desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

A ÁGUA NO MUNDO: QUESTÕES E DESAFIOS

Segundo dados da NASA e da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) dos EUA, o ano de 2014 foi o mais quente da história, desde que os registros começaram, em 1880. Com base em casos recentes, este estudo reflete sobre a seca e a falta de água no cenário mundial.


00. Myanmar - (Soe Zeya Tun-Reuters).jpg "Migrants, who were found at sea on a boat, collect rainwater during a heavy rain fall at a temporary refuge camp near the Kanyin Chaung jetty and outside Maungdaw township in the Rakhine state of Burma on June 4, 2015". (Soe Zeya Tun/Reuters). “Migrantes, que foram encontrados no mar em um barco, coletam água durante a queda de uma forte chuva em um campo de refúgio temporário, no estado de Rakhine, em Mianmar”.

A imagem acima que mostra migrantes do sul da Ásia coletando água da chuva em um campo de refúgio temporário, retrata muito bem uma cena que já acontece em muitos países no mundo e que pode ser cada vez mais recorrente: o desespero em se obter água – seja ela da chuva ou de qualquer outra fonte. Se esta cena tivesse ocorrido em Oregon, nos Estados Unidos, os envolvidos poderiam estar sujeitos a severas punições, como aconteceu com Gary Harrington, ao contravir uma lei criada em 1925 “que entrega à comissão regional de gerenciamento hídrico o total controle sobre esse recurso". “De acordo com as leis de Oregon, toda água é de propriedade pública. Portanto, qualquer pessoa que queira armazenar qualquer tipo de água em sua propriedade deve primeiro obter uma autorização de gestores de recursos hídricos do Estado”.

01. Foto - AP2.jpg Imagem: AP.

Um levantamento global realizado pela Unicef e pela World Health Organization (WHO) demonstra que “Uma em cada três pessoas no mundo – cerca de 2,4 bilhões de indivíduos – ainda não têm acesso a serviços de saneamento básico e água potável”. O Papa Francisco, em junho deste ano, ao divulgar a encíclica do meio ambiente, alertou sobre a questão do controle da água por parte das grandes corporações. “Em um dos trechos do documento ele escreveu que ‘é previsível que o controle da água por parte de grandes empresas mundiais se converta em uma das principais fontes de conflitos deste século’”. “Nenhuma questão hoje é mais importante do que a da água. Dela depende a sobrevivência de toda a cadeia da vida e, consequentemente, de nosso próprio futuro. Ela pode ser motivo de guerra como de solidariedade social e cooperação entre os povos”, pondera Leonardo Boff.

02. 995821_667004289992141_1884684368_n.jpg Imagem via Prg Leidson 44

Ano passado, províncias do Norte e Leste do Sri Lanka passaram por um período de seca que “afetou 1,6 milhão de pessoas”. O estado de São Paulo, um dos maiores centros metropolitanos do mundo, conviveu com uma grave crise por falta de água. O nordeste da China sofreu “a pior seca em mais de 60 anos”. Pela primeira vez em sua história, A nascente do rio São Francisco, localizada dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais, secou.

