desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

REIS DO AGRONEGÓCIO

“Reis do Agronegócio”, canção de Chico César, com letra de Carlos Rennó, traz uma velha discussão que ganha novos contornos diante das últimas novidades no campo da política em escala local e global.


00. Latuff01256.jpg Imagem por Latuff

Reis do Agronegócio é a nova música do paraibano Chico César. Com letra de Carlos Rennó, a canção é uma amostra do quanto a arte é relevante para o processo de tomada de consciência – na verdade, a arte não é apenas relevante, ela é fundamental.

01. Chico César - Senado.jpg Imagem por Maryanna Oliveira / Câmara dos Deputados. Via: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/486083-CHICO-CESAR-CRITICA-AGRONEGOCIO-E-DESMATAMENTO-EM-SESSAO-SOLENE.html

Segundo a redação do Portal Fórum, na manhã do dia 16/04, “o cantor e compositor Chico César participou da sessão em homenagem ao Dia do Índio, no plenário da Câmara dos Deputados. Com sua canção, ele criticou o agronegócio, o desmatamento e o uso indiscriminado de agrotóxicos. César ainda chama os ruralistas de “pinóquios velhos”.

02. Illustration by Benjamin Karis-Nix2.jpg Illustration by Benjamin Karis-Nix

A iniciativa do Chico César e Carlos Rennó nos remonta a outras notícias recentes que, de uma forma ou de outra, envolvem a temática. Na última semana o cantor Neil Young anunciou que lançará, no dia 16 de junho, um álbum com canções que tratam especificamente da Monsanto e dos impactos socioambientais causados pela companhia. “Às vésperas de completar 70 anos, Young, que desde os anos 60 se tornou um ativista político, lança o álbum “Monsanto Years”, um disco de músicas contra a gigante do agrotóxico”, conforme consta na página oficial do MST.

03. Senado dos Estados Unidos.jpg Senado dos Estados Unidos. Imagem via NBC News

Também na última semana, em votação apertada no senado dos Estados Unidos, foi reconhecido que o aquecimento global não tem sua causa na ação humana. Tal reconhecimento põe em cheque as políticas ambientais até então defendidas por especialistas da área e nos faz pensar sobre os efeitos que essa ação pode acarretar, considerando que os EUA estão entre os países que mais destroem e poluem o ambiente.

004. Screen Shot 2014-04-04 at 08.46.26.png Imagem via Da Joana

Ainda na última semana, dessa vez no Brasil, a Câmara dos Deputados “aprovou o projeto que acaba com a exigência de rotular alimentos que utilizam produtos geneticamente modificados destinados a consumo humano”. O advogado e mestre em Ciências Sociais Sandro Ari Miranda afirma que: “Tal proposta de lei, além de carecer de constitucionalidade, pois ofende ao princípio da precaução, coloca em risco o meio ambiente, a saúde, e o próprio direito de escolha dos consumidores, na medida em que estas não podem mais optar por um produto contaminado por modificações genéticas ou por outro livre deste tipo de contaminação. [...] Além da Monsanto (EUA), apenas mais cinco grupos de multinacionais dominam o mercado de transgênicos no mundo agrícola: a Syngenta (Suíça), Dupont (EUA), Basf (Alemanha), Bayer (Alemanha) e Dow (EUA). Desta forma, o projeto do deputado Heinze (PP/RS), aprovado por 320 Deputados na Câmara dos Deputados, defende o interesse de uma ínfima elite empresarial internacional, e coloca em risco tanto a soberania da economia nacional, como a nossa soberania ambiental e alimentar”. “O texto agora vai para análise e votação dos senadores”, segundo aponta Luciano Nascimento, Repórter da Agência Brasil.

04. Galeano8982.jpg Imagem via t13

Diante da última notícia, cabe relembrar as palavras de um senhor recém falecido, Eduardo Galeano (1940-2015), que costumava questionar a ordem do sistema capitalista. Antes de partir fisicamente deste mundo, ele deixou clara a relação que as grandes corporações estabelecem com a natureza. Segundo Galeano:

Durante milhares de anos, quase todo o mundo teve direito de não ter direitos.

Nos fatos, não são poucos os que continuam sem direitos, mas pelo menos se reconhece, agora, o direito a tê-los; e isso é bastante mais do que um gesto de caridade dos senhores do mundo para consolo dos seus servos.

E a natureza? De certo modo, pode-se dizer que os direitos humanos abrangem a natureza, porque ela não é um cartão postal para ser olhado desde fora; mas bem sabe a natureza que até as melhores leis humanas tratam-na como objeto de propriedade, e nunca como sujeito de direito.

Reduzida a uma mera fonte de recursos naturais e bons negócios, ela pode ser legalmente maltratada, e até exterminada, sem que suas queixas sejam escutadas e sem que as normas jurídicas impeçam a impunidade dos criminosos. No máximo, no melhor dos casos, são as vítimas humanas que podem exigir uma indenização mais ou menos simbólica, e isso sempre depois que o mal já foi feito, mas as leis não evitam nem detêm os atentados contra a terra, a água ou o ar.

