desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

você, ficaria?

Uma pergunta pertinente para nossos tempos: você, ficaria em um lugar destruído pela guerra? Onde seus amigos e familiares foram mortos – ou a qualquer momento podem morrer de forma violenta e trágica - vítimas de ataques aéreos e terrestres, vítimas da opressão humana. Você, ficaria?


01.cebcceb51.jpg Imagem por Urduri (2014).

“Taí a razão da imigração síria. O país está sendo destruído pelos interesses petroleiros dos impérios ocidentais. Como foi a Líbia, o Iraque e tantos países que deram o azar de estarem situados sobre grandes depósitos de petróleo. Estes tiveram sua religião e suas etnias árabes estigmatizadas, desqualificadas e criminalizadas pelos impérios de comunicações, sempre comerciais, privados, sempre no apoio aos crimes contra a humanidade cometidos pelo planeta afora por esses mesmos poderes financeiro-empresariais. Um punhado de vampiros da humanidade, parasitas dos povos a partir do controle dos poderes públicos, cria e mantém essa estrutura social, com seu esmagador poder econômico, político e midiático. Uma estrutura que mercantiliza tudo, até sentimentos, que sabota a instrução na intenção de manter as populações ignorantes, que domina as comunicações na intenção de manter as populações desinformadas, de conduzir a opinião pública, desarmada, na direção que interessar, usando psicologia do inconsciente e alta tecnologia e penetração social. Crimes claros que passam despercebidos pelas manobras do poder real, acima das instituições. Por outro lado, essa movimentação de massas sobre o planeta causa o encontro, a mistura, o amalgamento de culturas, etnias, conhecimentos, de uma nova humanidade que está se gestando, se desenvolvendo, na evolução permanente de todas as coisas. Na incapacidade de compreensão mais profunda, tenho o dever de me posicionar de acordo com minha precária consciência, trabalhando na lapidação interna e cambiando atitudes de acordo com as mudanças de consciência. Viver a normalidade é se acumpliciar com essa estrutura social que estimula o confronto, a disputa, o egoísmo, a indiferença com o sofrimento espalhado sobre milhões e milhões. Uma estrutura injusta, perversa, covarde... e suicida” (Eduardo Marinho)

01. 150131-syria-kobani-12a_c5a37372cb747317e6fbad77d9eadfeb.nbcnews-fp-1200-800.jpg Musa, 25, homem curdo, olha de cima de um prédio a cidade síria de Kobane, conhecida, também, como Ain al-Arab, destruída pela guerra. Janeiro, 2015. By Bulent Kilic /AFP - Getty Images

"Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça num movimento de recusa." (Arthur Schopenhauer)

A globalização trouxe consequências perversas à boa parte da população mundial – e ainda continua, a todo vapor, o seu fluxo de perversidades. Em especial, nos países chamados pelos "líderes mundiais" de “terceiro mundo", "subdesenvolvidos", "periféricos", este efeito é mais perceptível, com o uso e abuso dos recursos naturais e humanos promovidos pelos países conhecidos como “primeiro mundo", "desenvolvidos", "centrais", tudo em nome do progresso. “...'Sempre mais', alguém escreveu...fora do Ocidente, os dramas vividos por populações inteiras – na África, em Bangladesh e outros lugares – demonstram que a melhoria da qualidade de vida dos mais infelizes – que, entretanto, é possível – permanece ilusória” (FERRO, 2008, p. 88).

A globalização em larga escala, se trouxe benefícios às pessoas, deixou também tantos outros sem terras, sem comida, sem abrigo, sem água, sem lar. Não contentes, os “donos do mundo” ainda se empenharam em deixar, mesmo sem muito sucesso, estes sujeitos (vítimas de seus progressos) sem história, sem identidade, sem memória, sem vida. Relegados ao lixo; confundidos com o próprio lixo. Tratados feito lixo.

Os produtos rejeitados da globalização – refugiados, pessoas em busca de abrigo, imigrantes – (BAUMAN, 2005), são a notícia de destaque no cenário atual. Sua situação é agora veiculada e comentada, as pessoas passam a ter mais informação (algumas mais conhecimento) sobre os casos, sendo confrontados com a realidade de um mundo “desconhecido”, acostumadas a ver tais cenas em representações cinematográficas, seriados de TV ou jogos online. Parece impossível para alguns acreditar que no mesmo mundo em que eles costumam passar a semana e os fins de semana entre shopping centers, igrejas, escolas e locais de trabalho, haja tantos atos cruéis e desumanos acontecendo. Habitantes rotineiros de um mundo à parte, com seus “carros à prova de bala, com vidros à prova de gente”.