03. Rio São Francisco3.gif Ilustração do Rio São Francisco na primeira metade do século XIX. Via: Marcus Mazzari (2010).

04. Velho Chico3.jpg Imagem do Rio São Francisco na primeira metade do século XXI (via Imaculada Maria)

Sobre o Velho Chico, cabe destacar que “A mudança provocada pelo homem tanto nas águas quanto na vegetação que o circunda foi drástica e rápida. Tendo como base documentos históricos disponíveis, entre eles ilustrações de expedições de naturalistas importantes, como as do alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, é possível ver a exuberância do passado. Um desenho feito há 195 anos mostra os especialistas da época deslumbrados com árvores de grande porte, lagoas temporárias, pássaros em abundância. Ou seja, uma enorme biodiversidade, que hoje não existe mais. Menos de dois séculos depois, restam apenas 4% da vegetação das margens do Rio São Francisco. Desprovidas de cobertura verde, elas sofrem mais com a erosão, que assoreia o rio em ritmo acelerado. Os solos apresentam altos índices de salinização e os açudes ficam com a água salobra. Aumentam as áreas de desertificação. O Velho Chico está praticamente inviável como hidrovia. Espécies foram extintas e ecossistemas estão profundamente alterados. As agressões ao Velho Chico são históricas. O rio serviu com via de ocupação da região. Ricos e pobres usam os recursos naturais como se fossem infinitos. Entre Petrolina e Juazeiro, casas que valem cerca de R$ 500 mil contam com equipamentos sofisticados, segurança de primeiro padrão e móveis caríssimos, mas a estrutura sanitária é arcaica, contamina o lençol freático e o rio. Lanchas e motos náuticas geram ruído e afugentam peixes. Quase não se vê reaproveitamento de água ou o uso de fontes energéticas renováveis".

Em 2012, Eduardo Febbro enfatizava que a guerra da água era silenciosa e já estava em curso. “A guerra da água é silenciosa, mas existe: conflito em Barcelona causado pelo aumento das tarifas, quase guerra na Patagônia chilena por causa da construção de enormes represas e da privatização de sistemas fluviais inteiros, antagonismos em Barcelona e em muitos países africanos pelas tarifas abusivas aplicadas pelas multinacionais”, entre outros. Segundo Febbro, "um bilhão de seres humanos não tem acesso à água potável e cerca de três bilhões de seres humanos carecem de banheiro. O tema da água é estratégico e tem repercussões humanas muito profundas. Os especialistas calculam que, entre 1950 e 2025 ocorrerá uma diminuição de 71% nas reservas mundiais de água por habitante: 18 mil metros cúbicos em 1950 e 4.800 metros cúbicos em 2025. Cerca de 2.500 pessoas morrem por dia por não dispor de um acesso adequado à água potável. A metade delas é de crianças. Comparativamente, 100% da população de Nova York recebe água potável em suas casas. A porcentagem cai para 44% nos países em via de desenvolvimento e despenca para 16% na África Subsaariana".

05. Tão perto, tão longe - via Leituras de nossa vida.jpg “Menina – Ann Nyjeri – aguarda vendedores de água abrirem o cadeado da torneira, em Nairobi, capital do Quênia (2003)”. Imagem: AFP Photo/Marco Longari. A foto inspirou o britânico Duncan Goose a criar a Fundação One, uma instituição cuja renda de seus produtos é destinada a programas em países que sofrem com graves problemas socioeconômicos.

No Brasil, o Relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) apontou que no país houve, em 2014, “o maior número de conflitos por água desde que o levantamento sobre o tema foi iniciado, em 2005”, sendo o Norte e Nordeste “as regiões mais afetadas por esses conflitos”. Ano passado, no Brasil, com a grave seca do sistema Cantareira, “maior reservatório de água da região metropolitana de São Paulo”, o tema ganhou relevo, pois não se tratava somente de um problema no Nordeste ou no Norte do país: atingiu a cidade mais populosa do continente americano. Este fato permitiu uma nova reflexão sobre um problema que, até então, parecia distante – reservado aos nordestinos ou aos sul-africanos, por exemplo –, despertando novas “discussões sobre mudanças climáticas, consumo, investimentos e alternativas de abastecimento”.

No período da crise em São Paulo, a BBC “identificou seis cidades que tentam solucionar suas crises de abastecimento”. Entre as soluções encontradas nestas cidades estavam: a transposição de água em Pequim, na China; a dessalinização da água coletada no Oceano Índico, em Perth, na Austrália; a proteção dos mananciais, em Nova York, nos Estados Unidos; “uma ampla campanha de conscientização em escolas, espaços públicos e imprensa pelo uso eficiente da água e o estabelecimento de metas de redução de consumo”, na cidade de Zaragoza, na Espanha; perfuração de poços em busca de novos aquíferos na Cidade do México, no México; e “a reforma de encanamentos ruins e a redução da pressão da água fornecida ao bairro [...] aliada a uma campanha de conscientização para evitar desperdícios”, na Cidade do Cabo, na África do Sul.

