desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

NOTAS DO COTIDIANO: Sobre bike, dinheiro e redução da maioridade penal

Esta é segunda postagem sobre as “notas do cotidiano”, histórias que têm sua origem nos discursos ou práticas comuns de nosso dia a dia, e que são aqui problematizados visando uma reflexão sobre os mesmos.


02. bicycle.jpg Imagem via The Nomad Mom Diary

Sobre andar de bike: ou sobre um momento de satisfação na vida

Uma das cenas mais belas que pude observar aconteceu esta semana, quando voltava da universidasde, sentado no ônibus, próximo à janela. O veículo parara rapidamente em uma avenida movimentada, de frente a um condomínio, quando uma jovem saiu de lá empurrando sua bicicleta. Ela parou, olhou com atenção o tráfego dos carros, olhou novamente, e disparou até a ciclovia, logo mais à frente. Na ciclovia, tomou impulso, subiu na bike e seguiu seu caminho. Neste instante, o ônibus voltou ao seu trajeto, passando pela garota com sua bicicleta e deixando-a para trás. Pouco tempo depois, o veículo parou no semáforo, juntamente com tantos outros carros. E então, de repente, lá estava ela, seguindo na ciclovia enquanto os carros continuavam parados. O que mais me chamou atenção na cena, e que por isso posso dizer que foi das mais belas que observei, foi a expressão facial da garota. Ela estava tão radiante que não tinha como não notar. Sua boca sorria, seus olhos sorriam, seus cabelos sorriam, ela inteira sorria de felicidade. A garota, em sua bicicleta, transpirava vida – dava para sentir sua energia mesmo à distância –, algo que dentro de um carro, dificilmente alguém conseguirá.

Sobre a redução da maioridade penal 03. Imagem por Vitor Teixeira65565.jpg Imagem por Vitor Teixeira

Estava no cabeleireiro, esperando enquanto “seu barbeiro”, como assim o dono do local é conhecido, fazia seu trabalho. Estavam presentes sete pessoas – o cabeleireiro, o cliente que estava com ele no momento, a mulher do cabeleireiro e os demais clientes que também aguardavam: uma senhora, um menino acompanhando a senhora, um jovem e eu. Entre uma conversa e outra entre o jovem que aguardava e o cabeleireiro, eis que o rapaz, estudante universitário da maior instituição privada da cidade (conforme ele mesmo fez questão de mencionar), toca no assunto da redução da maioridade penal. Com um argumento simples, evocando sua avó, ele concluiu: “Minha avó já dizia, vagabundo não tem idade”. Segundo sua análise histórica e sociocultural, esse povo que é contra a redução só o é porque ainda não teve nenhum problema com “esses vagabundos”. Empolgado com o próprio discurso, ele afirmou: “Deixe esses universitários da Federal serem assaltados por uma dessas ‘crianças’ pra você ver se amanhã num tão tudo revoltado pedindo a prisão!”.

04. MATERIA-24.jpg Imagem via Correio Mariliense

Infelizmente, esta é a representação das crianças e jovens populares que se transmite pela mídia hegemônica e que alimenta o imaginário de muitas pessoas. O óbvio, tão óbvio, poucos se preocupam em enxergar: não são as crianças e jovens os problemas desta sociedade; o problema é a estrutura e a organização política que influencia diretamente na manutenção de nossa histórica desigualdade social. Enquanto as corporações que financiam as campanhas partidárias, junto à mídia privada, controlam e fazem de fantoche os “nossos representantes”, os recursos que deveriam ser destinados à Alimentação, Educação, Saúde, Segurança, Cultura, Emprego, entre outras prioridades básicas, são sistematicamente concentrados nos “bolsos” – leia-se “contas” – de uma minoria que furta o povo brasileiro, além, é claro, de também servir para pagar os juros de uma dívida pública ilegal e irrisória – em que a maioria da população parece desconhecer e a grande mídia brasileira sequer toca no tema.

