na Costa Nova. Eu nadava. Gostava de nadar. Uma tarde, ao chegar a casa, vinda da praia, dei pela falta de um livro que estava a ler. Retornei, sozinha, à procura dele. Havia uma fila de barraquinhas montadas na areia. A noite caíra, entretanto, e estavam desertas. Dirigi-me à barraquinha onde tínhamos estado. Entrei. Ouvi um ruído, e, ao voltar-me, vi um sujeito à porta, sorrindo para mim. Reconheci-o. costumava vê-lo, num bar, a jogar às cartas com o meu pai. Ia explicar-lhe o que estava ali a fazer. Não tive tempo. Quando dei por isso já ele estava sobre mim. Rasgou-me o vestido, arrancou-me as calcinhas, e penetrou-me. Lembro-me do cheiro. Das mãos, ásperas, duras, apertando-me os seios. Gritei. Bateu-me no rosto, pancadas fortes, sincopadas, não com ódio, não com fúria, como se estivesse a divertir-se. Calei-me. Cheguei a casa aos soluços, o vestido rasgado, cheio de sangue, o rosto inchado. O meu pai compreendeu tudo. Perdeu a cabeça. Esbofeteou-me. Enquanto me açoitava, com o cinto, gritava comigo, puta, vadia, desgraçada. Ainda hoje o ouço: Puta! Puta! A minha mãe agarrada a ele. A minha irmã em prantos.

Nunca soube ao certo o que aconteceu ao homem que me violou. Era pescador. Dizem que fugiu para Espanha. Desapareceu. Engravidei. Fechei-me num quarto. Fecharam-me num quarto. Ouvia, lá fora, as pessoas a segredarem. Quando chegou o momento, uma parteira veio ajudar-me. Nem cheguei a ver o rosto da minha filha. Tiraram-na de mim.

A vergonha.

A vergonha é que me impedia de sair de casa. O meu pai morreu sem nunca mais me dirigir a palavra. Eu entrava na sala e ele levantava-se e ia-se embora. Passaram-se anos, morreu. Meses depois a minha mãe seguiu-o. Mudei-me para a casa da minha irmã. Pouco a pouco fui-me esquecendo. Todos os dias pensava na minha filha. Todos os dias me exercitava para não pensar nela.

Nunca mais consegui sair à rua sem experimentar uma vergonha profunda.

Agora passou. Saio à rua e já não sinto vergonha. Não sinto medo. Saio à rua e as quitandeiras cumprimentam-me. Riem-se para mim, como parentes próximas. As crianças brincam comigo, dão-me a mão. Não sei se por eu ser muito velha, se por eu ser tão criança quanto elas.” (p. 166-167).

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“É NOS SONHOS QUE TUDO COMEÇA” (José Eduardo Agualusa, p. 171)

Referências

AGUALUSA, José Eduardo. Teoria geral do esquecimento. Rio de Janeiro: Foz, 2012.

BALANDIER, Georges. O dédalo: para finalizar o século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

CHARTIER, Roger. “Escutar os mortos com os olhos”. In: Estudos Avançados 24 (69), p. 7-30. Rio de Janeiro: 2010. Disponível em: . Acesso em abr. 2015.

LE GOFF, Jacques. Memória. In: LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.

RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Proferimento apresentado na Conferência Internacional “Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism”, realizada em 8 de março de 2003, em Budapeste, Hungria. Traduzido do inglês no âmbito da Unidade de Investigação “Linguagem, Interpretação e Filosofia” da Universidade de Coimbra. Disponível em:. Acesso em abr. 2015.


José Douglas Alves dos Santos

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