Recentemente, brasileiros inventaram “a primeira água gourmet do planeta, captada a partir da umidade do ar da Amazônia”. Júnior Borneli descreve que “A ideia de fazer água do ar surgiu há cinco anos. Para as pesquisas e o desenvolvimento da tecnologia AWG (Atmosferic Water Generator) os brasileiros criaram a A2BR (Águas do Ar do Brasil). ‘O funcionamento é simples, semelhante ao do ar-condicionado’, diz o ambientalista Cal Júnior, um dos sócios e idealizadores do empreendimento [...]. Nesse processo, o ar passa por um filtro de ar e de luz ultravioleta germicida, que remove poeira, polens, fungos, bactérias e partículas. Depois a umidade do ar é condensada numa serpentina de resfriamento e coletada num tanque com luz ultravioleta, passa por um filtro de carbono e novamente pela luz germinicida, e está pronta. As máquinas que extraem a água da umidade do ar foram desenvolvidas em parceria com a China, pela Hendrx”. Cabe dizer que esta não é uma medida que visa solucionar o problema da falta de água; seu foco está na obtenção de lucro, levando em conta o fato de que cada garrafa da água custará entre 6,50 a 9,50 euros. “A produção será exportada para 20 cidades de 12 países europeus e oferecida apenas em resorts, hotéis e cafés de luxo. No Brasil poderá ser saboreada, a partir do ano que vem, no SPA que a marca está construindo sobre o Rio Negro, com dez bangalôs flutuante, e na Brasil Flagship, que será inaugurada na capital paulista”. Muito provavelmente será a garrafa de água mais cara do planeta, considerando o preço médio delas em diferentes países, mesmo em ambientes de consumo para turistas.

06. Cau Gomez - agua00018.jpg Imagem por Cau Gomez

Sobre a água enquanto fonte de lucro, Leonardo Boff, faz a seguinte avaliação: “Consideremos rapidamente os dados básicos sobre a água no planeta Terra: ela já existe há 500 milhões de anos; 97,5% das águas dos mares e dos oceanos são salgadas. Somente 2,5% são doces. Mais de 2/3 dessas águas doces encontram-se nas calotas polares e geleiras e no cume das montanhas (68,9%); quase todo o restante (29,9%) são águas subterrâneas. Sobram 0,9% nos pântanos e apenas 0,3% nos rios e lagos. Destes 0,3%, 70% se destina à irrigação na agricultura, 20% à indústria e restam apenas 10% destes 0,3% para uso humano e dessedentação dos animais. Uma grande especialista em água que trabalha nos organismos da ONU sobre o tema, a canadense Maude Barlow, afirma em seu livro “Água: pacto azul (2009): “A população global triplicou no século XX mas o consumo da água aumentou sete vezes. Em 2050 quando teremos 3 bilhões de pessoas a mais, necessitaremos de 80% a mais de água somente para o uso humano; e não sabemos de onde ela virá”(17). Esse cenário é dramático, pois coloca claramente em xeque a sobrevivência da espécie humana e de grande parte dos seres vivos. Há uma corrida mundial para privatização da água. Aí surgem grandes empresas multinacionais como as francesas Vivendi e Suez-Lyonnaise a alemã RWE, a inglesa Thames Water e a americana Bechtel. Criou-se um mercado das águas que envolve mais de 100 bilhões de dólares. Aí estão fortemente presentes na comercialização de água mineral a Nestlé e a Coca-Cola que estão buscando comprar fontes de água por toda a parte no mundo, inclusive no Brasil. [...] O grande debate hoje se trava nestes termos: A água é fonte de vida ou fonte de lucro? A água é um bem natural, vital, comum e insubstituível ou um bem econômico a ser tratado como recurso hídrico e posto à venda no mercado?”.

