desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Ambivalência

Ontem foram as cores; amanhã podem ser os aromas; em seguida podem ser os sabores; e assim por diante... Os estigmas sociais ainda parecem prevalecer quando o assunto é quebra de paradigmas. De qualquer forma, mais um muro derrubado, mais uma fronteira atravessada.


00. ifive_wall_color-1920x1200.jpg Imagem via HD Wall Pappers

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman: “A “rede” de relações humanas (rede: o jogo interminável da conexão e desconexão) é hoje o centro da mais angustiante ambivalência” (2009, p. 171). Podemos perceber isso com nitidez quando algum assunto “polêmico” está em voga – ou, para usar uma expressão tão difundida nos últimos dias pelas redes sociais: quando o assunto está em moda.

Recentemente o assunto da vez foi a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Rapidamente – naquilo que também pode ser considerada uma grande jogada de marketing – o facebook criou um aplicativo onde o usuário podia modificar sua imagem de perfil, deixando ela com cores sobrepostas à imagem.

02. Mark Zuckerberg - mark-zuckerberg-diretor-executivo-do-facebook-mudou-a-foto-de-seu-perfil-com-a-aprovacao-do-casamento-gay-nos-estados-unidos-1435340972197_615x470.jpg “Mark Zuckerberg, diretor-executivo do Facebook, mudou a foto de seu perfil com a aprovação do casamento gay nos EUA”. Imagem via UOL

Ao mesmo tempo em que muitos comemoravam, celebravam ou apenas aderiam à causa, modificando sua imagem de perfil, outros – também muitos, é bom salientar – começaram a rechaçar tal atitude, vendo-a talvez como uma ameaça aos seus valores morais e crenças historicamente estabelecidas.

Estes indivíduos “incomodados” começaram a procurar argumentos para justificar o “erro” ou a desnecessária atitude dos outros. Deu-se início a “caça às bruxas” para alguns e simplesmente “perda de tempo” para todos. Como bem já escreveu Eduardo Marinho (2011, p. 33): “quando, na procura, há uma vontade enorme de encontrar, acabamos achando onde não há”.

03. Lei de deus.jpg Imagem via Facebook. Acompanhada da seguinte descrição: “Sem relativismo. Sim é sim, não é não! As leis do Estado e dos "homens", não mudam as Leis de Deus.”

Esta última imagem difunde os ideais da cultura cristã mais conservadora, sendo uma das que foram compartilhadas no facebook em oposição ao ocorrido. Para reflexão, transcrevo abaixo um texto do escritor Rubem Alves, na qual ele relata sobre a leitura ao “pé da letra” que muitos fiéis fazem e difundem sobre as escrituras sagradas.

Consultório bíblico

Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. Ela tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22. Um ouvinte escreveu-lhe então uma carta que vou transcrever:

Querida dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito do seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida, eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final... Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

Gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?

Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Lev. 18:19, 20:18, etc.). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.

Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?

Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixa de cumprir com a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ela passa o dia proferindo blasfêmias e maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja, o de queimá-los numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14). Sei que a senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável.” (em Ostra Feliz Não Faz Pérola, 2008, p. 214-215).

04. imagem fome.jpg Imagem via Facebook

Outra imagem que ganhou destaque foi a que trata de um assunto também bastante sério e, infelizmente, ainda presente em boa parte de nossa sociedade. Trata-se de uma imagem registrada por Kevin Carter, em 1993, no Sudão, de uma menina esquálida. Na época, a cena trouxe de volta a discussão sobre a questão da “neutralidade” e “objetividade” perante a realidade à sua volta ao empreender uma pesquisa ou interferência científica/profissional.

Esta discussão não vem ao caso agora, porém foi triste notar que um número considerável de pessoas fez uso desta imagem – mesmo que nem todos com a mesma intenção – simplesmente para atingir certas causas e grupos sociais, ou no caso referido, certas minorias – “minorias, pelo amor de Deus! Você sabe por que são chamadas de “minorias”? Porque elas não têm o poder” (MOORE, 2011, p. 36). Reconheço que alguns estejam apenas interessados em dizer: “Olhe, a luta não acabou, ainda há muito a ser feito”, no entanto, trazer tal cena à tona neste contexto, não foi uma decisão das mais felizes. Me fez recordar as palavras de Bauman (2014, p. 45), quando este avalia que “As memórias podem servir ao mal de modo tão intenso e eficaz quanto gostaríamos que servissem à causa do aperfeiçoamento e do aprendizado a partir dos erros”.

05. Latuff - intolerância religiosa.jpg Imagem por Latuff. “Eu acredito e respeito as crenças de todo o mundo, mas gostaria que as crenças de todo o mundo fossem capazes de respeitar as crenças de todo o mundo.” (José Saramago)

“Não nos enganemos: a imagem que fazemos de outros povos, e de nós mesmos, está associada à História que nos ensinaram quando éramos crianças”, nos esclarece Marc Ferro (1983, p. 11), historiador francês. Essa história nos é ensinada no ambiente familiar, na escola e em outros espaços de formação, como, por exemplo, a igreja – que, ao longo de boa parte da história da humanidade, esteve “aliada” ao Estado e ao seu poder, ambas em prol de seus próprios interesses.

