desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

PROBLEMAS DE PESQUISA(DOR)

Quando não é a metodologia e/ou o método, é o tema escolhido ou outras dificuldades circunstanciais que podem atrapalhar a vida de todo(a) pesquisador(a).


01. don-t-panic-the-hitchhiker-s-guide-to-the-galaxy.png "NÃO ENTRE EM PÂNICO"

Praticamente toda pesquisa e todo(a) pesquisador(a) passam por problemas, por imprevistos, na execução de sua proposta. Às vezes é a metodologia que não está de acordo. Outras vezes é o método escolhido e as técnicas utilizadas que não funcionam com seu objeto de estudo ou com seus sujeitos de investigação. Há ainda a problemática do tema: nem sempre o(a) pesquisador(a) está preparado(a) para lidar com algumas adversidades, como por exemplo, a falta de materiais/estudos sobre o mesmo. Ou outras dificuldades circunstanciais: os sujeitos desistiram da pesquisa no último momento; sua orientadora ou seu orientador deu o fora e você “ficou a ver navios” (pode acontecer, acredite); você cometeu um deslize comum entre os estudantes, de só salvar seu trabalho no computador que utiliza ou no pendrive – e aí, quando menos espera, um ou outro, ou ambos, deixam você na mão; deu branco, você não consegue mais produzir; forças maiores comprometem o tempo programado para finalizar o trabalho (uma greve que não estava em seu cronograma; você, algum familiar ou um animal de estimação fica seriamente doente; alguém próximo falece...); um meteoro é detectado em direção à Terra e você se dá conta de que sua pesquisa vai para o buraco (assim como todos nós); entre outras dificuldades que podem surgir pelo caminho.

02. EdvardMunch-TheScream-1893gergwtgw.jpg “O Grito”, de Edvard Munch. Esta é uma das cinco versões, pintada em 1893 em óleo e pastel sobre cartão, e encontra-se exposta na Galeria Nacional de Oslo. Imagem via Jéssica Parizotto

A primeira coisa que um(a) pesquisador(a) deve ter em mente (e que todo bom orientador, ou boa orientadora, deveria ressaltar desde o início ao seu orientando ou orientada) é: NÃO ENTRE EM PÂNICO! Palavras-chave na resolução de qualquer conflito ou contratempo envolvendo a pesquisa e o(a) pesquisador(a) – sobretudo a pesquisa, porque nem sempre o(a) responsável por ela consegue dar conta de tudo que promete ou imagina. Talvez fosse interessante que todos os Departamentos e Centros de pesquisa das universidades do país colocassem – em letras garrafais, destacadas, caixa-alta, negrito, quem sabe até em placa reluzente ou letreiro luminoso, tipo neon – essas sábias palavras indicadas pelo Douglas Adams em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”.

03. Quotefancy-10810-3840x2160.jpg Imagem via Quotefancy

Exposto isto, ele teria mais calma antes de se deparar com algum dos problemas anteriormente citados (ou outros não citados) para buscar a melhor e mais viável solução. Quem vive o universo acadêmico sabe que, de uma forma ou de outra, no fim das contas, quase tudo dá certo. Todavia, esse “quase” pode ser uma pedra no sapato e no caminho de muita gente. Logo, não basta acreditar que de um jeito ou de outro vai dar certo. Para fazer acontecer, para dar certo de verdade, primeiro o indivíduo, o responsável por isso, precisa ter um mínimo de responsabilidade e de noção de tempo – sim, noção de tempo. Porque tem muita gente que deixa tudo para a “última hora” (última hora aqui, no campo da pesquisa, não como última hora em si, e sim como metáfora para algo como “último mês”). Mas o pior problema não é deixar para a última hora (em uma hora muita coisa pode ser feita), o pior mesmo é deixar para a “última meia hora” (última meia hora como algo referente à “última semana”). É aí que reside o grande problema, pois a pessoa se vê perdida, com o prazo finalizando e muitas vezes sem saber de onde veio e para onde vai.

04. no directiongdfggsdg.png “Perdido. Confuso. Inseguro. Obscuro. Perplexo. Desorientado. Aturdido”. Imagem via Fuel Education

Deixemos de lado a questão da noção do tempo, uma vez que ela talvez afete uma camada bem menor do que suponho e analisemos melhor outros problemas que podem incidir sobre uma pesquisa e o(a) pesquisador(a). Considerando que muitos desses problemas são ocasionados por uma falta de preparo e formação (que não compete apenas à academia uma vez que a má formação parece ser congênita à maior parte do processo educativo público brasileiro), muitas das “surpresas” de última hora podem ser resolvidas sem maiores transtornos por parte dos(as) pesquisadores(as) e orientadores(as). O professor Bernard Charlot, da Universidade Federal de Sergipe, em uma de suas aulas afirmou que uma forma de contornar um imprevisto de pesquisa é usar da criatividade; e isso dependerá de cada um e de cada situação. Não existe fórmula ou receita que possa ser utilizada para todos os casos. Cada caso é um caso, bem como cada solução poderá ser diferente para cada um.

