desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

ATÉ QUE PONTO NÓS CHEGAMOS

Destruímos a criança que há em nós e não nos preocupamos em destruir as que ainda existem dentro das próprias crianças. A seguir um breve relato de como somos ignorantes de nós mesmos.


01. IMG_1815dsfsfsa.jpg Mafalda, por Quino. Imagem via Antix

Por que muitos seres humanos têm que fazer de tudo para deixar a vida mais complicada? Não dá para entender, tão absurda são as situações que nós mesmos nos impomos e colocamos. Por que somos assim tão ignorantes de nós mesmos? Não faz sentido. Simplesmente não faz.

02. sera-que-ha-vida-outro-siol-rap-em-cartaz.jpg “Será que há vida inteligente aqui ou apenas traços de evolução?” (Parteum - Outro...) Imagem via Rap em Cartaz

Hoje (07/09/2016), em pleno feriado, logo de manhã sou acordado com um bate-boca no condomínio onde resido. O motivo: um senhor estava fazendo uma mudança no prédio ao lado do meu; o que, pelo regimento local, não é permitido. Se fôssemos considerar que não havia nenhum carro de mudança (ele parecia estar utilizando seu próprio veículo, do tipo picape, estacionado na vaga que lhe é de direito) e que tirava, junto com sua esposa, sua filha e seu genro apenas algumas caixas e objetos pequenos, não vejo motivo para impedir que ele realizasse a mudança – e que vá morar feliz onde quer que seja. Todavia, o ser humano é um ser difícil de entender mesmo. Precisa deixar tudo mais complicado do que já é. Nesse momento aparecem a síndica do condomínio e um casal de moradores do mesmo prédio, com seu filho (com idade entre seis ou sete anos). E é aí que tudo descamba...

03. 7ad5ae8d81d065efedd67ec9b5db55f9.jpg “Saber a hora de parar é pra homem sábio.” (Criolo) Imagem via Pinterest

Primeiro que essa síndica, ao invés de tentar resolver os problemas, parece querer ampliá-los. Eu fico pensando no que ela ganha ao “conversar” gritando com os outros. É como se quisesse impor sua autoridade ou demonstrar seu poder em relação aos demais. Se antes dela chegar afirmando em tom imperativo que o senhor e sua família não podiam estar ali fazendo mudança, ela poderia muito bem dizer: “Seu Américo [nome fictício], bom dia! Como vai o senhor? Então quer dizer que vai deixar o condomínio mesmo? Está indo morar onde?”, no que ele provavelmente responderia em um tom de gentileza, sem exaltar a voz. E, depois dessa primeira investida, ela poderia perguntar a ele, em tom amigável, se sabia que aquilo não era permitido pelo regimento, porém, como eram poucas coisas e parecia não estar incomodando ninguém, então que fizesse, sem problemas.

Só que não foi nessa versão que ela resolveu conversar com ele. E para piorar a situação, entram agora os outros personagens na história, o casal com o filho pequeno. Ao ouvir que a síndica havia se aproximado para dizer ao senhor que não era permitido ele estar com o carro ali, e vendo que o senhor respondeu à síndica com ignorância – “Eu só tenho esse dia para fazer a mudança e não vou fazer?! estou no meu direito! Pois que chame a polícia então!” –, eles também resolveram se intrometer na história, reafirmando ao senhor que ele estava errado. Isso, ao invés de ajudar, piorou a situação, porque o seu Américo agora começou a bater boca com o marido (uns vinte anos mais jovem que o senhor) e também com a esposa, que se envolveram no caso porque a vaga no estacionamento ao lado da picape era a deles, e pareciam estar com medo de acontecer alguma coisa no carro. Eu não moro no prédio, não conheço os envolvidos, não sei como era a relação – se é que havia alguma – entre eles. Na posição do casal, vendo que um vizinho meu estava fazendo mudança, ainda mais em um feriado (quem, em sã consciência, vai querer fazer mudança num feriado, quando poderia estar descansando até mais tarde, viajando ou fazendo qualquer outra coisa?), eu chegaria para ele e ofereceria ajuda: “Seu Américo, fazendo mudança logo no feriado? Tem muita coisa ainda? Deixe-me ajudá-los...”, no intuito de terminar logo; porque eu sei o quanto é difícil e chato fazer mudança e sei que às vezes aparecem esses vizinhos que, não querendo ajudar, ainda fazem questão de atrapalhar a vida dos outros.

