desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Precisamos falar sobre isso

Os Guarani-Kaiowá tentam resistir à barbárie histórica e pedem que os seus direitos sejam respeitados; refugiados asiáticos e africanos fogem de conflitos e guerras e pedem que sejam acolhidos. Precisamos falar sobre isso...


01. capa-original-obvious-praia-índios.jpg Imagens por Alice Branco e redação Al Arabiya News.

Povos originários continuam morrendo nas terras deste mundo. Refugiados e imigrantes continuam morrendo nos mares deste mundo. Neste cenário, é bem possível que algum dia, no lugar de lavas, os vulcões jorrem sangue; e além do lixo trazido às praias, as ondas tragam também homens e mulheres – crianças, adultos ou idosos. E a pergunta que não cala: por quê?

Esta no vídeo abaixo é a Nayara Tucano, e ela tem um aviso a dar e um pedido a fazer. Por favor, assistam:

Pedido de ajuda de Nayara Tucano - Fazendeiros se reúnem para exterminar índios Guarani Kaiowás no Mato Grosso do Sul […] Nós somos os povos originários dessa terra. E o genocídio dos povos indígenas é o maior genocídio da história da humanidade. Então, nós pedimos justiça. […] É um grau de desumanidade intolerável, insuportável, e todos nós estamos sofrendo, então pedimos ajuda de vocês que são nossos irmãos. […] A gente precisa falar disso agora. […] Nós somos poucos, nós somos muito poucos, e tem um monte de brasileiro que enche a boca para falar que tem sangue indígena e na hora do massacre ninguém se mexe. Por favor, nos ajudem”.

Desde que começamos nossa formação escolar, no início da Educação Básica, professores com as mais boas intenções – há exceções e hoje elas crescem cada vez mais – nos ensinam sobre “O descobrimento do Brasil” como o principal acontecimento de nossa ainda recente história. É difícil para muitos imaginar o Brasil antes da chegada dos portugueses e espanhóis, imaginar que esta terra então “descoberta” já existia e que sujeitos habitavam ela em equilíbrio com a natureza.

Imaginar o território brasileiro antes dos saques e atrocidades cometidos em prol do processo “civilizatório” promovidos pelos europeus não é tarefa das mais fáceis, ainda mais quando percebemos que hoje continua sendo difícil para muitos reconhecer que existem povos originários tentando sobreviver nos restos de terras deixados para eles. “Índio, no Brasil? E não entrou em extinção? Em qual museu eu posso encontrar um?”. Enquanto ocupam algumas poucas páginas dos livros de História trabalhados nas escolas do país, eles estão desaparecendo – apagados – da própria história. 02. imagem02-américas-civilizações.jpg Imagem via Rita Vieira

Estima-se que “Durante a chegada dos europeus em nossas terras verdes, existiam entre um milhão a dez milhões de habitantes nativos naquela época. Hoje, segundos dados do Censo 2010. existem mais de 800 mil índios, cerca de 0,4% da população brasileira” (SANTOS, 2012, p. 61). João Fellet (2014), em matéria para a BBC Brasil, afirma que a maior taxa entre os mortos indígenas são de crianças e que o DSEI (Distritos Sanitários Especiais Indígenas) do “Mato Grosso do Sul responde pelo maior número de assassinatos de índios: 137 nos últimos sete anos”. Já Aliny Gama (2015) informa que em 2014 houve um aumento de 130% em relação aos assassinatos de indígenas. Uma das causas desses assassinatos é a “situação de confinamento populacional. Somente no Mato Grosso do Sul existem 40 mil pessoas confinadas em pequenas reservas”, aponta Aliny.

“A região é um dos principais focos de conflitos por terra entre fazendeiros e indígenas e há aldeias em situação de extrema precariedade, na beira de estradas, o que agrava a situação de saúde desses povos” (EL PAÍS, 2015). Quando não são os latifundiários, é o próprio Estado brasileiro que comete o assassinato destes sujeitos – e não só deles, mas de tantos outros nas cidades do país, principalmente nos campos e nas periferias –, quando não disponibiliza um sistema de saúde de referência, quando não concede as terras que eles tanto necessitam para viver, quando não assegura o princípio da “dignidade da pessoa humana” declarada na Constituição.

03. O-DRAMA-DOS-GUARANI-KAIOWÁ-por-Quinho-580x354.jpg Imagem por Quinho.

O pedido de ajuda de Nayara Tucano é mais um dos inúmeros gritos de socorro dos povos originários ao longo da nossa história – e não só da história brasileira, mas da história da América. Eduardo Galeano (2011, p. 32-33) nos recorda que “A epopeia de espanhóis e portugueses na América combinou a propagação da fé cristã com a usurpação e o saque das riquezas indígenas. Ainda segundo o pensador uruguaio: “Desterrados em sua própria terra, condenados ao êxodo eterno, os indígenas da América Latina foram empurrados para as zonas mais pobres, as montanhas áridas ou o fundo dos desertos, à medida que avançava a fronteira da civilização dominante. Os índios padeceram e padecem – síntese do drama de toda a América Latina – a maldição de sua própria riqueza. […] As matanças de indígenas que começaram com Colombo, nunca cessaram [...]” (GALEANO, 2011, p. 76).

