desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

POR MAIS “MESSIS” NAS SALAS DE AULA

Comparar os(as) discentes com jogadores, os(as) docentes com árbitros e treinadores, a escola com o campo de futebol. Esta reflexão surgiu de uma situação pedagógica concreta e tem o intuito de dialogar a partir dela.


messi. via - httpdoentesporfutebol.com.br.jpg Lionel Messi

Existe algo, no futebol, mais irritante do que jogador que fica reclamando com o árbitro quando ele marca uma falta ou mostra um cartão? Será mesmo que ele acredita que o juiz da partida vai ceder às suas reclamações? Nessas horas, é comum nos perguntarmos: “Por que esse filho da mãe não se concentra naquilo que está sendo pago para fazer, ao invés de querer apitar o jogo?”. Seria muito mais prático para todos (clube, torcedores, os próprios árbitros) se este tipo de jogador parasse com isso e simplesmente jogasse bola.

Uma situação que vivenciei em sala de aula com os(as) discentes me fez pensar nesta atitude dos jogadores que mais reclamam do que jogam. Conto brevemente a situação que me ocorreu: entro na sala de aula, de uma turma de graduação em Pedagogia, saúdo os(as) presentes e então lhes digo que faremos uma avaliação surpresa. Antes mesmo que soubessem se seria uma avaliação escrita ou não, começou o coro: “Não, isso não existe!”; “Você não pode fazer isso”; “Como assim, prova?!”; “Sem nem avisar!?”; “Assim não vale, professor”; entre muitos outros “argumentos” e/ou “justificativas” para que a avaliação não fosse realizada (interessante notar como os alunos ressignificam a palavra “avaliação”. Parece que para 99% deles será sempre uma espécie de prova escrita; não lhes vem à cabeça que avaliação é um termo bem mais abrangente e que não se reduz a meras respostas numa folha de papel).

Foi neste cenário que me veio à mente a imagem dos jogadores de futebol que gostam tanto de reclamar com o árbitro durante os jogos. Se, com estes últimos, esperamos que parem de reclamar antes que tomem um (ou outro) cartão e se concentrem na partida, com os(as) alunos(as) algo semelhante pode ser pensado: "Por que não param de reclamar e se concentram na aula, naquilo que estão ali para fazer?". Seria tão mais fácil para todos (nós, docentes, e para eles mesmos).

No momento em que tal cena ocorreu, percebi que nem todos(as) da turma se exaltaram e ficaram reclamando. Nessa hora, me lembrei daqueles raros jogadores que preferem jogar seu jogo e deixar o juiz também jogar o seu (que é apitar a partida). Um desses jogadores que costuma fazer isso (se concentrar no que está ali para fazer e naquilo que pode fazer) é aquele que já foi cinco vezes considerado o melhor do mundo (e para muitos, um dos melhores de todos os tempos): Lionel Messi. Dá gosto de ver o argentino jogando, tanto pela sua genialidade quanto pela sua atitude em campo. Ele não é aquele tipo de jogador “cai-cai” e nem tampouco fica querendo apitar a partida. Ele está ali para mostrar seu jogo, para jogar com o time, e apenas isso (o que, convenhamos, faz e muito bem). E nos interessa nessa comparação com os(as) estudantes não a genialidade dele, mas justamente a sua atitude.

Se a gente sabe que no futebol, hoje em dia, é muito difícil de encontrar um “Messi” (tanto em relação a genialidade, quanto em atitude), numa sala de aula não é diferente (talvez seja até mais difícil). Seria ótimo para qualquer docente entrar numa sala e ter seus cinquenta (às vezes menos, às vezes mais) discentes esperando-o para mostrar suas habilidades e tentar surpreendê-lo, concentrados na aula e nas atividades formativas desenvolvidas durante o processo. Neste cenário, o(a) professor(a) se aproxima da figura do árbitro (ele “apita” a partida, faz a aula prosseguir) e também do treinador (ao mesmo tempo em que apita, ele está avaliando seus jogadores, seus alunos e alunas, na expectativa de verificar se todos estão conseguindo mostrar “serviço” dentro de campo, durante as aulas).

Mas tanto no futebol com na Educação escolar, encontrar “Messis”, “Zicos”, e outros exemplos semelhantes, não é tarefa das mais fáceis. Não esperamos que uma sala de aula seja composta por cinquenta “Messis”, no que diz respeito à sua genialidade. Porém, desejamos, em relação à atitude, que os alunos e as alunas se aproximem mais de seu exemplo. Esperamos que a prática da escuta e do envolvimento se faça mais presente, evitando esse tipo de situação que me ocorreu. No lugar de reclamarem por uma avaliação surpresa, os alunos(as) poderiam ver aquilo como um estímulo, como um desafio, como uma auto-avaliação, deixando de lado o medo de estar errado, despreparado. Até porque o medo de estar errado nos restringe de confrontarmos nossas próprias ideias, nossas próprias “verdades”; e a ideia de despreparo não concebe o processo educativo como ato contínuo, em que a formação acontece antes, durante e após o trajeto, e que não há formação que nos prepare 100% para o exercício docente em suas mais distintas realidades e circunstâncias. Experimentar mais, experimentar-se mais, acreditar no potencial criativo de si mesmo(a), pensar a sala de aula não com a concepção de algo dado, pronto e acabado, mas como um espaço de vidas em movimento, em relações, em aprendizagens. Um espaço em constante formação.

