desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

SOBRE A MORTE DA PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF

A presidente não morreu. No entanto, diante das tantas aberrações sob o nome de “protesto” que podemos observar nas ruas e em redes sociais, não me surpreenderia caso ela tentasse suicídio. O que me causa estranheza é o fato de tantas pessoas incitarem – e mesmo desejarem – que isso aconteça.


01. Dilma-política.jpg Imagem via Kariane Pontes

“Não se trata de condenar ninguém, mas de perceber com olhos próprios e refletir sobre o que se vê” (Eduardo Marinho)

Uma matéria irrompe a grade de programação de todos os canais de televisão Brasil afora, deixando perplexos aqueles que acompanhavam a receita de bolo de ignorância no “Mais Eu”, a forma mais fácil de se enfurecer no “Mal Estar”, o ritmo adequado de bater em panelas no “Encontro com...” – com quem mesmo? – ou a pregação que exalta o ódio divino pelo nosso semelhante. “A presidente Dilma Rousseff foi encontrada morta em sua residência”, noticiam inúmeros repórteres nas mais diversas línguas ao redor do mundo. “Peritos confirmam que a presidente cometeu suicídio”, finalizam eles. Silêncio. Um silêncio ensurdecedor. Não demora muito para que este silêncio seja quebrado por uma onda de celebrações; enquanto muitos choram de tristeza, outros choram de alegria (!?!).

Parece absurdo que algo como o descrito acima aconteça? Diante da crescente onda de “racionalidade” e “sensibilidade” expressas pelos especialistas de plantão do facebook e outras redes sociais, não me surpreenderia se tal matéria fosse noticiada. E espero muito estar errado quanto a isto. Postagens com comentários exatalndo a morte da presidente – “eu escreveria 'presidenta' se o masculino fosse 'presidento'” (MARINHO, 2011, p. 79) – ou humilhando-a enquanto mulher, passaram a ser comuns e até mesmo consideradas “normais”. Eu me pergunto se aqueles que fazem isso alguma vez já pensaram em se colocar no lugar dela. Imagine ligar a TV, acessar a internet ou ler algum jornal e notar que existem pessoas desejando que você morra. O que você sentiria? O que você faria?… Antes de prosseguir com esta breve reflexão, convém ressaltar que não se trata aqui de defender, nem tampouco de condenar a presidente Dilma Rousseff. É uma questão de consciência, em relação a si mesmo e, principalmente, em relação ao outro.

02. Dilma pulando para água.jpg Imagem via Sertão RN

Nesta última semana a imagem acima me chamou atenção e me causou repugnação. Na montagem, a presidente está à beira de um precipício e a legenda que se lia era a seguinte: “Vai, pula logo! Está esperando um empurrãozinho?”. É como se as pessoas tivessem perdido a noção do absurdo, como se o suicídio de Dilma fosse suficiente para resolver os problemas políticos, econômicos e sociais do país. Entre os comentários, alguns como: “Pula!”, “Pula desgraçada!”, “Tinha que haver alguém ali atrás, para... Aquele empurrãozinho!”, “Vamos compartilhar pra essa vaca pular!”, “Aquela vontade de estar atrás, para dar apenas uma ajudinha”, “Pula, cretina!”, e tantos outros semelhantes.

Suponhamos que as eleições tiveram outro final distinto daquele que já sabemos, que Dilma nem tenha participado da disputa eleitoral e que outra pessoa tenha sido eleita presidente, um homem, qualquer que seja, o Lula ou o Aécio, tanto faz. Eu pergunto: você, caro(a) leitor(a), acredita mesmo que esta onda de ódio estaria assim tão grande? Por favor, peço que pense mais uma vez: um presidente (lembrando o padrão ocidental de maioria citado por Gilles Deleuze: “homem, adulto, macho, cidadão”) no lugar da presidente (mulher, “minoria”, "incapaz"). Eu duvido – ou “eu aposto”, como costumamos falar quando crianças – que estaríamos presenciando tantos atos de selvageria via redes sociais ou em manifestações nas ruas como as que estamos presenciando agora. Não, não é apenas uma questão de gênero. Sim, é sobretudo uma questão de gênero. O machismo nosso de cada dia exaltado, estimulado e compartilhado sem a mínima restrição – ou “dor de consciência”. E o pior: até mesmo as mulheres(!!) inflamando o seu machismo contra a presidente.