F.UR.T.O. - Ego City

"Bem vindo a Ego City"

“Removemos os desejos da maneira mais radical e efetiva: tornando-os invisíveis, por não olhá-los, e inimagináveis, por não pensarmos neles”, afirma Zygmunt Bauman (2005, p. 38). Os “invisíveis”, estes seres que ocupam, além dos campos de refugiados, também os semáforos, viadutos, casas abandonadas, prédios inacabados, periferias e campos mundo adentro – afinal, como indaga Leonardo Sakamoto (2015, s/p), “o que são favelas e bolsões de miséria senão campos de refugiados econômicos, expulsos do quinhão de direitos que deveriam ser garantidos a todos desde que nasceram simplesmente por pertencerem à humanidade?” –, os invisíveis são um paradoxo: ao mesmo tempo que representam um perigo para aqueles que estão dentro de seus confortáveis automóveis e de suas nem tão assim seguras casas, representam também a comoção, o apelo em relação ao outro até então desconhecido, que passa a ter nome, rosto e localização; passa a ter familiaridade frente à onda de indiferença que assalta nosso mundo contemporâneo. Porque eles são as maiores vítimas das atrocidades produzidas pela ambição humana, as provas empíricas dos diversos estudos sociais, os dados humanizados de todas as estatísticas, os atores e atrizes da vida real.

02. 6set2015---.jpg Grafite em Sorocaba, São Paulo, retrata o menino sírio Aylan Shenu, de 3 anos, encontrado morto em uma praia na Turquia. Nelson Almeida/AFP [imagem editada]

E essa sensação de medo, insegurança, indiferença, cresce na mesma medida em que cresce também o sentimento de identificação com estas pessoas que se aproximam de nós – direta, quando conseguem abrigo em nossos países, ou indiretamente, quando ocupam cada vez mais espaços nas redes sociais e na imprensa. De repente nos percebemos em seus olhares, trajes e trajetos; nos percebemos neles – espelhos para nossa indiferença, reflexos de um mundo que pode estar mais próximo do que podemos imaginar. Estes seres – talvez ainda seja perigoso classificá-los como humanos; pode ser um erro conceitual que a academia nos ensina e obriga a corrigir e reparar – nos fazem se sentir estrangeiros em nossas próprias casas. A tomada de consciência nos eleva enquanto humanos, enquanto seres sociais, culturais, históricos e de direitos.

“De fato, se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização” (SANTOS, 2006, p. 18).

Milton Santos (1926-2001) muito bem descrevia estes três mundos, e sobre “o mundo tal como ele é” e os efeitos tangíveis que assolam milhões de pessoas ao redor do mundo, o geógrafo brasileiro (2006, p. 19) enfatizava que “para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades”. E uma hora este processo teria que ser exibido em rede nacional, exigindo espaço dentro da grade de programação, mostrando-se com mais gravidade que a última rodada do campeonato de futebol e as novas pesquisas sobre preferências governamentais – não há como esconder o "lixo" assim por tanto tempo; por mais que continuem a acumular debaixo do tapete, uma hora alguma criança entra na casa e repara que algo está errado, enquanto os adultos discutem sobre tão pouco. É quando a realidade bate à porta e pergunta: “posso dormir aqui com você?”.

"só porque não está acontecendo aqui, não significa que não esteja acontecendo" Campanha criada pela ONG britânica Save The Children, alertando sobre a situação das crianças na Síria. O vídeo é ambientado em Londres, e aborda o cotidiano de uma menina e como sua vida se transforma após o início de uma guerra. Com isso, o vídeo reflete sobre a situação das crianças na Síria (e em outros lugares) e sobre o impacto da guerra em suas vidas.

"Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido. Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia. Este planeta tem [...] o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes. E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais. Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar. E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma. Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota e a idéia perdeu-se para todo o sempre" (Douglas Adams, 2010, p. 5).

Quantas vezes, ao longo da história da humanidade, estivemos assim tão perto de compreender o que deu errado todo esse tempo e finalmente descobrir como o mundo ainda pode se tornar um lugar bom e feliz? Agora mesmo, quantos garotos e garotas, em diversos espaços sociais (lanchonetes, escolas, em casa, nas ruas...), não estarão compreendendo e descobrindo isto? No entanto, a comoção (inter)nacional parece não durar tempo suficiente para eles e/ou elas possam contar suas descobertas e, dessa forma, evitar uma nova catástrofe provocada pelos homens. A mídia e outras agências do Estado, "seqüestrado pelos mega-poderes banqueiro-empresariais" (MARINHO, 2015, s/p), fazem um trabalho muito eloquente no que diz respeito ao esquecimento e ao emburrecimento geral.

03. Roberto kroll-imagens mundo2.png Imagem: Roberto Kroll.

Ao sermos confrontados com os horrores diários cometidos do outro lado do oceano ou do outro lado de nossa casa – quando não, dentro de nossa própria casa – estabelecemos uma relação que pode facilmente ruir ao fim da última reportagem ou durante as propagandas de mais um novo comercial. Uma relação dúbia: ela preenche um vazio que em pouco tempo se esvazia novamente, necessitando de novos acontecimentos que mais uma vez o preencherão, como um tipo de círculo vicioso.