05. einstein 2 fggsdgsdg.png “Se eu tivesse uma hora pra resolver um problema e minha vida dependesse dessa solução, eu passaria 55 minutos definindo a pergunta certa a se fazer. Porque quando eu soubesse a pergunta correta, poderia resolver o problema em menos de cinco minutos.” (Albert Einstein)

Entre os obstáculos que podem acontecer a um(a) pesquisador(a) em seu processo de pesquisa, tomarei alguns exemplos para pensarmos melhor suas possíveis resoluções. Casos relacionados a Metodologias e métodos: é muito comum na academia vermos discentes e docentes apaixonados por seus temas e escolhas. Não é preciso ser nenhum sábio para entender que a paixão pode cegar. A ortodoxia não se restringe aos sistemas religiosos, podendo ser encontrada também nos espaços de formação que deveriam direcionar para a diversidade, e não somente à unilateralidade do pensar. Eu cansei de ver uma professora que tive, na época da graduação, ignorar a vontade dos meus colegas em pesquisar algum tema que gostavam porque não lhe interessava ou não estava de acordo com sua forma de pensamento, enquadrando-os em temáticas de sua preferência e tirando deles a possibilidade de realizar algo que fosse diferente do habitual e que lhes trouxesse mais prazer. O que contrasta com a sugestão da Maria Marly de Oliveira em relação à metodologia, quando ela declara que “Uma pesquisa de sucesso depende da boa definição de um tema, do gosto em estudar tal problemática, da clareza do trajeto a ser feito durante as diferentes etapas da pesquisa. É preciso gostar do tema” (2007, p. 46). Gostar do tema não indica dizer que será um processo mais fácil ou simples, e sim que possivelmente você terá mais estímulo e prazer para realizar sua pesquisa. Definida a metodologia, que Maria Oliveira concebe como o “conjunto de operações que devem ser sistematizadas e trabalhadas com consistência” (2007, p. 46), você decide então qual o melhor caminho (método) a ser seguido, utilizando das técnicas disponíveis e das mais adequadas para compreender/explicar seu objeto/fenômeno de estudo. Logo, para contornar um problema relacionado à metodologia e ao método, a sugestão é ir diretamente à sua fonte: o tema. Analise-o melhor, repense suas possibilidades – se for o caso, inclusive repense a escolha do(a) orientador(a) – e confie em seu tato para seguir adiante.

06. criatividade-inove-sua-carreira.png Imagem via Embrascon

Casos em que existem poucos (ou quase nenhum) estudos sobre o tema específico. O que fazer diante deste panorama? Em um primeiro ponto de vista isso pode ser considerado um grande problema, uma vez que não haverá materiais suficientes para fundamentar sua ideia. Entretanto, essa pode ser sua grande chance para desenvolver um trabalho de pesquisa minucioso, demonstrando sua capacidade como pesquisador(a), buscando nas mais diversas fontes rastros e indícios que possam ser utilizados para basear sua ideia; e se mesmo com toda pesquisa realizada você ainda se sentir num deserto sem água à vista – ou no meio do oceano sem terra à vista –, tenha a audácia de confiar em sua intuição, sem medo de arriscar, pois essa também poderá ser a chance de construir (por meio de sua escrita) algo relativamente novo ou inovador, um trabalho que venha a se destacar pela originalidade (algo realmente muito difícil de fazer e de encontrar para quem vivencia o universo acadêmico). Conforme você aborde a temática, poderá estar abrindo caminho para novos olhares e leituras sobre a questão, ampliando a escassa produção na área ou gerando novos subsídios para a mesma.

07. experts-kid-einstein.jpg Mentes brilhantes podem estar em qualquer lugar. Imagem via Gemma Rocyn Jones

Em relação às dificuldades circunstanciais, que podem ser muitas e ninguém está imune a elas, podemos pensar em algumas soluções para eventuais acontecimentos. Caso esteja trabalhando com sujeitos em sua pesquisa, se pretende entrevistá-los, não deixe para a última meia hora (e se possível, nem para a última hora). Realizar entrevistas não é algo simples de fazer: você precisa estar disponível quando os sujeitos estiverem disponíveis; precisa ter todos os equipamentos funcionando; precisa cuidar bem dos dados colhidos para que eles não sejam apagados “sem querer querendo”; precisa respeitar o tempo de cada um; respeitar também suas vontades; e precisa aceitar o fato de que eles podem simplesmente não querer mais participar daquilo. Se isso acontecer, você pode reverter a situação buscando um novo grupo para entrevistar ou fazendo um texto que explore as possíveis razões para que isso – a “fuga” dos sujeitos – tenha acontecido nesta altura do campeonato.

