desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Sobre o costume de comer carne

Muitos consideram por natural um ato que, na verdade, é cultural. Com base nas palavras de Norbert Elias, Douglas Adams e José Eduardo Agualusa, proponho uma reflexão sobre algo culturalmente tão “natural”: o costume de comer carne.


00. pawel-kuczynky-1.jpg Imagem por Paweł Kuczyńsk.

Muitos consideram por natural um ato que, na verdade, é cultural. Com base nas palavras de Norbert Elias, Douglas Adams e José Eduardo Agualusa, proponho uma reflexão sobre algo culturalmente tão “natural”: o costume de comer carne.

01. Norbert Elias.jpg Norbert Elias. Imagem via Ital Press

Norbert Elias, um dos mais influentes sociólogos contemporâneos, no volume 1 de “O processo civilizador - Uma história dos costumes”, aborda de forma muito interessante o processo cultural e evolutivo do ato de comer carne na Europa medieval. Segundo afirma o autor:

A relação com o consumo de carne oscila no mundo medieval entre os dois pólos seguintes: Por um lado, na classe alta secular o consumo de carne é muito alto, se comparado com o padrão de nossos tempos. Prevalece a tendência de devorar quantidades de carne que nos parecem fantásticas. Por outro, nos mosteiros predomina a abstenção ascética de toda carne, abstenção esta que resulta de auto-renúncia e não de carência [...] (ELIAS, 1994, p. 125).

Ou seja, no período referido, o índice de consumo de carne era bem mais elevado que nos dias atuais. Todavia, há que se destacar que este alto consumo era privilégio das classes mais abastadas, detentoras de maior poder aquisitivo. A classe alta secular esbanjava no ato de comer carne, enquanto nos mosteiros havia uma renúncia voluntária por princípios espirituais. E como ficava a classe baixa?

O consumo de carne pela classe mais baixa, os camponeses, é também com frequência, muito limitado – não por necessidade espiritual ou por renúncia voluntária por causa de Deus ou do além, mas por mera escassez. O gado é caro e, por isso mesmo, destinado durante longo período apenas às mesas dos dominantes. [...] (ELIAS, 1994, p. 125).

Cabe salientar um aspecto bastante revelador da quantidade de carne ingerida por pessoa naquela época. Referindo-se a um cálculo de uma corte alemã no século XVII, “data relativamente recente” como aponta o autor, o consumo era de aproximadamente um quilo por pessoa. Hoje essa quantidade, em nossa cultura, alimenta tranquilamente uma família de cinco ou mais indivíduos por mais de um dia.

Norbert Elias ressalta uma mudança significativa em relação ao costume de comer carne. Trata-se da maneira como a carne era servida na Idade Média. “[...] Na classe alta medieval, o animal morto ou grandes partes do mesmo eram trazidas inteiras para a mesa. [...] (ELIAS, 1994, p. 126). E ali mesmo o animal era trinchado (dividido) entre os presentes, tendo a pessoa de mais alta categoria o privilégio de receber o pedaço de honra – por sinal, o melhor pedaço do animal.

Gradualmente o hábito de trinchar o animal à mesa foi desaparecendo. Norbert Elias aponta muitos fatores que contribuíram para este processo, sendo os principais “[...] a redução gradual do tamanho da unidade familiar [...]” e “[...] a transferência de atividades de produção e processamento, como fiação, tecelagem e abate de animais, da casa para especialistas, artesãos, mercadores e fabricantes, que as desempenham profissionalmente enquanto a família torna-se basicamente uma unidade de consumo” (ELIAS, 1994, p. 127). O sociólogo alemão ainda esclarece que:

Neste caso, também, a tendência psicológica acompanha um processo social mais amplo: hoje causaria repugnância a muitas pessoas se elas ou outras tivessem que trinchar meio novilho ou um porco à mesa ou cortar a carne de um faisão ainda adornado com suas penas (ELIAS, 1994, p. 127).

E continua:

[...] A partir de um padrão de sentimentos segundo o qual a vista e trincho de um animal morto à mesa eram coisas realmente agradáveis, ou pelo menos não-desagradáveis, o desenvolvimento levou a outro padrão pelo qual a lembrança de que o prato de carne tem algo a ver com o sacrifício do animal é evitada a todo custo. Em muitos de nossos pratos de carne, a forma do animal é tão disfarçada e alterada pela arte de sua preparação e trincho que quando a comemos quase não nos lembramos de sua origem (ELIAS, 1994, p. 127-128).

Norbert Elias (1994, p. 128) analisa que “[...] Repetidamente iremos ver como é característico de todo o processo que chamamos de civilização esse movimento de segregação, este ocultamento “para longe da vista” daquilo que se tornou repugnante. [...]”.