03. xingamento-de-dilma.jpg Imagem por Vitor Teixeira

Não tem muito tempo que na abertura da então Copa do Mundo no Brasil, enquanto muitas emissoras de TV transmitiam a abertura oficial do evento para diversos países, podia se ouvir o coro de “Dilma, vai tomar no c*”, no que pode ser descrito como mais uma triste cena de nossa história política. Mais recentemente, circulava – e talvez ainda circule – nas redes sociais uma montagem grotesca em relação à Dilma. Eram montagens em que ela aparecia de pernas abertas, em adesivos colados na entrada do tanque de gasolina dos carros. A intenção dessas imagens era a mais clara e inapropriada possível: quando os veículos são abastecidos, a bomba de gasolina penetra sexualmente a figura falsa da presidente. Sobre este episódio perverso, Jarid Arraes (2015), salienta:

Segundo os adeptos dessa aberração machista, a intenção é “protestar” contra o aumento da gasolina. Parece que para eles a melhor analogia para um protesto é um estupro, uma violação sexual que ainda é exibida como se fosse algo engraçado. A penetração, nesse caso, é a punição contra a presidenta, que está sendo “castigada” por ter subido os custos do abastecimento.

A hipocrisia das pessoas que compactuam com esse tipo de atitude é desconcertante. Muitos desses indivíduos fazem parte de camadas conservadoras, que defendem uma suposta “preservação da família” e uma ideia de moral pautada nos anos 40. Curiosamente, essas pessoas não refletem e não se preocupam com a mensagem que estão passando para as pessoas nas ruas, incluindo crianças, que verão a imagem da presidenta de pernas abertas e darão de cara com a bomba de gasolina “entrando” em seu corpo dessa maneira.

Essa prática, que jamais deve ser chamada de protesto, evidencia que faltam argumentos políticos e embasados em fatos, análises sérias e dados convincentes para respaldar as críticas contra o governo Dilma. Porque, sim, é possível criticar o governo atual e até mesmo manifestar revolta sem apelar para misoginia e analogias de estupro. A presidenta Dilma não deu o seu consentimento para que isso fosse feito, com essas montagens grotescas; certamente, essa prática só serve para banalizar e naturalizar, ainda mais, a violência sexual contra as mulheres.

04. dilma-imagemgrotesca.jpg Imagem via Diário 24 horas

Se fosse qualquer outro indivíduo (homem, adulto, macho e cidadão) na presidência da república brasileira, de direita ou de esquerda, azul ou vermelho, cristão ou pagão, provavelmente a onda de ódio e machismo que tem se tornado uma imensa tsunami já teria quebrado na praia como uma onda imperceptível. Todavia, é uma mulher que ainda está lá (no “poder”) ocupando o lugar que deveria ser de algum homem. E isso é insuportável na mente conservadora e alienante de grande maioria da população – mesmo das próprias mulheres –, (re)produzindo um ódio sustentado pela ideologia partidária, que promove o distanciamento em relação àquele que pensa diferente ou que se identifica com os diferentes; e um machismo sustentado pelo preconceito. Como bem comentou Eliane Capel (2015): “Machismo de quem se submete e quer que todos se submetam, basta escutar as poucas "falas" no tal panelaço. Como apoiar e dialogar com uma mulher no poder? Sim, isso tudo é um jogo perverso político porque se não fosse fariam panelaço pros monstros do senado. Precisa desenhar?”.

Ricardo Boechat sobre a situação da presidente

O Ricardo Boechat, em sua fala, apesar de coerente no geral, esquece que Dilma não chegou à presidência sozinha. Na verdade, presidente nenhum chega ao poder sozinha(o) ou apenas por carisma. As pessoas parecem esquecer – ou mesmo desconhecer – que ao lado de Dilma há inúmeros outros gananciosos batendo em suas costas para lembrar (e/ou cobrar) como ela chegou até lá. Os passos que ela deu para chegar na posição que ocupa hoje não são apagados como os passos que deixamos durante uma caminhada na praia… Há um preço a se pagar; e todos "eles" sabem disso – mesmo os que fingem não saber.