07. Cau Gomez - agua3.jpg Imagem por Cau Gomez.

Roberto Malvezzi destaca aspectos das secas urbanas, cada vez mais constantes, ao refletir sobre os reservatórios de água doce que abastecem São Paulo e seu grande entorno, que chegaram ao seu menor nível dos últimos 80 anos; sobre a escassez de água devido à baixa pluviosidade, em Los Angeles, sendo a maior dos últimos 100 anos; e no Nordeste brasileiro ele enfatiza as consequências ocorridas depois da pior estiagem dos últimos 50 anos. “A novidade é que essas estiagens – há um debate global se já são agravadas pelas mudanças climáticas – agora não impactam apenas o meio rural, mas o meio urbano. Nessas concentrações estão dezenas de milhões de pessoas dependentes da água que sai das torneiras. Fomos deseducados nos últimos anos a achar que água vem das paredes de nossas casas”. Malvezzi recorda que “O problema vem de longe e as advertências também. Já na Campanha da Fraternidade da Água, em 2004, sabíamos que um paulistano tem em média menos água que um nordestino. Isso mesmo. Devido à alta concentração urbana, para todos os fins, cada paulistano tem em média pouco mais de 200 m3 de água ao ano, enquanto, no Piauí – embora imobilizados no lençol freático do Gurguéia –, cada piauiense tem em média nove mil m3 de água por ano. O acesso é outra questão”.

08. Imagem por Alecus - o sertão vai virar mar - alecus.jpg Imagem por Alecus.

A humanidade não quer aprender com suas tragédias. A da água é uma das mais visíveis há décadas e prosseguimos como se ela não existisse. Contudo, teremos que aprender a lidar diferentemente com a água, seja por bem, ou por tragédias socioambientais anunciadas”, prenuncia Roberto Malvezzi. Em 2012, o documentário “A Thirsty World” (La soif du monde, 2012), filmado em cerca de 20 países, apresentou “a jornada do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand por diversas situações que mostram o cuidado cada vez mais essencial que o mundo como um todo deve ter com a água”. O filme, disponível no Netflix Brasil, “se destaca ao mostrar como vivem milhões de pessoas no mundo que não tem acesso à água, como também em discutir o uso da chamada “água virtual”, que é gasta na produção de alimentos e diversos itens de consumo do nosso dia-a-dia”.

Outra produção que chamou a atenção de muitos telespectadores ao redor do mundo ao trazer reflexões sobre a problemática da água foi o documentário “Ouro Azul - A Guerra Mundial pela Água” (Blue Gold: World Water Wars, 2008), Inspirado no livro "Ouro Azul", de Maude Barlow e Tony Clarke.

Ouro Azul - A Guerra Mundial pela Água

09. Mar de aral.jpg Mar de Aral

O ano de 2014 marcou o cenário mundial de forma trágica, quando cientistas e pesquisadores detectaram a dissipação do quarto maior lago do mundo, conhecido como o “Mar de Aral". Martim Vicente relata que “Pela primeira vez em seis séculos, a bacia oriental do Mar de Aral secou, por completo. Mesmo que seu nome inclua a palavra “mar”, na verdade é um tipo de “lago salgado”, situado na Ásia Central, no limite com Cazaquistão ao norte e com o Uzbequistão ao sul. Já chegou a ser considerado o quarto maior lago do planeta, com 68 000 km² de superfície e 1100 km³ de volume de água, mas já no ano de 2007 estava reduzido a apenas 10% desse total; e em 2010, tinha se transformado em três lagos menores, já em processo de desertificação. Essa tragédia ecológica tem consequências brutais para as comunidades vizinhas, comprovadamente pelo fato de as taxas de mortalidade infantil terem disparado – as maiores desde a extinta URSS – que se dividiu no ano de 1991”. A tragédia “começou na década de 1960, quando a água dos grandes rios que alimentavam a bacia lacustre foi desviada com o objetivo de irrigar milhões de hectares de algodão”. “Dos 68 mil km quadrados de superfície, sobrou apenas cerca de 10%, principalmente por causa do avançado processo de desertificação acelerado pela ação do homem na região. [...] Um satélite da Nasa vem monitorando a região desde que a seca começou. As imagens, desde 1989 até 2014, mostram o lago já totalmente seco em pontos específicos. Segundo o Observatório da Terra da Nasa, em 2005, o Cazaquistão construiu uma represa entre as porções norte e sul do Mar, em uma tentativa de salvar parte do lago, que já tinha desaparecido. As alterações no nível do Mar de Aral trouxeram consequências terríveis para as pessoas que moram na região, levando comunidades inteiras ao colapso por causa da seca. A água também têm altos índices de poluição de fertilizantes e pesticidas. A saúde pública piorou devido a contaminação. Além disso, a perda da água colabora para que existam invernos mais frios e verões mais quentes e secos. Dezenas de ativistas já vinham chamando a atenção do mundo para a seca do Mar de Aral, e em 2010, um documentário mostrava o recuo das águas. Atualmente, a situação já é de calamidade ecológica, segundo o The Independent. Os dados são alarmantes. De acordo com a ONG We Are Water (Nós Somos a Água, em tradução livre), a região tem a maior taxa de mortalidade infantil de toda a antiga União Soviética. A bronquite crônica aumentou em 3.000%, a artrite 6.000% e o câncer do fígado já cresceu 200%".