Estamos na primeira metade do século XXI e a todo instante percebemos atrocidades sendo cometidas a esta população que, pouco a pouco, vai perdendo cada vez mais espaço diante do avanço desmedido de um modo de vida tipicamente ocidental.

04. Assis-imagem-praia-triste.jpg Imagem via Francisco de Assis

Esta semana uma cena chocou o mundo quando Aylan Kurdi, um garoto de apenas 3 anos, foi encontrado morto na praia de Ali Hoca, em Bodrum, na Turquia. Sua mãe e seu irmão, entre outros, também morreram, numa travessia que tinha como destino a ilha grega de Kos.

05.imagem-garoto-praia-set2015.jpg HA Hellyer/Twitter/Reprodução

Sobre este triste episódio, tão difícil de assistir, de ver a imagem e até mesmo de comentar algo a respeito, eu deixo o poema do professor e escritor Assis Morais Guarani Kaiowá (2015), que em poucas palavras diz muito sobre todo o ocorrido.

Terra Amor ao mar Amor à terra Terra e terror Quem não consegue enterra! Ter ramos no chão Ter sonhos no ar Já ter não Só agora descansar Quantas histórias não serão contadas Enquanto alguns contam milhões Eles só dados frios e sem emoções E algumas crianças dados e negados Num mar de egoísmo e intolerância afogados Chorei com quem devia nos fazer sorrir Quando será que esses muros irão cair? Aos inocentes em um mundo culpado> (Assis Morais Guarani Kaiowá)

06. siria-refugiado-europa.jpg Imagem por Chappatte. (© Chappatte in The International New York Times)

Ainda sobre o acontecimento anterior, convém pensar se seria esta a prova que nos faltava para atestar que vivemos numa sociedade doentia; e os seres que nela vivem e sobrevivem também estão adoecendo. O historiador francês Marc Ferro reflete a respeito dessa questão, ao perceber os diversos sintomas que parecem ser ignorados pela humanidade e que acarretam em cenas como as da praia na Turquia e outras semelhantes. “Quando dizemos que nossas sociedades estão doentes, essa afirmação poderia ser tomada ao pé da letra, pois é evidente a ligação entre o estado de saúde das populações e os efeitos perversos, de todo tipo, do progresso” (FERRO, 2008, p. 88). A questão agora talvez seja outra, mais pragmática: tem solução? Tem cura? Será que chegamos a um ponto que nos coloca em rota de colisão?

07.imagem-maurício-texto.jpg Imagem via Maurício Ramonnd

O também professor e escritor Maurício Ramon Ramonnd escreveu um breve ensaio a respeito dessa necessidade humana urgente (urgência esta notada desde a primeira metade do século passado): a reinvenção de nós mesmos enquanto seres coletivos, em contato com o outro (seja este outro animal ou planta) e com o mundo (ou seja, do modo de vida que levamos e daquele que ainda queremos). Para além de questionar o "refugo ou lixo humano" – como o sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisa em "Globalização - as conseqüências humanas" (1999) e em "Vidas desperdiçadas" (2005), ao tratar dos imigrantes e refugiados na Europa –, há nas palavras de Maurício uma análise também abrangente, que nos questiona sobre o significado e o sentido do progresso na história da humanidade – como bem reflete o historiador francês Marc Ferro em suas obras "As sociedades doentes do progresso (1998) e "O século XX explicado aos meus filhos" (2008).

A CIVILIZAÇÃO MORREU NA PRAIA E/OU AMARRAMOS A CIVILIZAÇÃO NUM POSTE Prof.: Maurício Ramon dos S. Oliveira (Mestre em Ciências da Educação pela e doutorando em Gestão Ambiental pela USC. E-mail: [email protected])