No processo de ensino e aprendizagem, assim com ocorre no futebol, em que os jogadores atuam em diferentes posições e cada um assume o protagonismo em momentos distintos, todo(a) discente tem suas peculiaridades e desenvolve habilidades a mais (ou mais rapidamente) do que outro(as), atuando ativamente em algumas atividades e ganhando protagonismo em momentos específicos. Infelizmente, é muito comum encontrarmos escolas que queiram enquadrar os alunos e as alunas dentro de sua estrutura hierarquizada e hegemônica, que admite apenas uma resposta como a correta e não busca articular os caminhos e saberes presentes no mesmo espaço, não favorecendo o diálogo e sequer a comunicação entre docente-discente e discente-discente – e assim se gera o medo de estar errado, de não acertar, do castigo, da bronca, da humilhação, da frustração consigo mesmo, pois desde cedo eles(as) aprendem que o mais importante é saber aquela resposta, e quando não sabem são logo taxados(as) de inferiores, fracassados(as), inúteis, “burros” e “burras”. Neste sentido, quem pensa “fora da caixa”, quem questiona a resposta e a pergunta, a forma como a pergunta é feita, muitas vezes acaba sendo excluído, deixado no “banco de reservas” ou sequer é selecionado para o “jogo”.

Todavia, convém ressaltar que se queremos ter mais alunos(as) “Messis”, em relação à atitude nas salas de aulas, ele(as) também esperam de nós outras atitudes, outras posturas, também esperam que mudemos, e não apenas lhes indiquemos mudanças. Eles querem, por exemplo, que sejamos professores(as) dos tipos “Guardiola” (que tenhamos um olhar panorâmico e mais criativo sobre o processo de ensino e aprendizagem) e “Muricy Ramalho” (realmente compromissados com nosso trabalho cotidiano). Claro, estes treinadores citados recebem um salário equivalente à sua função e também têm condições materiais adequadas para exercerem seu trabalho – o que nas escolas se configura como requisito básico: professores bem pagos e salas de aula bem equipadas e com os equipamentos em funcionamento.

Devemos também considerar que existe uma diferença óbvia entre o campo de futebol e a sala de aula. No campo – em todos eles, desde os mais sofisticados estádios europeus aos campinhos improvisados no meio da rua – se pratica uma arte (a arte de jogar futebol, de “brincar de bola”), e mesmo que os espaços sejam pequenos ou inadequados, os artistas da bola dão um jeito. Já na sala de aula, os espaços reservados às artes e brincadeiras são (cada vez) mais restritos. Diante da estrutura física das escolas (em muitos casos tão semelhantes aos presídios de segurança máxima, onde os alunos além de “detidos” estão sendo “vigiados”) e de sua organização curricular (que prioriza um ensino pautado no acúmulo de assuntos a serem memorizados para uma prova de vestibular), percebemos que os espaços para que os artistas do processo educativo – tanto docentes quanto discentes – pratiquem e manifestem sua(s) arte(s) é quase inexistente.

Outro ponto que devemos levar em consideração é que o técnico de um time de futebol toma conta em média de vinte e dois atletas, e sua preocupação maior está centrada naqueles onze titulares que entrarão em campo para o jogo. Na sala de aula, não importa se com trinta, quarenta, cinquenta ou mais estudantes, o(a) professor(a) “deve” tomar conta de todos, porque todos estão ali na posição de “titulares” (a responsabilidade é muito maior). E deste ponto ainda se desdobra outro: o treinador tem uma comissão técnica que o ajuda a planejar o time, a pensar o esquema tático, a lidar com os jogadores, a ter uma noção mais exata do nível de desenvolvimento de cada um, dando um suporte necessário. Enquanto nas salas de aulas, nós docentes temos a ajuda e o suporte de quem?

Ao pensar o contexto da sala de aula tendo como parâmetro o contexto do futebol, posso estar recorrendo a uma comparação tola, desproporcional e até inconsequente. Entretanto, não busco demonstrar com minhas palavras alguma “verdade” ou opinião que não possa ser criticada (e se possível, problematizada). Meu intuito foi de refletir diante de uma situação pedagógica concreta. Olhar e pensar a Educação (em especial a Pedagogia) por outros ângulos, buscando novas interpretações para (velhos) problemas do fazer docente. E, dessa forma, permitir ao texto uma abertura que promova o diálogo, deixando o(a) leitor(a) à vontade para concordar ou discordar, e principalmente para contribuir na reflexão.


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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