10. Imagem por   MANNY FRANCISCO - 129158_600.jpg Imagem por Manny Francisco.

Em 2015, o cenário não parece mais animador. A Coréia do Norte está enfrentando a " pior seca dos últimos 100 anos". Segundo o jornalista Choe Sang-Hun, “Décadas de desmatamento e erosão do solo, bem como a má gestão do governo, deixaram a Coreia do Norte particularmente vulneráveis a secas e inundações”. A “agência de notícias oficial da Coréia do Norte admitiu que um terço dos campos de arroz do país secaram”. Já na Califórnia, Estados Unidos, a população convive com o quarto verão de seca, e sem melhorias à vista. A extensão do problema foi tão vasta que no início de abril o governador do estado da Califórnia impôs restrições obrigatórias ao uso da água a residentes, empresas e agricultores. “Jerry Brown ordenou a redução do consumo em 25% para todas as cidades do estado, uma medida sem precedentes e de último recurso para responder a mais grave seca da costa Oeste dos Estados Unidos". Em Porto Rico, diversos municípios já “sofrem o efeito de uma seca que assola 59% do território da ilha caribenha”. Taluorumana, pequena aldeia na região de La Guajira, na Colômbia, “atravessa uma das secas mais severas da história do país. A única fonte de água dos habitantes era o rio Ranchería, mas este secou em consequência da seca extrema que se prolonga há três anos”. “O rio Ranchería secou depois de três anos de seca intensa, décadas de uso excessivo e uma vida de corrupção pública na província de La Guajira, deixando os moradores lutando para encontrar água”. Mais de 5 mil famílias em províncias da Angola estão sendo afetadas pela seca iniciada em 2011. Na Índia, foram mais de 2.300 mortes em consequência da onda de calor que afetou a região. “Estados do sul, como Andhra Pradesh e Telangana, foram os mais atingidos, com temperaturas superiores a 47 graus Celsius”. Ainda na Índia, em New Delhi o calor foi tão extremo que chegou a derreter algumas das estradas, de acordo com Susanna Kim, da ABC News. Em Portugal, “Mais de metade do território continental português encontrava-se, no final de maio, em situação de seca meteorológica severa, o terceiro em gravidade desde 2005”. O estado brasileiro do Ceará, conforme apontam dados da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), “pode ter o maior período de estiagem desde 1910, ano em que a contagem foi iniciada”.

11. Nasa.jpg Imagem da NASA para representar a temperatura no mundo em 2014. Credits: NASA's Goddard Space Flight Center

Foi este cenário de secas severas e ondas de calor mais frequentes que fez “Os hospitais de Nova Délhi cancelaram operações a certa altura de 2013 por não terem água para os funcionários esterilizarem os instrumentos, limparem as salas de cirurgia ou lavarem as mãos. Shoppings de luxo foram forçados a desligar o ar-condicionado e fechar banheiros”. “O ano de 2014 foi o mais quente desde 1880 quando começaram os registros históricos, de acordo com duas análises independentes da NASA e da National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA”, sendo que os 10 anos mais quentes registrados, com exceção de 1998, ocorreram desde 2000.

