desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Déficit de Atenção

O Déficit de Atenção, também conhecido por TDAH, segundos os especialistas é um transtorno de causas genéticas, geralmente percebida na infância e que acompanha o indivíduo por toda sua vida. Não sou nenhum especialista da área e não é sobre este Déficit de Atenção que trata o texto a seguir.


01. Você pode me ver.jpg Imagem do filme “O Substituto” (Detachment, 2011, de Tony Kaye). Na cena, o personagem interpretado por Adrien Brody vê um sujeito parado, segurando em uma grade, e resolve aproximar-se dele, perguntando: – Você está bem? – O que? Você consegue me ver? Consegue me ver parado aqui? – pergunta surpreso o sujeito. – Sim, eu posso te ver. – responde Adrien. – Oh, Deus, isso é tão cruel. Obrigado. Obrigado. – diz ele. [Confira a cena (56:45min-57:27min) e o filme completo clicando aqui]

Segundo Jorge Furtado (1989), “Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha, principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor”. Estas duas características permitiram ao homem “armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las” e, com “a manipulação de precisão” possibilitada pelo polegar opositor, “realizar um sem número de melhoramentos em seu planeta”, desde plantar tomates a criar bombas atômicas, como bem demonstra o diretor.

Além de plantar tomates e produzir bombas atômicas, o polegar opositor permitiu aos seres humanos investir em uma prática cultural cada vez mais frequente: a comunicação à distância – e essa distância é, muitas vezes, menos espacial e mais relacional (às vezes, a pessoa ao seu lado pode estar mais distante de você do que alguém do outro lado do oceano).

02. calcadas2.jpg A Calçada exclusiva para viciados em celular “Para evitar acidentes, A Cidade Chinesa Chongqing, foi à primeira cidade no mundo a criar a calçada para viciados em celular. É isso mesmo. Com mais de 50 metros de comprimento, o espaço foi inaugurado para lembrar as pessoas, que é mais seguro caminhar sem mexer em nenhum dispositivo móvel. O Corredor é parecido aos criados para os ciclistas e está dividido entre faixas de ‘’ Celulares NÃO’’ entre outras. Na China, 80% dos nativos são viciados em celular, de acordo com um site chinês de Recursos Humanos. Em Washington, nos Estados Unidos foi feito algo semelhante, que fazia um experimento com esse tipo de faixa. E acabaram atraindo cadeirantes, ciclistas, mães com carrinhos de bebê e outras pessoas tirando fotos com Smartphones. Um fato curioso, é que algumas pessoas não chegaram a notar que existia a faixa exclusiva no chão, por estarem distraídas demais com seus celulares.” Fonte: Extra.

Nestes dois últimos decênios acompanhamos uma evolução incrível das tecnologias e de como elas vêm modificando a forma como nos relacionamos com as outras pessoas. O polegar opositor, neste processo, ganhou ainda mais centralidade, uma vez que ele talvez seja, para muitos, a parte do corpo humano mais utilizada em nossos dias.

03. Riva del garda ,Lago di Garda, Italy 05.09.2014.jpg Riva del garda, Lago di Garda, Italy 05.09.2014. Imagem via: We Never Look Up “Depois do surgimento dos smartphones, em 2007, foi criado o termo phubbing (juntando as palavras phone e snubbing, de esnobar), que significa ignorar alguém para ficar olhando o celular. Outra palavra recém-criada é nomofobia, medo de ficar sem celular. Em média olhamos para o smartphone cerca de 150 vezes por dia. Entre os espanhóis, 87% andam com ele durante as 24 horas do dia e 80% confessam que a primeira coisa que fazem ao despertar é olhar o celular, segundo relatório da Sociedade da Informação na Espanha, da Telefônica. “Os norte-americanos já descreveram uma síndrome de abstinência do celular”, afirma Sergi Vilardell, diretor terapêutico da Clínica Cita. “A reação fisiológica do corpo de um viciado quando não está com o celular é similar à de quem precisa das drogas ou necessita apostar num cassino: fica nervoso, sofre de taquicardia, começa a suar”, acrescenta Vilardell. [...]”. Leia a matéria completa em: Viciados em celular, por Andrés Aguayo (El País).

E é nesta cultura que nascem as crianças contemporâneas. Muitas delas parecem ter saído das histórias de quadrinhos, dos romances ou dos filmes mais mirabolantes que as grandes mentes podem criar, tamanha a facilidade com que se adequam a este meio. Desde a mais tenra idade, elas têm uma habilidade notável na manipulação dos recursos tecnológicos, como se já nascessem alfabetizadas digitais. Todavia, quando pensamos no quanto menos contato elas estão tendo com outras crianças e o tempo cada vez maior que passam em frente a telas de computadores e outros aparelhos, como os celulares, notamos também uma preocupante evolução que incita a conectividade, mas não a conexão.

04. filme - look up.jpg Imagem do curta-metragem “Look Up” (Look up, 2014, de Gary Turk). Veja o filme completo clicando aqui.

Isso gera, para muitos jovens e adultos contemporâneos, algo que poderíamos chamar de Déficit de Atenção. O outro – este outro ser humano, ou outro ser vivo – é menos visto, ouvido e reparado. Cria-se uma cultura que atribui pouco valor ao outro (aos seus sentimentos, às suas dores, à sua situação, tema tão bem desenvolvido por José Saramago em seu “Ensaio sobre a cegueira” e também problematizado por Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis em “Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida”, por exemplo), ao mesmo tempo em que parece se elevar a preocupação com o eu, com o nosso ego – é preciso ser cada vez mais visto, curtido, comentado e compartilhado. No egocentrismo nosso de cada dia, o outro só vale o tempo e atenção de mais uma selfie.