E neste círculo, os horrores amplamente divulgados pela mídia parecem preencher mais rapidamente este espaço vazio do que os horrores mais próximos, como os moradores de rua que continuam morando nas ruas, ou as crianças no semáforo que continuam trabalhando no semáforo. Seres humanos desprezados à própria sorte, sendo muitas vezes a pauta central dos discursos de governantes e aspirantes ao governo (“país rico é país sem miséria”, e outros do tipo), mas, na prática, quase sempre destinados às margens nas esferas política, econômica e social – “sem as pessoas sobrevivendo em condição de miséria, como poderemos continuar a esbanjar nossa vida de luxo? Quando os que tiram nosso lixo todos os dias descobrirem que eles, para nós, também são lixo, o que faremos? Para manter nossos privilégios é preciso manter o descaso”.

“O horror de uma grande terremoto ou inundação tem muito mais chance de nos estimular à ação que o lento (poder-se-ia dizer imperceptível) aumento da desigualdade em matéria de renda e oportunidades de vida. Um único ato de crueldade tem mais possibilidade de atrair para as ruas uma multidão de manifestantes que as doses monotonamente administradas da humilhação e indignidade a que os excluídos, os sem teto, os degradados são expostos dia após dia. Um ato iníquo de homicídio ou uma catástrofe ferroviária atinge as mentes e os corações de forma mais poderosa que o tributo gotejante, porém contínuo, irresistível e rotineiro, pago pela humanidade na moeda de vidas perdidas ou desperdiçadas diante do monstro da tecnologia e do funcionamento impróprio de uma sociedade cada vez mais blasé, insensível, indiferente e despreocupada, já que consumida pelo vírus da adiaforização. Em outras palavras, uma catástrofe prolongada abre o caminho de sua própria continuação destinando o choque e a indignação iniciais ao esquecimento, e assim enfraquecendo e fragilizando a solidariedade humana em relação a suas vítimas – e portanto minando a possibilidade de que se unam forças com o objetivo de evitar que haja outras vítimas no futuro” (BAUMAN, 2014, p. 56).

A humanidade parece não aprender com seus erros… Depois desse contexto geral, faço novamente a pergunta: você ficaria em um lugar em ruínas, que não apresenta perspectivas para o futuro, onde a sensação deve ser de estar mais próximo da morte do que de uma vida plena e feliz (como nos acostumamos a acreditar e a sonhar)? E é errado fugir quando nada mais lhe resta? É certo condenar quem tenta sobreviver? Quantas vezes você já passou por uma situação-limite em sua vida? Imagine passar por isso cotidianamente...

É provável que esta não seja a melhor maneira de provar que “Deus está vindo” – se ele vem, é bem possível que venha com colete à prova de bala e um exército armado para pelo menos se aproximar das fronteiras “inimigas”, num ato de caridade exibido ao vivo pelas principais emissoras e canais de informação, enquanto seus apóstolos fiéis, donos de grandes corporações e mandatários de diversos governos, estudam onde realizar novos investimentos a curto, médio e longo prazo, enquanto calculam os lucros momentâneos advindos da visita de Deus por estas terras. Em Wall Street isto seria uma grande festa. Todavia, nem a fé cega talvez seja capaz de fazer uma pessoa se manter num ambiente tão inóspito, caótico e horripilante, dormindo sob pesadelos, acordando sobre realidade, andando em escombros, pisando em sonhos, “dançando no campo minado”.

Engenheiros do Hawaii - Dançando no Campo Minado

Para finalizar, deixo abaixo um poema, escrito entre 2011 e 2012, que vem a calhar com o atual cenário contemporâneo.

PERTO DE NÓS J. Douglas Alves (2012, p. 103)

Ouvi dizer que o mar Estava coberto de peixes mortos, Que as crianças mergulhavam em sangue, Que uma mãe chorava em prantos.

Descobri que o mar Estava repleto de corpos, Que as crianças se afogavam E que uma mãe gritava por socorro.

De repente este é o mundo Em que eu cresci; Tão poluído e horroroso, Tão perto de mim.

Ouvi dizer que as árvores Estavam todas deitadas no chão, Que a neve descongelava, Que ninguém dava atenção.

Fiquei triste quando vi Os pássaros voando em desatino, O fogo queimando a floresta E o homem com seu cigarro apenas rindo.

De repente este não é o mundo Onde eu nasci; Tão feio e doloroso, Tão longe de mim.

Descobri que o mar Estava repleto de corpos, Que as crianças afundavam, Que ninguém prestava socorro. Fiquei triste quando vi Pássaros voando perdidos, O fogo aumentando E o homem contando seu dinheiro e apenas assistindo.

Referências

ADAMS, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias – Até mais, e obrigado pelos peixes! Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

BAUMAN, Zygmunt; DONSKIS, Leonidas. Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

FERRO, Marc. O século XX explicado aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

MARINHO, Eduardo. Estrutura violenta, violência geral. Observar e Absorver, 22 jul. 2015.

SAKAMOTO, Leonardo. Crise dos refugiados e a nossa solidariedade seletiva. Blog do Sakamoto, 13 set. 2015.

SANTOS, J. D. A. Humanidade e outros pensamentos. Aracaju/SE: J Andrade, 2012.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2006.


José Douglas Alves dos Santos

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