Parece estranho, não é? Isto de que a natureza tenha direitos... Uma loucura. Como se a natureza fosse pessoa! Em compensação, parece muito normal que as grandes empresas dos Estados Unidos desfrutem de direitos humanos. Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos, modelo da justiça universal, estendeu os direitos humanos às corporações privadas. A lei reconheceu para elas os mesmos direitos das pessoas: direito à vida, à livre expressão, à privacidade e a todo o resto, como se as empresas respirassem. Mais de 120 anos já se passaram e assim continua sendo. Ninguém fica estranhado com isso.

Serj Tankian - Harakiri

Serj Tankian, vocalista da banda System of a Down e ativista político-social, lançou em julho de 2012 seu terceiro álbum solo, intitulado Harakiri. Na faixa título do álbum, Tankian faz uma dura crítica ao capitalismo e seu impacto à natureza. Em entrevista, perguntado a respeito do título do disco, o vocalista afirmou: “Acho que a sociedade está cometendo um suicídio coletivo de certa forma. Estamos envenenando nosso planeta, o local onde vivemos. É uma forma simbólica de falar sobre a morte, de certa forma, da espécie humana”.

05. Image by Feggo (Felipe Galindo).jpg Image by Feggo (Felipe Galindo)

Em Reis do Agronegócio, Carlos Rennó e Chico César trazem à tona uma discussão que não é recente. Não se trata de um problema novo. Situando a problemática apenas no território nacional, grandes teóricos já discutiam o tema com relevo pelo menos desde a década de 1960. O médico Josué de Castro (1908-1973), o economista Celso Furtado (1920-2004) e o geógrafo Milton Santos (1926-2001), entre outros, ressaltavam sobre o uso desenfreado dos recursos naturais – principalmente dos países mais desenvolvidos nos considerados "subdesenvolvidos", "periféricos" ou do “terceiro mundo” –, que além de ampliar as desigualdades sociais tenderia a produzir um grave desequilíbrio ambiental.

006. Josué, Celso e Milton.gif Imagens: Josué de Castro, Celso Furtado e Milton Santos.

Em “Subdesenvolvimento: causa primeira da poluição” (1972), Josué de Castro demonstrava sua inquietação em relação ao “[...] esbanjamento inconsiderado dos recursos naturais não renováveis e as rupturas biológicas dos subsistemas ecológicos”. Celso Furtado, na obra “O mito do desenvolvimento econômico” (1974) alertava sobre “[...] o caráter predatório do processo de civilização”. Furtado apontava uma questão muito pertinente em nossos tempos: “A evidência à qual não podemos escapar é que em nossa civilização a criação de valor econômico provoca, na grande maioria dos casos, processos irreversíveis de degradação do mundo físico”. E Milton Santos, com “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal” (2000), assinalava o caráter perverso do atual estágio da globalização. “Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção”. E entre os fatores que Milton Santos apontava para que tal situação estivesse em evidencia, estavam “[...] a forma como a informação é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro como motor da vida econômica e social. São duas violências centrais [...] a que estamos assistindo”.

06. Angeli0121.jpg Imagem por Angeli. Certa vez, numa entrevista à TV3 espanhola, Eduardo Galeano falou um pouco a respeito do direito de sonhar, do direito ao delírio, e compartilhou o pensamento de seu amigo Fernando Birri, que erroneamente fora atribuído a ele. Segue o trecho da entrevista: "[...] Vou ler algumas palavrinhas que tem a ver com o direito de sonhar, com o direito ao delírio, a partir de algo que me ocorreu em Cartagena das Índias, há algum tempo, quando eu estava na universidade fazendo uma espécie de palestra com um grande amigo, diretor de cinema argentino, Fernando Birri. E então os meninos, os estudantes, faziam perguntas – às vezes a mim, às vezes a ele. E fizeram a ele a mais difícil de todas: um estudante se levantou e perguntou 'Para que serve a utopia?'. Eu o olhei com dó, pensando 'uau, o que se diz numa hora dessas?', e ele respondeu estupendamente, da melhor maneira. Ele disse que a utopia está no horizonte, e disse 'Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, que se eu caminhar dez passos, ela ficará dez passos mais longe. Quanto mais eu buscar, menos a encontrarei porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo'. Boa pergunta, não? Para que serve a utopia? Pois a utopia serve para isso: caminhar." (via Outras Palavras).

Marcelo Yuka, outro grande artista da música brasileira e ativista político-social, junto com Maurício Pacheco, Garnizé e Jamilson da Silva, na extinta banda F.Ur.T.O., compuseram Verbos à Flor da Pele, ressaltando “a fome que acampa em quilombos ambulantes”.