Um vídeo desenvolvido pela NASA mostra o aquecimento da Terra de 1880 a 2014: This video shows a time series of five-year global temperature averages, mapped from 1880 to 2014, as estimated by scientists at NASA’s Goddard Institute for Space Studies (GISS) in New York. Credits: NASA's Goddard Space Flight Center

Não obstante, o ano de 2015 começou com perspectivas pouco animadoras, uma vez que o último relatório da NOAA aponta o mês de Maio de 2015 como o mais quente em um período de 136 anos, "confirmando a tendência de aumento das temperaturas globais". E dados recentes colocam “2015 no caminho certo para superar 2014 como o ano mais quente já registrado”. “De acordo com estudos recentes da NASA e a University of California-Irvine, os humanos estão consumindo mais da metade dos 37 maiores aquíferos do mundo em níveis insustentáveis, e não há dados acurados que mostrem quanta água nos resta”. Foram 11 anos de estudos que puderam gerar um “mapa mundial da seca”.

12. Mapa da água - watermap_white_cp.png Mapa mundial da seca.

O cantor brasileiro Kleber Gomes, mais conhecido como Criolo, em entrevista à revista Trip, afirmou: “A gente vive em um mundo em que pessoas morrem de frio, de fome na rua. Que desmatam o que resta de floresta. O planeta morrendo e de alguma maneira a gente não entra em pânico. O absurdo virou a regra e a sanidade, a exceção”.

Eduardo Galeano, em suas esclarecedoras reflexões, descreveu com clareza o quanto a civilização, e até mesmo Deus, havia ignorado a natureza. “Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: "Honrarás a natureza, da qual tu és parte." Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu”.

13. 0219-California-Drought-save-water.jpg SERIOUS DROUGHT. HELP SAVE WATER”. “GRAVE SECA. AJUDE A ECONOMIZAR ÁGUA”.

O cineasta Silvio Tendler, em seu documentário “Encontro com Milton Santos: O Mundo Global Visto do Lado de Cá” (2006), destaca algumas problemáticas ocorridas no mundo pela tentativa de controle da água por algumas empresas. Celso Furtado, no final da década de 1950, com seu livro “A Operação Nordeste”, analisava a questão da falta água no Nordeste de forma bastante crítica, invertendo a ordem dos fatores. Francisco de Oliveira, sobre esta obra, afirma: “No livro, no capítulo 11, que fala do sistema econômico nordestino, ele inverte o tema da seca: ela não causa a fragilidade do Nordeste, mas sim a sua economia causa a seca, tornando-a uma tragédia dos pontos de vista econômico e social. A economia do Nordeste inventa a seca”. Já em 1998, em entrevista concedida a Maria da Conceição Tavares, Manuel Correia de Andrade e Raimundo Rodrigues Pereira, transformada em livro no mesmo ano, Celso Furtado, ao recordar as grandes secas de 1915 e 1919, nos esclarecia que “naquele período a seca era uma calamidade natural mas, desde que passaram a existir mecanismos de informação e previsibilidade dos períodos mais acentuados de seca, a questão tornou-se social e política”.

Um problema social e político – assim como Josué de Castro apontava a “geopolítica da fome” na década de 1950 e os problemas ecológicos nos anos subsequentes. Percebemos que a falta de água, o aquecimento do planeta, as disparidades sociais, são, hoje, alguns dos mais graves problemas políticos da humanidade – mesmo que a maior parte do Senado dos Estados Unidos pense o contrário. Problemas estes que parecem estar distantes – ou talvez nem tanto – de uma possível solução. Para finalizar, deixo um poema escrito no período da seca em São Paulo, que trata exatamente daqueles que são mais afetados pela falta de água quando o problema assola a população.

14. Imagem Casa Grande e Senzala.jpg Imagem via Elias Crim

Casa-Grande & Senzala* J. Douglas Alves

Faltou água na Senzala... Não tem problema, Preto-pobre só merece mesmo chibata. Faltou água na Senzala... E tudo bem, Pobre-preto não faz parte da “nata”**.

A criança chora no leito Por falta de leite; A mãe pergunta se é castigo de Deus O destino de toda essa gente; O pai trabalha dobrado Na dieta da aguardente; E o patrão espia do alto Sua riqueza onipresente.