02. Imagem 02 - carne.jpg "Voluntária fica nua em um prato gigante com sangue simulado e diferentes guarnições em frente a um mercado de Barcelona (Espanha) para sensibilizar consumidores carnívoros. A performance foi organizada pela AnimaNaturalis, que aponta que a indústria de carne mata mais de 50 bilhões de animais para servir como comida, e grande parte destas mortes ocorrem no Natal". Imagem por Josep Lago/AFP (via UOL)

Depois desta contextualização sobre o costume de comer carne, tendo como referência o sociólogo Norbert Elias, estabelecemos agora uma reflexão por meio de dois autores da literatura: Douglas Adams e José Eduardo Agualusa, em “O guia do mochileiro das galáxias - O restaurante no fim do universo” e “O vendedor de passados”, respectivamente.

03. Douglas-Adams-bw.jpg Douglas Adams. Imagem via Something Geeky

Para quem acompanha ou já acompanhou a saga de Arthur Dent, Ford Prefect, Trillian McMillan e Zaphod Beeblebrox em busca do segredo da Vida, do Universo e Tudo Mais, sabe que quando os personagens chegam ao Restaurante no Fim do Universo, algo de muito excêntrico acontece antes de sua refeição:

Um imenso animal leiteiro aproximou-se da mesa de Zaphod Beeblebrox. Era um enorme e gordo quadrúpede do tipo bovino, com grandes olhos protuberantes, chifres pequenos e um sorriso nos lábios que era quase simpático.

– Boa noite – abaixou-se e sentou-se pesadamente sobre suas ancas –, sou o Prato do Dia. Posso sugerir-lhes algumas partes do meu corpo? – Grunhiu um pouco, remexeu seus quartos traseiros buscando uma posição mais confortável e olhou pacificamente para eles. Seu olhar se deparou com olhares de total perplexidade de Arthur e Trillian, uma certa indiferença de Fort Prefect e a fome desesperada de Zaphod Beeblebrox. – Alguma parte do ombro, talvez? – sugeriu o animal. – um guisado com molho de vinho branco? – Ahn, do seu ombro? – disse Arthur, sussurrando horrorizado. – Naturalmente que é do meu ombro, senhor – mugiu o animal, satisfeito –, só tenho o meu para oferecer. [...] – Qual é o problema, terráqueo? – disse Zaphod, que agora observava atentamente o enorme traseiro do animal. – Eu simplesmente não quero comer um animal que está na minha frente se oferecendo para ser morto – disse Arthur. – É cruel! – Melhor do que comer um animal que não deseja ser comido – disse Zaphod. – Não é esta a questão – protestou Arthur. Depois pensou um pouco mais a respeito. – Está bem – disse –, talvez essa seja a questão. Não me importa, não vou pensar nisso agora. Eu só... ahn... (ADAMS, 2010, p. 84-85).

Aqui nós temos uma imagem do trincho da carne verificada anteriormente com Norbert Elias – mas dessa vez, o processo é orientado pelo próprio animal – e temos a repugnância pelo ato de ver o animal ali presente – e ainda vivo! – também apresentado pelo sociólogo alemão.

04. jose-eduardo-agualusa235.jpg José Eduardo Agualusa

Já José Eduardo Agualusa, em sua obra “O Vendedor de Passados”, traz uma reflexão semelhante ao que nos foi apresentada por Douglas Adams. Em uma conversa entre dois personagens da obra, o autor nos confronta com uma ideia simples, porém pouco discutida:

– Um exercício interessante – disse, – é tentar ver os factos através do olhar da vítima. Por exemplo, o peixe que estamos a comer... generoso pargo, não é?... Já tentou ver este nosso jantar na perspectiva dele? Félix Ventura olhou para o pargo com uma atenção que até ao momento o pobre peixe lhe não merecera; depois, horrorizado, afastou o prato. O outro prosseguiu sozinho: – Julga que a vida nos pede compaixão? Não creio. O que a vida nos pede é que a festejemos. Voltemos ao pargo. Se fosse este pargo preferia que eu o comesse com desgosto ou com alegria? (AGUALUSA, 2011, p. 39-40).

Assim como percebemos nas palavras de Norbert Elias em “O processo civilizador” e no trecho de “O guia do mochileiro das galáxias” de Douglas Adams, aqui há o ato da repugnância se faz presente quando o personagem se confronta com o que o outro lhe disse: “Já tentou ver este nosso jantar na perspectiva dele?”. Exercício difícil de se fazer... Se fosse você o pargo, o que iria preferir? Que o comessem com desgosto ou com alegria? Provavelmente, que não o comessem.

05. goVegetarian - Copia.jpg Imagem por Andy Singer.

Enfim, estas palavras são apenas uma breve reflexão sobre o como a cultura impregnada na sociedade mais ampla se reflete no pensamento e no comportamento dos indivíduos.

Referências:

ADAMS, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias (Vol. 2 - O restaurante no fim do universo). Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

AGUALUSA, José Eduardo. O vendedor de passados. Rio de Janeiro: Gryphus, 2011.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador (Vol. 1 - Uma história dos costumes). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.


J. Douglas Alves

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