É muita ingenuidade e/ou ignorância acreditar que a presidente Dilma manda no país (e neste caso até mesmo se fosse um homem a ideia não se alteraria). O interessante é que ela não manda em tudo, mas leva a culpa por tudo – basta escutar qualquer especialista em política nestas “manifestações” de rua organizadas contra a “corrupção”, ou acessar por meia hora o facebook. Irrisória contradição. Para deixar o assunto o mais claro possível, recorrerei à literatura, às esclarecedoras palavras descritas por Douglas Adams (2010, p. 35) em “O guia do mochileiro das galáxias”, sobre o papel do presidente. De forma simples, sutil, irônica e direta, ele afirma: “O presidente, em particular, é simplesmente uma figura pública: não detêm nenhum poder. […] Não cabe a ele exercer o poder, e sim desviar a atenção do poder. […] Pouquíssimas pessoas sabem que o presidente e o governo praticamente não têm nenhum poder, e, dessas pouquíssimas pessoas, apenas seis sabem onde é, de fato, exercido o verdadeiro poder político”. Em outras palavras: “o presidente não significa nada. É um zero à esquerda” (ADAMS, 2010, p. 23).

05. financiadores.jpg Imagem via Parsifal 5.7

Apesar do contexto estabelecido na obra de Douglas Adams ser distinto do que ocorre no Brasil, podemos perceber semelhanças reveladoras no que concerne ao jogo de marionetes ou a todo esse processo caricato (para utilizar a expressão usada pelo Ricardo Boechat) da política – e também da democracia – nacional. Como observa Eduardo Marinho (2011, p. 54-55): “Quando olhamos o panorama da sociedade, vemos que a “elite dirigente” formal, apresentada como o “poder”, não é o que parece ser. Observando seu comportamento, sem nos deixar enganar pela mídia, percebemos que o poder real, atual e atuante, está bem acima dessa elite, no escuro das empresas de comunicações e do aparelho do Estado. A verdadeira elite dirigente não é eleita pelo voto, ao contrário, elege seus subordinados e, por meio deles, indica outros subordinados para os cargos-chave, dentro da administração estatal. […] Os donos das megaempresas, os grupos de empresários mais ricos, donos de terras, de indústrias, são esses os que mandam, controlam, criam valores, distorcem a realidade, interferem no ensino, nas decisões do Estado em qualquer das suas instâncias. Atacam populações, comunidades, etnias, tudo o que esteja no caminho dos lucros absurdos a que se acostumaram”.

06. Latuff - financiamento poítico.jpg Imagem por Latuff

Basta lembrar como funcionam os bastidores do processo eleitoral, ancorado em financiamentos e disputas explícitas para se chegar ao poder. Até o momento, adota-se no Brasil o sistema misto de financiamento de campanha, com os partidos arrecadando dinheiro tanto por meio de doações de empresas como de pessoas físicas. Segundo Mariana Schreiber (2015), em reportagem para a BBC Brasil, “Os números oficiais mostram que hoje as empresas são as principais financiadoras da disputa eleitoral no Brasil. Nas últimas eleições, partidos e candidatos arrecadaram cerca de R$ 5 bilhões de doações privadas, quase na sua totalidade feitas por empresas. Por outro lado, campanhas e partidos receberam no ano passado R$ 308 milhões de recursos públicos por meio do Fundo Partidário, enquanto o tempo "gratuito" de televisão custou R$ 840 milhões aos cofres da União por meio de isenção fiscal para os canais de TV.” Parafraseando Eliane Capel: “Precisa desenhar?”. O vídeo abaixo realizado pelo Porta dos Fundos demonstra como isso funciona na prática:

[atualizado: Os senadores decidiram há pouco, na sessão desta quarta-feira (2), que as empresas e demais pessoas jurídicas não podem mais doar dinheiro aos candidatos e aos partidos políticos. Por outro lado, as pessoas físicas estão autorizadas a contribuir até o limite do total de rendimentos tributáveis do ano anterior ao repasse dos recursos.] Isso talvez não modifique muito a situação, pois os candidatos ainda continuarão recebendo financiamento, só que agora diretamente dos empresários, e não mais das empresas – o que pode gerar a utilização de "laranjas" para ampliar o financiamento a candidato X e Y. De todo modo, esperamos que este seja o primeiro passo de muitos que ainda precisam ser dados para modificar o atual cenário da política brasileira. "Parabéns ao Senado da República por exteriorizar o sentimento da nação brasileira. A relação imprópria entre empresas, candidatos e partidos está no germe da corrupção eleitoral e administrativa. A ampla maioria da população quer uma nova forma de fazer política, com redução de gastos de campanhas. Não quer mais campanhas milionárias, Hollywoodianas” (Marcus Vinicius Furtado Coêlho, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB).

