desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

NÃO TENHA MEDO DE SUAS FRAQUEZAS

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” (Clarice Lispector)


01. Photo by Dingzeyu Li _ Unsplash.jpg Imagem por Dingzeyu Li

Recentemente, conversando com uma grande amiga ela me relatou que estava passando por uma daquelas fases que todo ser humano passa uma ou várias vezes durante sua vida: a fase em que nos sentimos menos capazes do que somos, em que questionamos nossa própria condição e, às vezes, nossa própria existência – a fase em que nos levamos a sério demais e não entendemos a leveza e simplicidade da vida (mesmo em suas obscuridades e complexidades).

Isso nos angustia e nos coloca para baixo, nos sentimos frustrados com o que fazemos, os problemas parecem aumentar e as soluções não parecem próximas. Seja no ambiente de trabalho ou no familiar, as coisas simplesmente parecem não fluir, como se uma barreira nos impedisse de seguir adiante. É quando nos sentimos fracos, impotentes e incapazes (sensação tão ruim, que nos nocauteia). Se dentro de nós as coisas estão tão complicadas, do lado de fora somos bombardeados com as propagandas que tentam nos vender uma verdade hoje quase universal (e aceita por muitos): a de que vivemos em um lugar onde os fracos não têm vez.

02. the_shawshank_redemption_by_soenjoyyourpudding.jpg Imagem: The Shawshank Redemption, by SoEnjoyYourPudding

Temos duas questões referentes a isto. Primeiro a tolice de achar que somos fortes o suficiente diante de um mundo tão mais forte do que nós, com seres igualmente mais fortes (o ser humano é tão frágil que um minúsculo inseto pode levar ele dessa para outra – se é melhor ou pior, não sei; mas se levarmos em consideração todos os absurdos que já vivemos aqui, faz sentido se apoiar na ideia de que seja um lugar melhor). O mundo não foi feito para os fracos, é o discurso que nos condiciona desde cedo a ser o melhor, o mais forte, estar sempre na frente – e isso, claro, em relação ao outro, seu semelhante – um modelo ideal para os parâmetros desse globaritarismo (lembrando Milton Santos), que tenta nos impor uma visão de mundo e de ser humano como se fosse a única possível. E de repente, em um mundo cheio de gente fraca, todos são incrivelmente fortes e inabaláveis, como se nada pudesse nos atingir – só os fracos são atingidos, e nós não somos fracos! Você não é fraco! Só que não é bem assim...

03. Kt Tunstall Sem título.png Imagem editada do videoclipe “Feel It All”, da cantora britânica KT Tunstall

Somos fracos. Bastante fracos. Geralmente nos damos conta disso em momentos de grande choque – a perda recente de alguém próximo; o fim de um relacionamento; o resultado inesperado de um grande investimento; alguma crise emocional que nos abala e nos coloca na condição de humanos. Nem mais nem menos do que os outros: iguais, no mesmo patamar (dos que agora estão felizes e logo em seguida poderão estar sofrendo tanto). Diz-se que pessoas assim são o mal da nossa sociedade e que por isso vivemos em um mundo de pessoas inseguras e incapazes – como sempre, tentam colocar a culpa nos outros. Conhecer suas fraquezas é um grande passo para o que se costuma denominar de auto-conhecimento. Reconhecê-las é um passo ainda maior para superá-las e crescer internamente.

04. dffrocky-balboa-1.jpg Cena do filme “Rocky Balboa” (2006, de Sylvester Stallone). A cena em que Rocky sobe os degraus da entrada do Museu de Arte da Filadélfia é famosa desde seu primeiro filme, em 1976, e hoje é vista como um símbolo que representa grandes desafios ou esforços pessoais.

A segunda questão é um tanto paradoxal: na medida em que descobrimos nossas fraquezas temos também a possibilidade de compreender que não somos tão fracos assim como podemos supor. As crises, por mais fortes que sejam e por pior que nos atinjam, têm algo que nos ajuda a ampliar nosso campo de visão. Não é fácil perceber isso justo quando se está em uma fase tão vulnerável (costuma ser depois de algum tempo que notamos o quanto fomos fortes e crescemos naquele período). Há muitos fatores que interferem para que saíamos de uma crise mais fortes do que entramos nela (ou do que quando ela entrou em nós), e o mais importante de todos talvez seja confiar em si mesmo: perceber o mundo e seu funcionamento com os próprios olhos, enxergar além das aparências, deixar de se levar tão a sério como dita a regra (e para isso o sorriso e um abraço de uma criança ou de um amigo ajudam sobremaneira, bem como o contato direto com a natureza e com outros animais – humanos e/ou não).

05. Gênio Indomável (Good Will Huntingfewf.png Cena do filme “Gênio Indomável” (Good Will Hunting, 1997, de Gus Van Sant)

Descobrir a insustentável leveza do ser diante do inevitável peso de viver é, para Italo Calvino, uma “condição humana comum também a nós, embora infinitamente mais afortunados” – se levarmos em consideração as vítimas de toda e qualquer forma de opressão; estas forçadas a permanecer na condição de fracos pelos mais absurdos e injustificados motivos (vide as mulheres na condição de servas para os homens; os negros de suspeitos para a polícia; os indígenas de indigentes – referência ao jogo de palavras de Maurício Ramonnd – para o homem branco no poder; os integrantes do movimento LGBT de doentes para os homofóbicos; as crianças de brinquedos para tantos adultos; os imigrantes e refugiados de indesejáveis para muitos que hoje estão “seguros”; entre outros exemplos). Todos suportam pesos em suas vidas, uns mais vezes ou por mais tempo do que outros, mas em cada contexto não deixa de ser um peso. E perceber, nesses pesos, o que pode te trazer a leveza, a suavidade da vida novamente, é um exercício de superação (Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr e Nelson Mandela podem ser considerados grandes mestres desse exercício). Não temos as características e o peso histórico desses três personagens, mas para superarmos nossas próprias fraquezas não precisamos nos espelhar em ninguém que não nós mesmos. Pratiquemos aquilo que Italo Calvino fazia cada vez que o mundo lhe parecia condenado ao peso: mudemos nosso ponto de observação, consideremos o mundo sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle.