Por sua vez, se sua orientadora ou seu orientador foi embora e deixou você a ver navios, a sugestão é que procure a secretaria do seu departamento/curso, relate o ocorrido e não se desespere, porque este problema pode ser solucionado. Se você perdeu seu trabalho porque seu computador e/ou seu pendrive te deixaram na mão, bem, nesse caso algumas palmatórias de sua orientadora ou seu orientador não resolverão o problema, mas contribuirão para que você aprenda que em se tratando de suas pesquisas, utilize todos os meios necessários para não correr nenhum risco – computador, pendrive, e-mail (e mande sempre para o de outra pessoa, não apenas para o seu), CD (até mesmo disquete, se houver entrada no computador e algum disponível por aí), salvar na “nuvem”, entre outras possibilidades. Você talvez até possa perder uma parte de seu trabalho, tudo bem, acontece, mas perder ele por completo, na última hora ou meia hora antes de entregar, aí é muito vacilo, como se costuma dizer.

wifi stops Quando o computador não funciona e você só salvou o arquivo nele.

Se deu branco, as palavras estão presas no “trânsito” informacional congestionado em sua mente, dê um tempo, saia um pouco. Uma boa caminhada ajuda a oxigenar o cérebro. Outras atividades também podem contribuir: leia algo diferente do que está estudando, escute suas músicas preferidas, vá ao cinema, vá ver o mar, produza alguma arte (pintura, escultura, música, etc), dance um pouco, cozinhe algo, tome um pouco de vinho, faça sexo... Não exagerando na dosagem a ponto de esquecer o que precisa ser feito, estas e outras atividades poderão ajudar a desobstruir sua mente.

08. fsadfsaeinstein-1.jpg Imagem via Ideia Clara

E se forças maiores interferirem nesse processo? Ninguém é de ferro e precisa se matar por uma pesquisa. Sanidade mental ainda é necessária. As pessoas fazem o possível (e às vezes o impossível), mas nada além de suas possibilidades. Você não começa e nem termina uma greve. Paciência. Se ela está demorando mais que o esperado, sente com sua orientadora ou seu orientador e busquem maneiras de contornar isto, talvez alterando o foco da pesquisa. Se você (ou alguém muito próximo a você) adoeceu, cuide-se (ou vá cuidar de quem precisa de cuidados); se der para conciliar com sua pesquisa, bem, se não, seja sincero(a) consigo mesmo(a) e com seu/sua orientador(a), é a melhor forma de resolver a questão. Se for caso de falecimento, isso dependerá de cada um. Você sabe que tem um prazo para dar conta, sabe de suas consequências; mas também sabe que a vida nem sempre respeita prazos... E se um meteoro for detectado em direção ao planeta Terra, não se preocupe e vá procurar um amigo para o fim do mundo.

09. 1280-idea-infographic_0.jpg “O Pensador”, do escultor francês Auguste Rodin. Imagem via Fast Company

A máxima nos diz que “errar é humano” (pelo menos ainda é) e Paulo Leminski nos serve de inspiração ao afirmar categoricamente que “nunca cometo o mesmo erro duas vezes, já cometo duas, três, quatro, cinco, seis, até esse erro aprender que só o erro tem vez”. Lembre-se: a melhor forma de reverter uma situação difícil é com paciência, criatividade, inventividade e persistência. “Pontos de vista alternativos são mais facilmente apreciados à distância”, descreve David Nicholls (2015, p. 131) em sua obra “Nós”. Tomar distância nos ajuda a ver o que antes não conseguíamos, a observar o mesmo objeto/fenômeno por outros ângulos, sob outras perspectivas, com outro ponto de vista. Mesmo com todas as dificuldades que possam acontecer durante um processo de pesquisa, vale lembrar que todo o seu esforço poderá contribuir de alguma forma para algo ou alguém - e se por algum motivo você tentou e não conseguiu, tudo bem, não precisa se atormentar/desanimar ou se sentir inferior por isso; pode acontecer, não temos controle sobre o que não está ao nosso alcance. Em todo caso, convém recordar o que Franz Kafka, em "A Metamorfose", adverte: “Reflexões calmas, inclusive as mais calmas, ainda são melhores do que as decisões desesperadas”. Em outras palavras: NÃO ENTRE EM PÂNICO!

OBSERVAÇÃO: Para quem reside em Florianópolis/SC, o Programa Institucional de Apoio Pedagógico aos Estudantes (Piape) da UFSC oferecerá a oficina “Superando o TCC”, na próxima terça-feira (11/10), que tem como ementa trabalhar os aspectos subjetivos e objetivos que podem atrapalhar o desenvolvimento e a finalização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) dos estudantes de graduação, além de abordar técnicas de organização dos estudos para o TCC. Será na sala 106 do Centro Socioeconômico (CSE), das 14h às 16h (sem necessidade de realizar inscrição prévia).

Obras citadas

ADAMS, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

KAFKA, Franz. A metamorfose. Trad. de Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2010.

NICHOLLS, David. Nós. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

OLIVEIRA, Maria Marly de. Como fazer pesquisa qualitativa. Petrópolis, RJ: Vozes 2007.


J. Douglas Alves

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