desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

NOTAS DO COTIDIANO: SOBRE AS CRIANÇAS E SEU DIREITO DE "EXISTIR"

A seguir faço um breve relato de uma situação que demonstra a "invisibilidade" ou "exclusão" das crianças diante da cultura adultocêntrica da nossa sociedade.


01. menino_mundo - fsrasuyug.jpg Imagem do filme O Menino e o Mundo (2013, de Alê Abreu)

Nesta última semana reparei uma situação que se (re)produz cotidianamente e poucos parecem dar atenção. Estava no ônibus, saindo do terminal do campus da Universidade Federal de Sergipe, em direção ao centro. Durante o trajeto, em três paradas consecutivas (para não citar aquelas em que havia a mesma “troca de bastão” entre os vendedores ambulantes, mas com um intervalo maior de tempo), enquanto um indivíduo descia do ônibus após tentar vender seus produtos, outro subia para tentar vender os seus – sem, é claro, deixar de citar um trecho da bíblia antes, durante ou depois de sua “apresentação” (e, em um daqueles momentos de lucidez, me veio à mente o fato de que talvez a população aracajuana esteja aprendendo mais sobre os ensinamentos bíblicos nos coletivos públicos do que nas igrejas, uma vez que a maioria delas usa este transporte diariamente, enquanto a igreja costuma ser reservada aos domingos).

02. mundo_crianca fdfsrege.png Imagem por Quino

Mas a situação a que me refiro não se trata do quantitativo de vendedores ambulantes nos ônibus de Aracaju, nem mesmo da pregação da bíblia por eles e outros que decidem fazer do transporte público o espaço para exaltar vosso deus e suas possíveis palavras. Não, a situação ocorreu durante uma parte de meu percurso, onde reparei em algo que tenho estudado/pesquisado/refletido muito e que, com um pouco mais de atenção, não é difícil de ser notada. Durante uma parte do trajeto, enquanto os vendedores entregavam o novo CD com músicas gospel, o caça-palavras bíblico ou o moedor de temperos (e este, ao que pareceu, sem nenhum vínculo divino), percebi que eles não faziam a entrega a um dos sujeitos presentes no ônibus, que estava sentado sozinho, próximo de mim. Este sujeito era uma criança, um menino por volta de seus dez anos de idade, e nenhum dos vendedores se deu ao trabalho de entregar seus produtos a ele.

03. Ivan Cabral charge2011-titulo_de_cidadao.jpg Imagem por Ivan Cabral “O que você quer ser quando crescer? Como assim, eu já não sou?” (Aísha Kaderrah, em "O professor é importante, porque é porque se não for aí não é": escutando as crianças e pensando o professor)

Nas sociedades que Jared Diamond denomina de WEIRD (Ocidentais, Educadas, Industrializadas, Ricas e “Democráticas” – democráticas entre aspas é uma interferência minha, já que a maioria das “democracias” ocidentais não passa de uma farsa eleitoral, como nos recordava José Saramago e tanto nos enfatiza Eduardo Marinho), onde se vivencia uma cultura tipicamente adultocêntrica, as crianças se desenvolvem sob uma condição de silêncio, em que quase não são vistas, ouvidas e, dessa forma, não têm o direito de argumentar e decidir em relação aos aspectos políticos, culturais e sociais que lhes dizem respeito.

04. mafalda-democracia yjhfdd.jpg Imagem por Quino “O problema é que continuamos a chamar de democracia uma coisa que já não o é. Quer dizer, se vivemos em um mundo onde a democracia política não caminha junto com uma democracia cultural ou uma democracia econômica, então o que nós temos não é uma democracia. Vejamos: quem são os que mandam no planeta? São os ministros? Os presidentes? Não, senhor, quem manda no mundo são os senhores George Soros, Bill Gates e as grandes corporações financeira mundiais. A General Motors ou a Coca-Cola, por exemplo, não se submetem ao voto popular. Então, por que continuamos a falar de democracia? Se o poder está em outro nível, e os poderes econômicos e financeiros privilegiam, acima de tudo, as suas especulações, como podemos continuar falando em democracia? A democracia é algo que está fora das preocupações daqueles que realmente mandam neste mundo. Mais uma vez, precisamos ter um ponto de vista crítico, para não falar mais em democracia nesses termos.” (José Saramago, em As Palavras de Saramago)