“No combate à violência ignoramos a desigualdade social e criamos lógicas perversas de punição aos pobres. Amarramos a civilização num poste, atamos as suas mãos com um cadeado de bicicleta, infligimos sobre o seu dorso, com uma série de pauladas, uma sentença que imediatamente nos transportou, à passos largos, em direção à barbárie. Contudo, o que mais me assusta é a falta de uma consciência “ecológica-sustentável” das consequências das nossas ações, posto que, reitero, estamos caminhando em direção a barbárie e talvez ainda não tenhamos nos dado conta disso". A “civilização” reproduziu ontem, dia 02 de setembro de 2015, numa praia da Turquia, mais uma cena primitiva, bárbara e chocante. “Aylan Kurdi, um menino de 3 anos, morreu em busca da vida, fugindo da guerra, do Estado Islâmico e da fome” (JORNAL EXTRA, 2015). Todavia, é-se preciso entender que existe uma relação íntima entre Aylan, as crianças brasileiras que vivem em situação de vulnerabilidade social e os adolescentes que foram, em nossas praças, atados a postes com cadeados de bicicleta... A nossa descrença no projeto moderno de sociedade, em suas instituições e, consequentemente, em sua capacidade de promover o bem-estar social. Então, quer dizer que o projeto moderno de civilização foi amarrado a um poste e morreu indefeso na praia? Ao que parece, sim, posto que, para além do discurso rápido sobre a intolerância e a violência, responsáveis pela condução do corpo desfalecido do pequeno Kurdi até uma praia turca e – no que se refere diretamente ao nosso quintal – dos debates superficiais sobre a ocorrência dos linchamentos; precisamos compreender, a partir do prisma do esvaziamento do humano, às complexas lógicas de repressão as minorias e de punição dos pobres. Tudo isso porque soerguemos uma sociedade na qual ser diferente é muito ruim e ser diferente e pobre é ainda pior. Contudo, o que mais tem me incomodado não são necessariamente às lógicas perversas de punição das minorias, mas sim a nossa apatia diante dos referidos casos; a indiferença com o sofrimento do próximo; a falta de uma defesa mais clara, mais incisiva de um projeto “ecológico-sustentável” de civilização e, consequentemente, a “valoração-legitimação” da barbárie. O que talvez seja resultado de um processo de diluição das grandes utopias, corporificado nos cartazes empunhados por manifestantes que acreditam que o comunismo come criancinhas e que Marx, sim, Karl Marx, é o responsável pelo petralão. Conquanto, se por um lado, amarramos a civilização num poste, se essa parece ter morrido indefesa numa praia turca, se as grandes utopias morreram e se, por conseguinte, estamos esvaziando o humano, por outro, como um bom romântico, acredito que tudo isso seja uma grande oportunidade para que possamos reiniciar; criar um projeto mais ecológico-sustentável de sociedade; reinventar o que somos, rever as nossas concepções de mundo, logo, as maneiras pelas quais nos vemos e agimos diante de problemáticas sociais-identitárias que têm se tornado, cada vez mais, complexas. E, para tanto, não podemos perder a capacidade de nos indignar diante do desrespeito a vida, porque é no silenciamento, na indiferença, na imposição do consenso, na falta de um projeto, de uma utopia de mundo melhor que se matam crianças e que se constroem e legitimam tiramos e ditaduras.

08. mafalda_mondo3.jpg Mafalda, por Quino.

“O medo do futuro substituiu a esperança no progresso. Não será porque os progressos da ciência, da técnica parecem não ter mais sentido. O sentido. Para esse termo, a língua russa utiliza duas palavras: znachenie, isto é, o significado, e pravlenie, ou seja, o futuro. Como se todos os “progressos” tivessem retirado esses sentidos da história” (FERRO, 2008, p. 89).

As colisões podem trazer muita tragédia e tristeza, mas delas também podem surgir novas perspectivas, novos caminhos, novos horizontes. Eduardo Galeano (2011, p. 396) bem ressaltou: “na história dos homens cada ato de destruição encontra sua resposta, cedo ou tarde, num ato de criação”. Esperamos que as cenas transcritas acima possam logo estar entre os atos de criação descritos por Galeano, uma lembrança para não se cometer o mesmo erro. Como um aviso de alerta em todas as portas deste mundo: “Cuidado ao sair: não deixe sua humanidade trancada em casa”.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüencias humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

_________. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília/DF: Senado, 5 out. 1988.

EL PAÍS. Os índios que não fazem aniversário. El País – Especial Saúde Indígena, ago. 2015.

FELLET, João. A cada 100 índios mortos no Brasil, 40 são crianças. BBC Brasil, fev. 2014.

FERRO, Marc. As sociedades doentes do progresso. Lisboa, Portugal: Instituto Piaget, 1998.

_______. O século XX explicado aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

GAMA, Aliny. Assassinatos de índios crescem 130% em 2014, aponta relatório. UOL notícias, jun. 2015.

MORAIS, Francisco de Assis Souza. Terra. Poema publicado na página pessoal do autor no facebook., set. 2015.

OLIVEIRA, Maurício Ramon dos Santos. A civilização morreu na praia e/ou amarramos a civilização num poste. Ensaio publicado na página pessoal do autor no facebook, set. 2015.

SANTOS, J. D. A. Humanidade e outros pensamentos. Aracaju/SE: J Andrade, 2012.


José Douglas Alves dos Santos

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