04. tumblr_n4jbpiAUEq1qepqc2o1_1280.jpg “Amar e mudar as coisas… me interessa mais.” (Belchior) Avenida Sul, Bairro de São José, Recife, PE, em frente ao forte de 5 pontas. Intervenção por Ação Poética Recife. Fonte: Olhe os Muros e Alegria Aparente

Nem a síndica foi gentil com o senhor e sua família e nem o casal ofereceu ajuda a eles. Ao contrário do que poderia ter acontecido, o que aconteceu foi um bate-boca entre as partes que acabou chamando a atenção de muitos moradores no condomínio. E enquanto o senhor, já de idade, tentava gritar mais alto que seu vizinho, eu me perguntava a razão de tudo aquilo. Por que nos comportamos assim? Por que chegamos a este ponto? Não bastasse todo o estresse, a síndica (depois que seu Américo, por insistência de sua esposa e filha, saiu do prédio e foi embora) ainda ficou falando com o casal sobre multar ele e chamar os advogados. Foi quando eu pensei: “Será que este senhor já não está estressado o suficiente? O que essa mulher quer com essa história de multa, que ele tenha um infarto? Será que todos já não se estressaram o suficiente para ir atrás de mais estresse?”. É como se tivéssemos prazer em colocar mais lenha na fogueira.

05. tumblr_mwgwqrn38U1qa4p8ho1_500.png "Some men just want to watch the world burn." Imagem via Cinismo Ilustrado

“Ah, que isso é errado, que ele está errado”. Sim, está, só que mais errado ainda somos nós vivermos sob a égide de regimentos, normas e regras que nos fazem estar mais preocupados com elas do que com a situação do outro. É errado fazer mudança aos feriados? Sim, é. Mas se o sujeito só tem aquele dia para fazer sua mudança, que mal tem em deixá-lo fazer desde que não incomode ninguém? Por que precisamos complicar tanto as coisas? Será que as pessoas não conseguem enxergar além de seu próprio umbigo, além de seus próprios interesses? (a síndica além do regimento; os vizinhos do senhor, além de seu carro; o próprio senhor, além de seus gritos). Torna-se um círculo de ignorância/arrogância que não traz benefícios a ninguém. Um contra o outro, quando na verdade deveria ser um com o outro. É porque o mundo deve ter problemas de menos para nos preocuparmos em arranjar mais... 06. -pior-mas-todas-sao-mais-tennessee-williams-161675.jpg “Não há boas ou más pessoas. Algumas são um pouco melhor ou um pouco pior, mas todas são mais motivadas pela incompreensão (ignorância) do que pela maldade. Ou seja, pela cegueira para com o que está acontecendo no coração do outro.” (Tennessee Williams) Imagem via Kd Frases

Diante de toda aquela cena, eu via aquela criança, ali, perdida e assustada entre os gritos/insultos dos adultos, e me imaginava o que se passava em sua mente. Somos tão cegos que não percebemos o mal que fazemos aos outros – até mesmo aos outros que mais nos preocupamos! Aquele menino estava ali, entre os adultos, aprendendo a resolver as coisas como muitos adultos costumam fazer. Ele estava tendo um exemplo de como, na escola com seus e suas colegas, em casa com seu irmão ou sua irmã, ou na rua com seus amigos e suas amigas, poderá resolver os problemas. Talvez agora ele pense que quem grita mais alto deve ter sempre razão. Eu só queria ir até ele e dizer: “Nos desculpe por isso, por favor, nos desculpe. Você não precisa ser assim. Há outros meios e modos de resolver as coisas. Nem todos os adultos precisam ser iguais. Você é mais do que isso e pode continuar sendo. Sua alma ainda não foi destruída”. Ou, quem sabe, apenas citar um trecho da canção “Ainda Há Tempo”, do Criolo: “As pessoas não são más, elas só estão perdidas”.

Engenheiros do Hawaii - Dom Quixote


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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