desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

NOTAS DO COTIDIANO [01]

Não há escola melhor para se formar do que a do cotidiano. Tanto para o bem, como para o mal. Prestando atenção no que acontece ao nosso redor podemos ter uma visão panorâmica de nossa sociedade e de seu funcionamento. Em “Notas do cotidiano” pretendo fazer reflexões acerca de acontecimentos diários, que às vezes passam despercebidos por muitos de nós.


00. procura-da-felicidade02.jpg Imagem da cena do filme “À Procura da Felicidade” (The Pursuit of Happyness, 2006, de Gabriele Muccino).

Eis algumas das questões que serão abordadas a seguir, por meio da observação cotidiana do que acontece à nossa volta: a presidente Dilma e os constantes comentários dos analistas de plantão sobre política; um palhaço entra no ônibus e ao invés de fazer as pessoas rirem, faz um discurso carregado de preconceito; ponto de vista, quando um novo ângulo nos traz uma perspectiva diferente de determinada situação; e a distância entre teoria e prática quando um cadeirante tenta pegar o ônibus em horário de pico.

Sobre Dilma Rousseff 01. o-DILMA-ROUSSEFF-facebook.jpg Imagem via Morillo Carvalho

Estava no terminal, aguardando o ônibus, e então três mulheres, todas por volta de seus 40 anos de idade, chegaram conversando sobre a Petrobras e sobre “política”. Elas falavam num tom de voz elevado, demonstrando raiva nas palavras e nas expressões faciais. Uma então resumiu bem a conversa: “É tudo culpa da Dilma, aquela nojenta, sapatão, traficante da rocinha!”.

Ok. Caro(a) leitor(a), na frase em questão, quantos preconceitos você consegue identificar? Mulher, lésbica, favelada... Eu me pergunto: o que leva alguém a chamar outra pessoa de “nojenta”? O termo é um tanto grosseiro e evidencia uma raiva preocupante. Há uma raiva que é benéfica, quando faz a pessoa agir para além daquilo que está acostumado a fazer; por outro lado, há uma raiva que se transmuta em intolerância, e que é muito prejudicial. Por conta de “verdades” ou “crenças” pessoas matam e morrem. E ainda tem muita gente querendo a volta do regime militar, mesmo com um pequeno exemplo demonstrado pelo governo paranaense ao ordenar que os policiais avançassem em cima dos professores...

Sobre um palhaço fajuto 02. Krusty-the-clown-1600-1200.jpg Krusty, personagem da série Os Simpsons. Via Play Buzz

Nós descobrimos a autenticidade de um palhaço quando este nos faz rir – desde que não seja com piadas que carregam estereótipos que reproduzem preconceitos historicamente estabelecidos. Dentro do ônibus, a caminho da universidade, o veículo para e entra um cara fantasiado de palhaço, que dizia trabalhar em um projeto de algum hospital, supostamente ajudando crianças. Quando olhei a figura, fiquei pensando: “É sério que esse cara disse mesmo que ‘ajuda’ as crianças? Com essa fantasia e essa maquiagem, o mínimo que ele deve conseguir é assustá-las”. E era horripilante mesmo. Não passava por minha cabeça que alguém conseguiria rir olhando para ele. Todavia, o pior estava por vir. Depois de pedir dinheiro aos passageiros para o tal projeto, antes de sair, ele se virou para os passageiros e disse, em alto e bom som: “Mulher de verdade é aquela que tá em casa e quando o marido chega do trabalho a comida já tá lá pronta na mesa. Hoje não tem mais isso, que as mulheres hoje conhece o cara e já vai pro motel. É assim que tá as coisas. Vejam mulheres, não façam isso. Namoro é pra conhecer, noivar é uma preparação e casamento hoje em dia ninguém quer mais”.