Pois bem, durante o trajeto reparei neste detalhe, em como os vendedores não consideravam aquela criança que estava ali, vendo todos eles falarem sobre seus produtos, passando como se ela sequer existisse ou não tivesse importância. Diante da situação eu pensei em quatro possibilidades simples e distintas que poderiam resultar em outra concepção de como tratar e reconhecer as crianças como seres culturais, sociais e de direitos, como defende Miguel Arroyo e muitos outros profissionais da Educação. A primeira seria a seguinte: o vendedor passaria por ela e entregaria seu produto; ela receberia o material e decidiria comprá-lo se gostasse e estivesse com dinheiro (se ela estava ou não com dinheiro, isso era algo que nem eu e muito menos o vendedor poderia saber). A segunda possibilidade seria: a criança receberia o material e apenas o segurava, sem intenção de comprar (como ocorre na maioria dos casos, quando os vendedores entregam seus produtos e as pessoas apenas aguardam que eles o peguem de volta). A terceira maneira de a criança ser inserida naquela situação seria ela receber o produto e, caso não estivesse com dinheiro e tivesse interesse em obtê-lo, tentar negociar com o vendedor (“Olha, eu não tenho dinheiro, mas tenho essa pulseira e gostaria de trocá-la em seu material, o que acha?”, como poderia acontecer com qualquer adulto no mesmo contexto). E a quarta possibilidade seria a mais trivial possível: ela simplesmente rejeitaria o produto oferecido pelo adulto (“Eu não quero, obrigado”), como tantas vezes eu faço neste tipo de situação.

05. Pryscila Vieira.8abr2015---a--rumos-na-historia-do-direito-diante-de-uma-provavel-aprovacao-da-reducao-da-maioridade-penal-1428489718222_956x500.jpg Imagem por Pryscila Vieira “As coisas acontecem lá na alturas, acima de nós. A gente se sente sem importância, desprestigiado, fraco, perdido. Talvez seja por isso que gostamos de ficar em pé ao lado dos adultos que estão sentados. Então, podemos ver os seus olhos.” (Janusz Korczak, em Quando eu voltar a ser criança)

Todavia, mesmo ela estando ali, entre nós, era como se aos olhos dos adultos que vendiam seus produtos ela não estivesse ou não tivesse relevância – muito provavelmente porque talvez eles pensassem que aquela criança não teria poder: poder de compra; e se não têm poder de compra, por que deveriam ter o poder de escolha?

06. Mafalda bastacouleur(1).jpg Imagem por Quino “A criança não fala, não tem o que dizer. Sua função social não ultrapassa os limites de sua brincadeira ou de seus aborrecimentos aos adultos. “Criança, cale a boca, você não sabe o que está dizendo”, fala-se tantas vezes a elas. Dessa forma, não calamos apenas a criança, calamos um grupo social, oferecendo tratamento semelhante ao que ainda hoje negros, índios e mulheres recebem na sociedade. Rebaixando-os e, em certos casos, humilhando-os.” (Douglas Alves, em "O professor é importante, porque é porque se não for aí não é": escutando as crianças e pensando o professor)

Não é fácil ser criança em um mundo organizado e controlado pelos adultos. Conforme descreveu Antoine de Saint-Exupéry na dedicatória de sua obra mais famosa, O Pequeno Príncipe: “Todos os adultos um dia foram crianças. (Porém, raros se lembram disso.)”. E assim, nas mais sutis circunstâncias, muitas vezes continuamos a tratar as crianças como seres incapazes, insignificantes, abaixo do nível dos adultos. Como se fôssemos um bom parâmetro para qualquer coisa...

Mafalda-quino - Cópiaiouoppoj.png Imagem por Quino “É como se as pessoas crescidas, ao pensar em suas origens, perdessem involuntariamente de vista o fato de elas mesmas, assim como todas as outras, terem vindo ao mundo como crianças pequenas. Vez por outra nos mitos científicos da origem, tal como nos religiosos, elas se sentem compelidas a imaginar: no começo, houve um único ser humano, que era um adulto.” (Norbert Elias, em A Sociedade dos Indivíduos)

Para finalizar, deixo uma experiência que Rubem Alves vivenciou e descreveu, a respeito de quando participou de um congresso sobre educação na Itália, onde além de adultos haviam também muitas crianças. E nesse congresso distribuíram uma página com os "Dez Direitos Naturais das Crianças", que tal como o autor, quero compartilhar com vocês:

"1. Direito ao ócio: Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos.

2. Direito a sujar-se: Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras.

3. Direito aos sentidos: Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza.

4. Direito ao diálogo: Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas idéias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos.

5. Direito ao uso das mãos: Toda criança tem o direito de pregar pregos, de cortar e raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo.

6. Direito a um bom início: Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro.

7. Direito à rua: Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam que as vias lhes pertencem.

8. Direito à natureza selvagem: Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.

9. Direito ao silêncio: Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas.

10. Direito à poesia: Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se pôr e de ver as estrelas e a lua."

Na ocasião, Rubem Alves pediu licença às crianças para acrescentar o décimo primeiro direito: "Todo adulto tem o direito de ser criança...".

Também gostaria de pedir licença às crianças e ao Rubem Alves para acrescentar um décimo segundo direito: "Direito de existir: Toda criança tem o direito de existir perante os adultos."

“Mas é tão raro a criança ser dono de alguma coisa, pra valer.” (Janusz Korczak, em Quando eu voltar a ser criança)


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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