[Aqui cabe uma breve nota sobre a dívida pública brasileira: os mandatários da nação insistem em não fazer uma auditoria dessa suposta dívida, mesmo tendo uma das maiores especialistas no assunto – a brasileira Maria Lucia Fattorelli –, disponível para realizar uma investigação urgente e necessária sobre o caso. O que tanto temem estes “fantoches” políticos? Em entrevista a Renan Truffi (2015) para a Carta Capital, Fattorelli esclarece: “Nós estamos diante de um monstro mundial que controla o poder financeiro e o poder político com esquemas fraudulentos. É muito grave isso. Eu diria que é um mega esquema de corrupção institucionalizado”.]

DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA - A soberania na corda bamba (filme completo) “Mais de 90% da divida é de juros sobre juros. [...] Nossa Constituição proíbe juros sobre juros para o setor público. Tem uma súmula do Supremo Tribunal Federal, súmula 121, que diz que ainda que tenha se estabelecido em contrato, não pode. É inconstitucional. Tudo isso é porque tem muita gente envolvida, favorecida e mal informada. Esses tabus, essa questão do calote, muita gente fala isso. Eles tentam desqualificar. Falamos em auditoria e eles falam em calote. Mas estou falando em investigar. Se você não tem o que temer, vamos abrir os livros. Vamos mostrar tudo. Se a dívida é tão honrada, vamos olhar a origem dessa dívida, a contrapartida dela” (Maria Lucia Fattorelli)

O problema da redução da maioridade penal é apenas mais uma estratégia dos beneficiados dessa estrutura política, que “tira dos que não têm para dar aos que tanto já têm”, que objetiva deixar o povo na ignorância – e para isso, eles fazem pouco caso em relação aos investimentos na educação pública, que “eles” – “Quem são eles? Quem eles pensam que são?” – preferem chamar de “custo social”, ao invés de “investimento social”. Como reflete Eduardo Marinho: “Por que se chama os gastos públicos de “custo social” e não de “investimento na população”? Porque está plantado no inconsciente coletivo que “custo” precisa ser contido, cortado, diminuído ao máximo. Investimento pressupõe retorno. E, no caso, o retorno seria uma população educada, pensante, crítica, capaz de decidir seus caminhos e de perceber as falácias das elites apresentadas por seu porta-voz, a mídia privada. Tudo o que a classe dos dominantes não quer” (MARINHO, 2011, p. 16). Dessa forma, enquanto o foco permanece numa absurda redução da maioridade penal, outros problemas vão sendo jogados para debaixo do enorme tapete de nossa política nacional...

05. reducao-maioridade-penal-anistia-internacional.jpg Foto por Nair Benedicto (via Revista Fórum)

Mas voltemos ao debate em relação ao que o jovem universitário ressaltava. Segundo ele, tinha era que prender mesmo esses “marginais” – ou, para lembrar, essas crianças e jovens –, que roubam e matam e não estão nem aí para nada. Enquanto isso, eu me perguntava: e nossa sociedade, está preocupada com esses “marginais”? Quem serão aqueles que irão parar atrás das grades entre as crianças e jovens? Aqueles que se embebedam, pegam o carro do papai e atropelam ciclistas por aí? Os jovens que incendeiam mendigos e indígenas na rua? Ou as crianças e jovens populares, em sua maioria da cor negra, a quem boa parte da sociedade lança uma olhar de repulsa? São crianças e jovens que não têm – e nem terão – respeitada as vivências de seus tempos de vida. “Milhares de adolescentes e jovens não terão essas vivências nem na escola, nem na família, nem na sociedade. Na sociedade e na família lhes serão dito ou insinuado: não importa em que tempo humano você esteja, trabalhe, lute, sobreviva, roube se preciso, seja violento como corresponde ao adulto” (ARROYO, 2009, p. 191), para então ser taxado de bandido, criminoso, sendo-lhe apontada a prisão como saída.