Fiquei esperando as mulheres no ônibus avançarem em cima dele num ato de rebeldia. Não aconteceu – até por que, muitas vezes, devido às repressões da vida, as mulheres costumam ser mais pacíficas que os homens. Fiquei esperando pelo menos alguma delas levantar a voz, apertar o botão F5 do tal palhaço e atualizá-lo sobre o mundo e as lutas das mulheres. Também não aconteceu. Quem sabe um “Vá se danar, seu palhaço escroto!”. Tampouco. Enfim, o recado foi dado, ouvido e não respondido. Não ali, mas todos os dias mais e mais mulheres respondem à altura não apenas aos homens, mas também à religião, à política, à sociedade e à cultura que ainda reproduzem uma imagem de mulher imaculada, silenciada e dominada.

Sobre ponto de vista 03. lustres 0IMG_2354.JPG Imagem via Loja Ilustre

Duas mulheres estavam conversando, sentadas num ônibus público, no banco em frente ao que eu me encontrava. Conversavam sobre o trabalho – eram trabalhadoras domésticas, falavam a respeito de seus afazeres diários. Em determinado momento, o veículo passou diante de uma loja que vende luminárias, dessas mais sofisticadas – ou para melhor me expressar: mais caras! –, que vende dos mais variados tamanhos e formatos de lustres. Uma, olhando impressionada, disse: “Olha só, menina, que bonitas! Já pensou como deve ficar bonita assim numa casa?”. A outra nem hesitou, já foi logo respondendo: “E você já imaginou o trabalho que num dá limpar uma coisa daquelas?”. Olharam-se entre si, e não foi preciso nenhuma palavra para perceber que ambas concordavam.

Sobre os direitos iguais 04. acessibilidade-bus.jpg “A dura rotina de portadores de deficiência que precisam de ônibus em Santo André [e boa parte do país]. Quantidade de veículos adaptados é insuficiente e os ônibus que possuem elevadores apresentam defeitos”. Imagem e texto por Adamo Bazani.

Mais uma no ônibus. Dessa vez foi o próprio funcionário da empresa de transporte público – não sei se era um cobrador ou motorista, ele não estava em serviço no momento, mas vestia o uniforme. O veículo parou no terminal e ele entrou. Logo que o ônibus saiu do terminal, foi falando pro seu colega de trabalho, cobrador: “O ônibus lotado parado no terminal, porque um cadeirante quer entrar. Já pensou? Ele que espere outro ônibus e não atrapalhe a vida dos outros!”.

A situação foi a seguinte: o ônibus estava saindo do terminal em horário de pico, por volta das 18 horas. Nesse horário, o número de passageiros é significativo – entrar nos veículos é quase uma epopeia. Só que, no caso descrito pelo funcionário da empresa, o ônibus já estava lotado e não saia do terminal porque tinha um cadeirante querendo entrar nele – cabe dizer que o episódio ocorreu na cidade de Aracaju/SE, onde não há a prática daqueles que aguardam o veículo de fazer fila para entrar; quando o ônibus chega, muitas vezes, é o famoso "salve-se quem puder!". Possivelmente, o cobrador ou o motorista (ou ambos) resolveram que só sairiam quando o cadeirante embarcasse, já que era um direito dele. Entretanto, para o funcionário que preferiu pegar outro ônibus e para tantos outros seres humanos, os cadeirantes e demais deficientes físicos são apenas um atraso na sociedade. “Ele que espere outro ônibus e não atrapalhe a vida dos outros!”. Eu imagino se este sujeito cadeirante também não pretendia chegar ao trabalho, na universidade, em casa ou onde quer que ele quisesse ou precisasse ir, no seu devido horário. Mas tudo bem, ele que espere outro ônibus. Eis um dos piores reflexos de uma sociedade – intencionalmente! – mal educada, onde a ignorância e o desrespeito tornam-se tão evidentes. Direitos iguais. Está escrito. Muitos até falam. Praticar que é bom...

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Estas foram as primeiras observações postadas com o título “Notas do Cotidiano”. Em breve, novas considerações sobre episódios do dia a dia serão publicadas por aqui. Termino com a canção "Baader-Meinhof Blues", da banda Legião Urbana:

(Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá).

A violência é tão fascinante E nossas vidas são tão normais E você passa de noite e sempre vê Apartamentos acesos Tudo parece ser tão real Mas você viu esse filme também [...] Essa justiça desafinada É tão humana e tão errada Nós assistimos televisão também Qual é a diferença?


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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