Toda essa contextualização serve para melhor situar as questões apresentadas na canção Reis do Agronegócio. Um trecho da música resume bem o espírito de nossa época para muitos seres (não apenas os humanos): “Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes, tal como eu vejo com amor a fonte linda – e além do monte o pôr-do-sol porque por sorte, vocês não destruíram o horizonte... Ainda”. E é este o sentimento que temos quando percebemos tantos absurdos acontecerem sem que quase nada – efetivamente – seja feito.

Fiquemos com a reflexão que a música proporciona:

Reis do Agronegócio

"Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio, / Ó produtores de alimento com veneno, / Vocês que aumentam todo ano sua posse, / E que poluem cada palmo de terreno, / E que possuem cada qual um latifúndio, / E que destratam e destroem o ambiente, / De cada mente de vocês olhei no fundo / E vi o quanto cada um, no fundo, mente. / Vocês desterram povaréus ao léu que erram, / E não empregam tanta gente como pregam. / Vocês não matam nem a fome que há na Terra, / Nem alimentam tanto a gente como alegam. / É o pequeno produtor que nos provê e os / Seus deputados não protegem, como dizem: / Outra mentira de vocês, Pinóquiosvéios. / Vocês já viram como tá o seu nariz, hem? / Vocês me dizem que o Brasil não desenvolve / Sem o agrebiz feroz, desenvolvimentista. / Mas até hoje na verdade nunca houve Um desenvolvimento tão destrutivista. / É o que diz aquele que vocês não ouvem, / O cientista, essa voz, a da ciência. / Tampouco a voz da consciência os comove. / Vocês só ouvem algo por conveniência. / Para vocês, que emitem montes de dióxido, / Para vocês, que têm um gênio neurastênico, Pobre tem mais é que comer com agrotóxico, / Povo tem mais é que comer, se tem transgênico. / É o que acha, é o que disse um certo dia / Miss Motosserrainha do Desmatamento. / Já o que acho é que vocês é que deviam Diariamente só comer seu “alimento”. / Vocês se elegem e legislam, feito cínicos, / Em causa própria ou de empresa coligada: / O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos, / Que bancam cada deputado da bancada. Té comunista cai no lobby antiecológico / Do ruralista cujo clã é um grande clube. / Inclui até quem é racista e homofóbico. / Vocês abafam mas tá tudo no YouTube. / Vocês que enxotam o que luta por justiça; / Vocês que oprimem quem produz e que preserva; / Vocês que pilham, assediam e cobiçam / A terra indígena, o quilombo e a reserva; / Vocês que podam e que fodem e que ferram / Quem represente pela frente uma barreira, / Seja o posseiro, o seringueiro ou o sem-terra, / O extrativista, o ambientalista ou a freira; / Vocês que criam, matam cruelmente bois, / Cujas carcaças formam um enorme lixo; / Vocês que exterminam peixes, caracóis, / Sapos e pássaros e abelhas do seu nicho; / E que rebaixam planta, bicho e outros entes, / E acham pobre, preto e índio “tudo” chucro: / Por que dispensam tal desprezo a um vivente? / Por que só prezam e só pensam no seu lucro? / Eu vejo a liberdade dada aos que se põem / Além da lei, na lista do trabalho escravo, / E a anistia concedida aos que destroem / O verde, a vida, sem morrer com um centavo. / Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes, / Tal como eu vejo com amor a fonte linda – / E além do monte o pôr-do-sol porque por sorte / Vocês não destruíram o horizonte... Ainda. / Seu avião derrama a chuva de veneno Na plantação e causa a náusea violenta / E a intoxicação “ne” adultos e pequenos – / Na mãe que contamina o filho que amamenta. / Provoca aborto e suicídio o inseticida, / Mas na mansão o fato não sensibiliza. / Vocês já não ´tão nem aí co´aquelas vidas. / Vejam como é que o Ogrobiz desumaniza...: Desmata Minas, a Amazônia, Mato Grosso...; / Infecta solo, rio, ar, lençol freático; / Consome, mais do que qualquer outro negócio, / Um quatrilhão de litros d´água, o que é dramático. / Por tanto mal, do qual vocês não se redimem; / Por tal excesso que só leva à escassez – / Por essa seca, essa crise, esse crime, / Não há maiores responsáveis que vocês. / Eu vejo o campo de vocês ficar infértil, / Num tempo um tanto longe ainda, mas não muito; E eu vejo a terra de vocês restar estéril, / Num tempo cada vez mais perto, e lhes pergunto: / O que será que os seus filhos acharão de / Vocês diante de um legado tão nefasto, / Vocês que fazem das fazendas hoje um grande / Deserto verde só de soja, cana ou pasto? / Pelos milhares que ontem foram e amanhã serão / mortos pelo grão-negócio de vocês; / Pelos milhares dessas vítimas de câncer, / De fome e sede, e fogo e bala, e de AVCs; / Saibam vocês, que ganham “cum” negócio desse / Muitos milhões, enquanto perdem sua alma, Que eu me alegraria se afinal morresse / Esse sistema que nos causa tanto trauma".

07. Mafalda0121.jpg Mafalda, por Quino.


José Douglas Alves dos Santos

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