Mas faltou água na Senzala... Não tem problema, Branco no meio do pobre é também gentalha. Faltou água na Senzala... E tudo bem, Pois miséria pouca só não basta.

O ancião olha pra frente Como se olhasse pro passado; Ele percebe a sequência dos erros E parece presumir o que virá no último ato; Ele chora calado, mas não chora pelo presente, Nem tampouco lamenta pelo passado; Suas lágrimas caem pelo que vem, Pelo futuro que se aproxima dos seus últimos passos.

Faltou água na Senzala... Não tem problema, Na Casa-Grande não falta. Faltou água na Senzala! Tudo bem, Porque em boca fechada não entra bala.

[...]

E não adianta fazer dança da chuva Nem implorar por misericórdia; Na dança das cadeiras Quem tá por baixo é quem sobra. Também não adianta sentir culpa Mordendo a isca que eles mandam como titela; O jornal diz pra fechar a torneira Mas continua nos poluindo com suas matérias.

Enquanto isso falta água na Senzala... Não tem problema, Na Casa-Grande não falta. Falta água na Senzala... Nordeste, São Paulo, Mama África, Em todo lugar a mesma adaga.

* Referência à obra “Casa-Grande & Senzala - Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal”, do pensador brasileiro Gilberto Freyre, publicada em 1933.

** “E quem se julga a nata cuidado pra não quaiar” (Criolo, trecho da canção “Mariô”).

15. Imagem por Alexandre Beck - armandinho_natureza.jpg Imagem por Alexandre Beck. Via Moleco

Obs.: 01. Devido a grande quantidade de citações, preferi suprimir as referências – conforme as regras acadêmicas (leia-se: ABNT) – para não deixar o texto ainda mais longo. Para verificar as fontes e autores utilizados, basta clicar nas partes destacadas no texto, que direciona para os links de origem (ou conferir a lista com as referências citadas logo abaixo).

Obs.: 02. Este é apenas um estudo preliminar. Há a necessidade de uma ampliação e, possivelmente, também de uma revisão, comparando com outras fontes e referências. De qualquer forma, os dados apontados demonstram que este é um assunto que requer maior cuidado e atenção por parte da sociedade – não apenas dos cientistas e pesquisadores, mas dos políticos, ecologistas, ativistas, educadores e da comunidade em geral; afinal, é tomando consciência dos problemas que podemos nos mover para solucioná-los.

Referências (por ordem de apresentação): Royce Christyn (2015); Fillipe Mauro (2012); Taís Laporta (2015); Página do MST (2015); Leonardo Boff (2015); Amantha Perera (2014); Da EFE (2014); Carlos Madeiro (2014); Marcus Mazzari (2010); Claudio Motta (2012); Eduardo Febbro (2012); Eduardo Carvalho (2015); Fabrício Lobel (2015); Agência Brasil (2015); Paula Adamo Idoeta e Rafael Barifouse (2014); Júnior Borneli (2015); Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra (2013); Roberto Malvezzi (2014); Redação IDGNOW! (2015); Martim Vicente (2014); Assessoria de Imprensa dos Metalúrgicos de Piracicaba (2014); Do R7 (2014); Do Green Savers (2015); Choe Sang-Hun (2015); BBC (2015); Associated Press Reporter (2015); Do Green Savers (2015); Da EFE (2015); Do Green Savers (2015); Stephen Ferry (2015); Rádio Vaticano (2015); Sean Breslin (2015); Murali Krishnan (2015); Susanna Kim (2015); Alfredo Maia (2015); Ceará Portal de Notícias (2015); Nita Bhalla (2015); Manuel Ansede (2015); Steve Cole e Leslie McCarthy, da NASA (2015); NOAA - National Centers for Environmental Information (2015); CLIMAGEO/IESA/UFG (2015); AFP (2015); Lydia O'Connor (2015); Tacira (2015); Julia Lurie (2015); Criolo (2011); Eduardo Galeano (2011); Silvio Tendler (2006); Celso Furtado (1959; 1998); Francisco de Oliveira (2008); Marta Kanashiro (2005); Sean Cockerham (2015).


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
Saiba como escrever na obvious.
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