Porta dos Fundos - Financiamento

Enquanto as pessoas acompanham a mídia hegemônica e se apropriam de toda e qualquer informação transmitida por ela para demonstrar que “tudo é culpa da Dilma”, acabam alimentando – mesmo sem perceber – um ódio contra a presidente que é também um ódio contra o outro – o outro ser humano – e contra si mesmo; o que pode gerar sérias consequências à presidente – considerando que ela ainda é ser humano. Não é uma questão de defender, criticar e/ou condenar, mas de ter consciência daquilo que lemos, assistimos, pensamos, falamos, escrevemos e compartilhamos. É contra todo tipo de ignorância – principalmente a ignorância de nós mesmos – que devemos lutar e resistir.

Eduardo Marinho (2010) descreve uma forma de impedir que a ignorância e a arrogância se estabeleçam como parâmetros em nossos julgamentos. “Tomando consciência, enxergando além do que nos é mostrado, buscando as informações nos meios alternativos, descondicionando nossos comportamentos, nossos valores e objetivos de vida, corroemos o sistema. Criando solidariedade, desenvolvendo a sensibilidade, fazemos parte da construção descontrolada, do processo de iluminação e elevação do espírito humano e da sociedade, para construir uma estrutura justa e equilibrada, sem privilégios, ostentações, miséria e ignorância. Porque uma sociedade com miséria material, de um lado, denuncia a própria miséria moral, de outro. Nesse caso, a forma denuncia o conteúdo.” Enxergar além das aparências e além de nós mesmos. “Perceber com olhos próprios e refletir sobre o que se vê”. Neste caso: colocar-se no lugar da presidente, tentar sentir na pele as suas dores, a sua condição e sua verdadeira posição neste cenário; e rever, repensar, refletir sobre a forma como percebemos, assimilamos e discutimos a situação.

E também considerar que muitas pessoas se matam por coisas ditas tão simples – e que podem não ser –, como um julgamento externalizado de forma imperativa ou mesmo uma piada desnecessária em relação ao outro, ao seu peso, à cor da sua pele, ao tipo de cabelo, à opção sexual, ao modo de se vestir ou de ser e estar no mundo, entre outros (o que pode não ser diferente com a presidente). Dessa forma, talvez deixemos de continuar expressando nossos pré-conceitos como verdades que precisam ser assentidas por todos. Reconhecer que não temos conhecimento profundo sobre o outro, que não sabemos sobre sua condição mental, sobre seus conflitos externos e internos. Acreditar que uma simples palavra ou uma única imagem podem ser suficientes para desencadear um processo desastroso e insustentável. Perceber o outro, reconhecer-se nele. Praticar aquilo que chamamos de humanidade.

#maisrespeitoporfavor

Engenheiros do Hawaii - A Promessa “Não vejo nada (o que eu vejo não me agrada) Não ouço nada (o que eu ouço não diz nada) Perdi a conta das pérolas e porcos Que eu cruzei pela estrada

Estou ligado à cabo a tudo que acaba de acontecer

Propaganda é a arma do negócio No nosso peito bate um alvo muito fácil Mira à laser... miragens de consumo Latas e litros de paz teleguiada

Estou ligado à cabo a tudo que eles tem pra oferecer

… O céu é só uma promessa Eu tenho pressa, vamos nessa direção Atrás de um sol que nos aqueça Minha cabeça não aguenta mais...

Referências

ADAMS, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

_______. O guia do mochileiro das galáxias – O restaurante no fim do universo. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

ARRAES, Jarid. Adesivos misóginos são a nova moda contra Dilma. Revista Fórum, julho de 2015.

BOECHAT, Ricardo. Boeachat comenta sobre panelaço contra Dilma. Café com Jornal, Band News TV/Rádio Band News FM, agosto de 2015.

CAPEL, Eliane. Comentário no facebook, agosto de 2015.

DELEUZE, Gilles. O abecedário de Gilles Deleuze – G de Gauche [Esquerda]. Realização de Pierre-André Boutang, produzido pelas Éditions Montparnasse, Paris [No Brasil, foi divulgado pela TV Escola, Ministério da Educação], 1988/1989.

MARINHO, Eduardo. A guerra das empresas contra os povos tem o Estado como exército e a mídia como porta-voz e formadora de opinião. Observar e Absorver, dezembro de 2010.

_________. Crônicas e ponto de vista. Rio de Janeiro: Navilouca Livros, 2011.

SCHREIBER, Mariana. Quase 40 países já proíbem doações de empresas a campanhas políticas. BBC Brasil, maio de 2015.


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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