desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

ABERTA A TEMPORADA DE CAÇA AOS CULPADOS

De quem é a culpa pela insegurança que assola boa parte do Brasil? Enquanto a mídia hegemônica aponta os culpados entre as vítimas, a fonte do problema permanece encoberta pelos discursos (re)produzidos cotidianamente.


01. pense alem daquilo que te cega bfdgfs.jpg Essa imagem faz parte da capa do disco “Além daquilo que te cega”, da banda mineira Pense

Durante o período de 27 a 29 de junho, estive no sul do Brasil, mais precisamente na cidade universitária de Santa Maria/RS e na capital gaúcha, Porto Alegre – onde o assunto da vez era a segurança (ou, melhor dizendo, a falta dela); o medo e a desconfiança podiam ser facilmente percebidos no comportamento da maioria das pessoas, bastava me aproximar para pedir alguma informação ou tentar uma conversa (não foram poucas as pessoas que mudaram de direção quando eu fui ao encontro delas).

Para ilustrar melhor a cena, um exemplo: eu estava no "Parcão" (o Parque Moinhos de Vento) e queria ir ao centro de Porto Alegre, na rua dos sebos (ou Beco dos Livros), e avistei uma guria, cabisbaixa, indo em direção ao ponto de ônibus. Não tinha ideia de como chegar até lá, por isso pensei em pedir sua ajuda. No momento que ela notou minha aproximação, apressou os passos. Eu então disse: "Moça, uma informação, por favor", e ela sequer olhou pro lado, apenas continuou andando mais depressa. Ao perceber que eu continuava seguindo a mesma rota, virou repentinamente, tentando retornar de onde vinha; foi quando cruzei seu caminho e, com calma e todo cuidado possível, lhe disse: "Oi, boa tarde, me desculpe, mas eu só preciso de uma informação". Pude constatar a incrível mudança de expressão: do medo explícito em seus olhos para um leve sorriso de alívio. Como cantavam os Engenheiros do Hawaii: "Viver assim é um absurdo... Um absurdo".

Coincidentemente ou não, em Aracaju/SE, logo na primeira ida a um dos terminais de ônibus da cidade, depois de meu retorno (sem nem precisar assistir nenhum telejornal), o assunto do momento também foi a segurança (mais uma vez, a falta dela). O interessante é que em ambos os lugares os discursos sobre o tema são praticamente os mesmos: ou os culpados são aqueles que o Estado deixa na miséria (“Pátria amada, o que oferece aos teus filhos – sofridos –, dignidade ou jazigos?”), ou são os policiais (formados numa mentalidade que os coloca contra a população pobre, contra aqueles que vivem sempre à margem, contra os “sofridos”, mas quase nunca contra aqueles que criam os muros, que mantêm eles erguidos e que dão a ordem para matar).

02. O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940, de Charles Chaplin)jghjjgfj.jpg Cena do filme “O Grande Ditador” (The Great Dictator, 1940, de Charles Chaplin)

Nestes discursos, amplamente difundidos pelas mídias hegemônicas (não por acaso, é claro), o jogo de quem é a culpa só se repete; poucos são os que procuram a fonte do problema mais a fundo, percebendo que a culpa de toda essa situação é gerada e mantida pelo Estado, representado por aqueles que se acham dono dele, supostamente eleitos pela maioria para manter a farsa bem tramada, mas que na verdade estão ali apenas para tirar a atenção do povo em relação aos seus verdadeiros donos, aqueles que realmente detêm o poder e controlam os maiores crimes contra a humanidade (que deixam a maior parte da população sem educação e sem assistência médica de qualidade, à própria sorte, sem segurança alguma, sem o devido acesso aos bens e serviços que lhes são de direito), como nos lembra Douglas Adams em seu célebre e esclarecedor “O Guia do Mochileiro das Galáxias”). Conforme canta Criolo, não precisamos de óculos para enxergar o que acontece ao nosso redor. Ou, recordando José Saramago, basta além de olhar, ver; e além de ver, reparar. Não será espantoso notar, em mais um ano de período eleitoral (de farsa eleitoral, é bom enfatizar) a maioria dos políticos prometendo investir em educação e acabar com a insegurança, com a criminalidade e com a corrupção.