Quando pensamos em tais reações dos seres humanos diante dos fatos ocorridos recentemente – como o processo eleitoral no Brasil e na Grécia, os atentados terroristas na França, na Nigéria e em Gaza, a situação dos imigrantes na Europa, o caso de corrupção da Petrobras, a violência da polícia à população das favelas no Rio de Janeiro ou à população negra nos Estados Unidos, entre tantos outros que poderiam ser citados – percebemos que “as formas assumidas pelas reações humanas tendem a ser culturalmente induzidas, e não determinadas por instintos inatos e portanto imunes aos caprichos das normas culturais” (BAUMAN, 2009, p. 146). E é nestas situações que a história aprendida durante as infâncias de cada um, juntamente com os conhecimentos sistematicamente elaborados e transmitidos pela escola – constantemente repetidos como o certo pela mídia hegemônica e outros espaços de informação –, se manifesta com mais ênfase e ardor.

06. eduardo-marinho01536.JPG Imagem por Eduardo Marinho “É um fato importante, e conhecido por todos nós, que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no planeta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa – a roda, Nova York, as guerras, etc. –, enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos” (Douglas Adams, em O guia do mochileiro das galáxias, 2010, p. 116).

“As pessoas – comentou o pequeno príncipe – embarcam nos trens, mas não sabem o que procuram. Por isso se estressam e ficam perdidas... E acrescentou: – E isso não leva a nada” (Antoine de Saint-Exupéry, 2015, p. 110).

O Pequeno Príncipe, muito sabiamente afirmava: “Os adultos são decididamente imprevisíveis” (SAINT-EXUPÉRY, 2015, p. 67). E são mesmo! Na verdade, a vida é imprevisível. Nada está sob nosso controle, mesmo que tenhamos a impressão de ter controle sobre tudo. Uma simples faísca pode iniciar um incêndio, bem como “o simples bater de asas de uma borboleta pode provocar um tufão do outro lado do mundo”. Em “O guia do mochileiro das galáxias”, Douglas Adams registrou que “uma coisa básica que não se pode entender é a dimensão das coisas” (ADAMS, 2010, p. 58). Certo e errado, maior e menor, mais ou menos... A depender do ângulo de visão do observador, tudo pode ter um valor relativo.

“Pensar é um ato. Sentir é um fato”, revelou Clarice Lispector (1998, p. 11). Ela também nos recordou que “até no capim vagabundo há desejo de sol” (LISPECTOR, 1998, p. 28). Procuramos o sol porque acreditamos que o sol é para todos. Estamos todos na mesma direção. Podemos seguir juntos, ou podemos seguir separados. Cabe a cada um decidir qual a melhor maneira de chegar lá.

07. População Colorida(E. Marinho).jpg Imagem por Eduardo Marinho

Como observa Eduardo Marinho (2011, p. 105): “Somos o mesmo grupo, uma humanidade, dentro de um universo mal conhecido, em constante evolução, e essa idéia começa a sair do campo da abstração e vindo à realidade”. E ele ainda enfatiza algo muito relevante: “Mas é preciso estar atento, o sentimento de superioridade é insinuante, adaptável, facilmente “justificável”, além de extremamente estimulado em nossa sociedade de consumo e competição, com infinitas variações, do grotesco ao quase imperceptível, da arrogância grosseira à benevolência atenciosa” (p. 104).

Ambivalências sempre vão existir. E não é ruim que existam, pelo contrário! Os conflitos são necessários à vida humana. Cada um pensa e sente à sua maneira. O consenso geral facilmente pode incidir em regimes totalitários. Há mais benefícios em se ter divergências, ideias contrárias e posições opostas do que se pode imaginar – desde que estejamos abertos ao diálogo. Com pensamentos diferentes planejamos melhor nossos caminhos e conseguimos ter uma viagem mais segura, agradável e divertida. Precisamos ter cuidado para que as diferenças não se traduzam em intolerância, em desrespeito com o próximo. Paciência para aprender; humildade para compreender; e sabedoria para compartilhar.

08. colorful_world_hd_-wallpaper-960x600.jpg Imagem via Wall Pappers Wide

Se a vida, como bem descreveu Lina María Murillo, de 10 anos de idade, é “O que se toma e se perde a cada dia na terra” (NARANJO, 2013, p. 123), eu espero estar tomando aquilo que traga frutos para mim e para aqueles que dividem comigo este pequeno território em meio à imensidão do universo. Por isso, sou mais adepto à poesia, pois os poetas costumam falar dos mistérios da Vida, do Universo e Tudo Mais sem a preocupação da cor da roupa ou do cabelo de quem vai ler suas palavras. Se o leitor ou a leitora tem dente ou se não tem, se é de Áries ou de Touro, se fala quatro línguas ou uma só, se é doutor ou paciente, se é cristão ou ateu, se é Flamengo ou vasco, de que isso importa, afinal? Na poesia tudo cabe... E cabem todos!

POEMA Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios. (em Tratado geral das grandezas do ínfimo, 2013, p. 19)

Engenheiros do Hawaii - Ninguém = Ninguém

Há tantos quadros na parede Há tantas formas de se ver o mesmo quadro Há palavras que nunca são ditas Há muitas vozes repetindo a mesma frase: (ninguém = ninguém) Me espanta que tanta gente minta (descaradamente) a mesma mentira

Referências

ADAMS, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

_______. O guia do mochileiro das galáxias – O restaurante no fim do universo. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.

BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ínfimo. São Paulo: LeYa, 2013.

BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

BAUMAN, Zygmunt; DONSKIS, Leonidas. Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

FERRO, Marc. A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação. São Paulo: IBRASA, 1983.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

MARINHO, Eduardo. Crônicas e ponto de vista. Rio de Janeiro: Navilouca Livros, 2011.

MOORE, Michael. Adoro problemas: histórias da minha vida. São Paulo: Lua de Papel, 2011.

NARANJO, Javier. Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças. Rio de Janeiro: Foz, 2013.

SANT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. São Paulo: Geração Editorial, 2015.


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //J. Douglas Alves