05. cinismo-ilustrado-1413237413268.jpeg Imagem via: Cinismo Ilustrado.

Os ambientes de socialização – escolas, praças, parques, espaços públicos para atividades físicas e de lazer – são com frequência substituídos pelos ambientes virtuais de socialização, interação, comunicação e informação. Como criar uma conexão com outras pessoas e com o próprio mundo se para me sentir próximo a estas pessoas e a este mundo eu necessito estar conectado por algum tipo de aparelho? Não é assim que funciona na relação homem-homem, homem-natureza e homem-mundo. Ainda não criaram nada mais efetivo para sentir o chão que pisamos e tocamos do que nossos pés e mãos; da mesma forma que ainda não criaram (creio eu, apesar das inúmeras tentativas) algo mais efetivo (e afetivo) para se conectar com outra pessoa do que olhá-la nos olhos, face a face, e senti-la bem perto, tocando sua pele, pelo tato (o toque, primordial em qualquer relação). Entretanto, conforme avalia Juhani Pallasmaa, em “Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos”, a visão e a audição – sobretudo a visão – são percebidas como os sentidos socialmente privilegiados de nossa época e cultura.

06. phone-whale_3188738b.jpg Foto por Eric Smith. Em fevereiro deste ano, o fotógrafo Eric Smith registrou uma cena no mínimo emblemática: em Redondo Beach, na Califórnia, enquanto um rapaz está dando atenção ao seu celular, ao seu lado, a apenas poucos metros de distância, uma baleia e seu filhote imergem da água (na imagem vemos apenas um dos animais). "He could have been texting his mom in the hospital for all I know, but I thought it sucked that he missed such a wonderful moment happening just two feet in front of him. We're all guilty being buried in our phones, even me," Smith said. "You think life is better on your phone, but we’re missing what’s happening around us”, afirmou Smith em entrevista à ABC News. Até onde eu sei, ele poderia estar mandando mensagens para sua mãe internada no hospital, mas achei uma pena ele ter perdido um momento tão maravilhoso acontecendo a um metro de distância, na frente dele. Somos todos culpados de vivermos enterrados em nossos telefones, eu também. Você acha que a vida é melhor em seu telefone, mas estamos perdendo o que está acontecendo ao nosso redor”.

Por meio das mais diversas redes sociais, o Homo sapiens passou a se relacionar com mais frequência à distância e a se conectar sem, de fato, manter uma conexão. A cultura do medo (tão bem descrita por Eduardo Galeano e Mia Couto) é outro fator a incentivar a distância (me sinto mais seguro dentro de casa, e ainda posso comprar o que preciso e me relacionar com tantas pessoas que, fora de casa, eu não iria conseguir). Sem contar que isso também amplia e aprofunda o cenário descrito pela literatura e pela filosofia (ver: Edgar Allan Poe, Dostoiévski, Baudelaire, Benjamin, Paul Valéry, Heidegger, entre outros) do “homem na multidão” que em determinado momento sente-se sozinho, mesmo cercado por várias pessoas. Agora essa sensação acomete as pessoas quando elas se “desconectam”, quando desligam seus computadores e se encontram consigo mesmas.

07. Talia Wolf.jpg Imagem via: Talia Wolf.

A sensação de estar sozinho não é necessariamente algo ruim, na verdade, como bem ressaltou o ator argentino Ricardo Darín, em entrevista ao programa "Sangue Latino", do Canal Brasil: "Por alguma questão ocidental, fomos empurrados a acreditar que a solidão é um inimigo. Então, permanentemente, os seres, seja como for, custe o que custar, tentamos não ficar sozinhos. E perdemos uma grande oportunidade. O diálogo interno, a reflexão, a meditação, a investigação de nós mesmos, enfrentar nossos próprios medos, inclusive nossas certezas, quase sempre ocorrem em atmosferas de solidão". Acontece que estar só é diferente de se sentir sozinho, e este talvez seja um dos grandes problemas do homem (pós)moderno.

08. E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo (Albert Camus).jpg “E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo.” (Albert Camus). Imagem do filme “O Substituto” (Detachment, 2011, de Tony Kaye).

E outro grande problema é justamente o Déficit de Atenção – que também poderia ser traduzido como Indiferença – que acompanhamos ao sair de casa ou quando simplesmente nos desconectamos dos ambientes virtuais em espaços públicos. Nestes momentos, somos confrontados com uma realidade que foge às aparências mantidas pelas redes sociais; e somos também lembrados de que a convivência requer de nós duas coisas básicas: tempo e atenção (algo que parece ser tão raro de encontrar longe das telas brilhantes de nossos aparelhos).

Cinismo Ilustrado.jpg Imagem via: Cinismo Ilustrado.

Para um observador atento, como é o caso do diretor chinês Xie Chenglin, a manutenção desse modo de vida pode gerar graves consequências. Se comecei minha reflexão citando o curta-metragem “Ilha das Flores” (1989), do brasileiro Jorge Furtado, finalizo compartilhando o curta de Xie Chenglin, produzido em 2014 e que resume as questões abordadas neste texto.

Vida curvada” (低头人生, 2014) O diretor Xie Chenglin assim descreve seu trabalho: “Ficar curvado se tornou um resultado da ciência moderna e desenvolvimento da tecnologia. As pessoas olham para seus celulares e tablets high-tech e focam apenas na própria palma da mão, gradualmente se alienando da boa vida e dos arredores. “A vida curvada” é uma tentativa de usar humor negro para descrever o status quo social e refletir sobre o assunto.”

09. Vida é aquilo que se passa enquanto você olha o celular.jpg “Vida é aquilo que se passa enquanto você olha o celular”. Imagem via: Cinismo Ilustrado.


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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