03 fhfhdhd.jpg “[...] E não é preciso de Marx pra entender o que acontece na sociedade. É um punhado de podres de ricos, miseráveis em humanidade, dominando a porra toda e infernizando com a vida de todo mundo. Impedindo o ensino de ensinar, a medicina de atender a quem precisa, comprando o poder falsamente público, infiltrando mentalidade empresarial nas academias, mantendo bolsões de miséria pra chantagear os trabalhadores a aceitar trabalhos sem direitos por medo, controlando a (des)informação com a mídia privada e perseguindo tudo e todos que ameacem essa grande falcatrua. Com o aparato público da segurança e disso que chamam justiça. Por causa desses parasitas, o centro de importância da sociedade é o patrimônio e o lucro, não o ser humano. Qualquer inteligência média percebe que um povo instruído, informado, alimentado e sadio forma uma sociedade muito mais harmônica, mais segura de si e difícil de dominar por tão poucos. E é esse o pavor desses sanguessugas desumanos. São escravagistas, mesquinhos, vazios, em sua grosseria espiritual ostensiva, arrogante e estúpida. E estão destruindo o mundo. Não é preciso de Marx e de nenhum europeu extemporâneo pra tomar consciência da realidade. Bastam olhos de ver.” (Eduardo Marinho)

O grande Sérgio Porto – mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta –, em Uma carta de doido, escreveu: “Dia virá em que esses matusquelas que administram os serviços públicos estarão também recuperados para a vida em comum com seus semelhantes”. Isso foi escrito na segunda metade da década de 1960, e continua bastante atual...

Todavia, mais uma vez citando Criolo: “Atitudes de amor devemos ampliar”. E a seguir eu compartilho alguns dos registros de minha rápida excursão entre Santa Maria e Porto Alegre – uma viagem de muita observação, muito aprendizado e crescimento –, no intuito de tentar ampliar um pouco dessas atitudes, expressas por meio da arte.

Interessado(a) em ver mais de perto algumas das artes aqui expostas, visite a galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, localizada na rua 24 de Outubro, n. 200, em Porto Alegre/RS.

04 nhsdghr.jpg "Seja pra alguém aquilo que nunca foram pra você" Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

06 - Albert Einstein -fggdfg.jpg "Imagination is more important than knowledge. Knowledge is limited. Imagination encircles the world." (Albert Einstein) ["A imaginação é mais importante que conhecimento. O conhecimento é limitado. Imaginação circunda o mundo."] Registro realizado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

07 fsghjrth.jpg "Peça a você que seus planos deem certo" Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

08 bjhdfgsd.jpg Sabotage Registro realizado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

09 liohdfg.jpg Fora Temer! Registro realizado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

10 frwe.jpg Dom Quixote e Sancho Pança numa releitura contemporânea. Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

11 fwereas.jpg "Seja a mudança que você quer ver no mundo" (Gandhi) "Corpos presos pelo sistema, mentes libertas pela arte" "Todo coração é uma célula revolucionária" (do filme "Edukators", Die fetten Jahre sind vorbei, 2004, de Hans Weingartner) Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

12 dsffdqa.jpg Para não esquecer... e para mudar os dados. Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

13 gfhgdsfsf.jpg Questione. Sempre. Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

14 fgerewrtwet.jpg Manifeste-se! Registro da exposição na galeria de arte no subsolo da Hidráulica Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS (junho de 2016)

Para finalizar, uma cena do filme "O Grande Hotel Budapeste" (The Grand Budapest Hotel, 2014, de Wes Anderson) 15 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014, de Wes Anderson) juyhdf.jpg


J. Douglas Alves

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