06. Piper marSem título.png Cena do curta-metragem “Piper: Descobrindo o Mundo” (Piper, 2016, de Alan Barillaro). Nesta cena temos um bom exemplo de quando falamos em pontos de vista. O personagem Piper está vendo embaixo d’água, superando o seu medo do mar; com isso, ele amplia sua perspectiva de mundo.

José Saramago certa vez disse que “Se pararmos para pensar nas pequenas coisas, conseguiremos entender as grandes”. Não é preciso sofrer para aprender isso; o sofrimento pode ajudar, mas não é necessário (esse ponto de vista quem descreve de forma simples e direta é Eduardo Marinho). Quem se reconhece fraco não está sendo fraco. Ser fraco é a condição de quem está para baixo por algo que lhe aconteceu e que assim permanece. Reconhecer é buscar sair dessa condição e em certos casos superá-la. Reconhecer-se fraco é demonstrar que, na verdade, você é forte. Muito forte. Como evidencia Criolo: “No sofrimento nos tornamos fortes”.

07. The truman show deois da tempestade.jpg Cena do filme “O Show de Truman” (The Truman Show, 1998, de Peter Weir), depois que Truman (numa interpretação primorosa de Jim Carrey) consegue superar seu medo do mar passando por uma tempestade em uma pequena embarcação (nota-se a expressão de plenitude no personagem, logo após o ocorrido).

Porque não tem nada mais difícil do que ser a seta e também o alvo. Se antes você atirava contra o mundo e contra todos, agora atira diretamente em você. É muito mais confortável encontrar um alvo para sua seta. Quando, no entanto, a sua própria seta te atinge e você reconhece que as fraquezas que apontava no(s) outro(s) e no mundo estão também em você, sua visão de mundo se amplia e você tem a possibilidade de entender melhor porque chegou a tal ponto e o que (ou quem) te leva a se questionar. Você cresce internamente. O mundo continua girando; assim como seu coração também continua batendo.

08. Ed. Marinho - 89Poço-é-lição.jpg Imagem por Eduardo Marinho

Somos todos vulneráveis e somos todos incrivelmente fortes. E o principal: o mundo não deixa de girar por nós. Perceber isso é uma condição essencial para compreender que está tudo bem (ou pelo contrário, que não está nada bem, mas que pode ficar), e que você, conforme aponta Lauren Jarvis-Gibson, “are stronger because you have strengths and weaknesses, and you have insecurities and marks etched into your skin. You are stronger because you can break, and still get up the next day. You are stronger because you can die, and be reborn again. And you are stronger because after all of the time, you wake up each day and continue to climb this slippery slope that is your life. And you must know, that you are worthy of waking up each day, and breathing in this beautiful and crazy world” (traduzindo: “é mais forte porque tem forças e fraquezas, e tem inseguranças e marcas gravadas em sua pele. Você é mais forte porque pode quebrar, e ainda se levantar no dia seguinte. Você é mais forte porque pode morrer e renascer novamente. E você é mais forte porque depois de todo o tempo, você acorda cada dia e continua a subir este declive escorregadio que é a sua vida. E você deve saber, que você é digno de acordar cada dia, e respirar neste mundo bonito e louco”). Está tudo bem porque se sentir fraco é tão comum quanto se sentir forte, e que “se tropeçar, do chão não vai passar; quem sete vezes cai, levanta oito”, como canta Tiago Iorc.

TIAGO IORC - Um Dia Após o Outro {feat. Daniel Lopes}

Mia Couto já afirmara que “Certas coisas vemos melhor é com os olhos fechados”. Olhar para dentro de nós mesmos é um pouco disso, fechar os olhos e enxergar melhor quem somos (reconhecer nossos limites e, aceitando nossas limitações, respeitar os limites alheios). E nossa fraqueza pode ser tão comum e banal que uma simples mudança pode nos tirar de tal condição; ou um conselho amigo pode abrir nossa percepção para o que nos acontece. “Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo”, disse Albert Einstein. Diante disto, convém aproveitar melhor nosso breve tempo de vida neste planeta: conhecendo-se, aceitando-se, errando, aprendendo, caindo e levantando para cair novamente se for o caso; mas sem o risco de se levar tão a sério a cada instante. “Às vezes é somente questão de sorrir”:

Ludov - Sério

Autores e obras referenciadas: Milton Santos, em Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser. Italo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio. Maurício Ramonnd, em Prosa Poética Impura. José Saramago, em As Palavras de Saramago. Mia Couto, em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Albert Einstein, em Como vejo o mundo. Eduardo Marinho, em Crônicas e pontos de vista e Observar/Absorver. Criolo, em entrevista disponível no Quetzal - Leipziger Lateinamerika-Verein Clarice Lispector (frase atribuída a ela). Lauren Jarvis-Gibson, em You Are Only Human Tiago Iorc, em Um Dia Após o Outro Ludov, em Sério.


J. Douglas Alves

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