06. modelo-foto-do-blog-do-cultura.png Imagem via Coletivo Cultura Verde “Falam em maioridade penal. Ora, minha senhora! Um Estado que viola sua própria constituição, criminoso permanente contra a população, nega instrução devida com um ensino público mentiroso, de fachada, que não ensina, nega alimentação devida em lei, moradia prevista na carta magna, serviços públicos hediondos, segurança pública violenta e assassina pra cima das periferias, da parte mais pobre e numerosa do seu povo, não tem moral pra prender menor de idade. Cumpra-se a constituição federal e o número de criminosos cairia a níveis ínfimos. Uma sociedade criminosa pretende julgar e condenar suas vítimas, em franca demonstração de perversidade deliberada, por opção das elites que governam os governos. Um estudo simples e amplo mostraria que na origem dos crimes que encarceram mais de dois terços de milhão de brasileiros, está o Estado, sua ausência ou sua violência. A maioria pobre está sujeita à lei. Mas os que têm vez, voz e privilégios serão tratados pela psiquiatria, serão doentes, desequilibrados, jamais criminosos. A estrutura jurídica tem base na romana - patrício se serve, plebeu se fode.” (Eduardo Marinho)

Mas em todo caso, enquanto a mídia fizer lobby à meritocracia, todo discurso permanecerá centrado naqueles que “conseguiram”, que deram duro, que não se deixaram levar pelas drogas, pelo crime, pela violência. É muita ingenuidade acreditar que numa sociedade em que as crianças e jovens vivem à margem de todo cuidado e atenção, agora eles terão isso atrás das grades. Como se a penitenciária fosse modelo de reabilitação social... “Não se muda o que não se conhece”, enfatiza Miguel Arroyo (2009, p. 192). Preocupemo-nos então a conhecer nossas crianças e jovens mais de perto, escutar suas angústias, sonhos e indagações; e em seguida, conheçamos mais de perto – se possível de dentro – as prisões, para então lançarmos nossa opinião sobre os sujeitos que nela sobrevivem e que a ela estão “destinados”. William Douglas Santos (2013, s/p), juiz federal, nos recorda: “Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que “antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia”. Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação.” Todavia, alguém – qualquer um destes adultos preocupados com a redução da maioridade penal –, a propósito, pensou em perguntar às crianças e jovens, das periferias e vielas de nossa sociedade, o que elas pensam a respeito?

Porta dos Fundos – Redução

Sobre o “louvor” ao dinheiro 07. money2454.jpg Imagem via Pinterest

Estava aplicando um questionário numa turma do 3º ano do Ensino Médio de uma reconhecida escola da rede privada. Os discentes responderam ao questionário e entregaram, bem como o docente. Após agradecer a participação e cooperação deles em minha pesquisa, enquanto me dirigia à porta de saída, o professor diz: “Que você tenha êxito em sua dissertação e que ganhe muito dinheiro!”. Confesso que fiquei um tanto instigado com suas últimas palavras: “e que ganhe muito dinheiro”. Agradeci novamente a ele e desejei à turma sucesso nos vestibulares e no Enem que estão prestes a fazer até o final do ano. Quando retomei o caminho da saída, passei a olhar mais atentamente aqueles alunos e alunas e pensei no quanto aquele tipo de discurso devia ser exaltado, e não somente naquela escola, mas também nos seus lares e em outros espaços que aquele público supostamente frequenta. Desde cedo, eles são, em sua maioria, ensinados e estimulados a louvar, cultuar “o dinheiro nosso de cada dia”, como se o sentido da vida fosse ganhar dinheiro – e mais dinheiro! – ou como se o sujeito encontrará algum significado quando finalmente tiver muito dinheiro.

Eduardo Marinho, falando sobre o básico e óbvio da vida Via: TV Gambiarra

Referências ARROYO, Miguel G. Imagens quebradas: trajetórias e tempos de alunos e mestres. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

MARINHO, Eduardo. Crônicas e pontos de vista. Rio de Janeiro: Navilouca Livros, 2011.

SANTOS, William Douglas R dos. Por que me tornei a favor das cotas para negros. Pragmatismo Político, nov. 2013.

TRUFFI, Renan. Entrevista - Maria Lucia Fattorelli. Carta Capital, jun. 2015.


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.
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