desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Eu só queria ir ao cinema...

A ideia era ir ao cinema, entrar na fila, comprar o ingresso e aproveitar a sessão. Este era o plano, mas...


01. Angerjkkkloi585.jpg Raiva, personagem do filme “Divertida Mente” (Inside Out, 2015, de Pete Docter e Ronnie Del Carmen). Imagem via Disney Filmes

Durante muito tempo, para ter acesso à meia-entrada do cinema, bastava apresentar apenas a carteirinha de estudante da instituição a qual se estava vinculado. Há algum tempo atrás, algumas redes (como a Cinemark, pelo menos em Aracaju/SE) passaram a exigir o comprovante de matrícula como requisito para atestar a meia-entrada. Agora a exigência (como é o caso da rede Cinesystem, em Florianópolis/SC) é que eu tenha uma carteira padronizada emitida por uma instituição que se diz representante de todos os estudantes – a UNE. Sem isso, não tenho este simples e básico direito estudantil. Ao ser, recentemente, "barrado no baile" da meia-entrada do cinema, pude pensar um pouco melhor sobre tal situação. Eu, que só queria ir ao cinema, não consegui entender por que isso precisa ser tão complicado.

Sempre acompanho a estréia e programação dos cinemas onde resido na expectativa de quando surgir uma boa oportunidade, não perder. Sou um cinéfilo daqueles que gosta de assistir trailer, ler sinopses, críticas, matérias sobre a obra ou entrevistas com os envolvidos na mesma. Gosto de saber mais a respeito, de conhecer os bastidores e as motivações que levaram a tal criação. E, dias atrás, depois de ver a programação nos cinemas da capital de Santa Catarina, Florianópolis, onde estou residindo no momento, pensei: “Eis uma boa oportunidade!” (não uma ótima oportunidade, mas uma oportunidade que pode ser muito boa). Na programação, dois longas que parecem valer nosso tempo: “Guardiões da Galáxia Vol. 2” (Guardians of the Galaxy Vol. 2, 2017, de James Gunn) e “A Autópsia” (The autopsy of Jane Doe, 2016, de André Øvredal) – o primeiro, uma obra cômica adaptada pelo universo cinematográfico da Marvel que, para quem acompanhou e gostou do primeiro filme, não deixa de ser uma boa aposta; o segundo, um terror/suspense que parece ser tenso o suficiente para considerá-lo um exemplar raro do gênero (e nada melhor do que uma sala de cinema, com todos os seus recursos, para assistir uma obra como essa).

02. cartazes dos filmes 4544335254.png Cartazes dos filmes “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “A Autópsia”

Então, lá vou eu na maior empolgação enfrentar a fila do cinema – um desses multiplax, que se concentram nos shopping centers –, debatendo comigo mesmo qual dos dois filmes eu assistiria (já que o momento é de grana curta, ingresso caro), cada vez mais ansioso pela sessão. Quando chega a minha vez de ser atendido, finalmente decido pelo suspense do diretor norueguês. Escolho uma poltrona, digo que é meia-entrada. A atendente pede a carteira estudantil; eu apresento a minha de estudante da UFSC (tendo em mãos também o comprovante de matrícula). Em seguida, quando menos espero, eis um banho de água gelada em minha pretensão: “Desculpe, mas a meia-entrada agora só é válida apresentando a carteira estudantil da UNE”. Na hora, eu pensei e lhe perguntei: “Mas, como assim? Quer dizer que sem essa carteira eu não sou estudante, mesmo comprovando que sou?”. Ela, gentilmente respondeu: “Me desculpe, mas é o que diz a lei”.

Saí de lá frustrado e indignado. “Poxa vida, não basta tanta burocracia em nosso cotidiano, agora mais essa, até no cinema!”. Sei que a situação política no país beira o absurdo (e isso não é de hoje, a história nos conta); que a educação pública segue sendo desconsiderada por aqueles que se dizem “nossos” representantes; que a saúde pública, em diversos lugares, está na UTI já faz tempo; que a segurança oferecida para muitos brasileiros parece gerar somente mais insegurança; que o transporte se diz público e na maior parte dos casos é privatizado e sucateado; e uma série de outras situações banais que vão contra os direitos de tantos cidadãos e também me deixam triste e indignado. No entanto, naquele dia, naquele bendito dia, eu só queria assistir um filme no cinema. Só queria entrar naquela sala, sentar numa poltrona confortável, assistir aos trailers, esperar todas as luzes se apagarem e passar por uma experiência de alteridade, de choque, de (trans)formação... Por uma experiência de cinema.

03. o-que-aprendi-vendo-filmes.htmlobvious.jpg Cena do filme “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988, de Giuseppe Tornatore). Imagem via Sílvia Marques

“A compreensão correta de uma coisa e a má compreensão dessa mesma coisa não se excluem completamente”, já afirmara Franz Kafka em O Processo. Diante do contexto, resolvi saber mais a respeito da tal lei e tentar, minimamente, entendê-la. A lei nº 12.933, de 26 de dezembro de 2013, “Dispõe sobre o benefício do pagamento de meia-entrada para estudantes, idosos, pessoas com deficiência e jovens de 15 a 29 anos comprovadamente carentes em espetáculos artístico-culturais e esportivos”, e afirma em seu segundo parágrafo que “Terão direito ao benefício os estudantes regularmente matriculados nos níveis e modalidades de educação e ensino previstos no Título V da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que comprovem sua condição de discente, mediante a apresentação, no momento da aquisição do ingresso e na portaria do local de realização do evento, da Carteira de Identificação Estudantil (CIE), emitida pela Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), pela União Nacional dos Estudantes (UNE), pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), pelas entidades estaduais e municipais filiadas àquelas, pelos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs) e pelos Centros e Diretórios Acadêmicos, com prazo de validade renovável a cada ano, conforme modelo único nacionalmente padronizado e publicamente disponibilizado pelas entidades nacionais antes referidas e pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), com certificação digital deste, podendo a carteira de identificação estudantil ter 50% (cinquenta por cento) de características locais”. A carteira citada acima tem um “custo de R$ 25,00 mais taxa de entrega”.

04. Nacional_2017_3D.png Carteira Estudantil da UNE. Imagem via UNE

A lei foi regulamentada em outubro de 2015, mas desde então muitas redes de cinema utilizavam do bom senso para assegurar a entrada com outro comprovante (já que o número de estudantes sem a tal da carteira era – e muito provavelmente ainda seja – elevado). Não precisa ser especialista no assunto para fazer uma lógica simples: se meia-entrada pode ser considerado um negócio ruim para os cinemas, entrada nenhuma é um negócio ainda pior. O argumento dos que criaram a lei está no fato de que com essa carteirinha padronizada será muito mais difícil para os estudantes “sabotarem” as redes de cinema para pagar meia-entrada, diminuindo assim as possíveis fraudes. Apesar de tentar entender o lado da empresa, ainda me pergunto como uma medida de restrição (é assim que eu a vejo) pode atrair mais estudantes que pagariam a meia-entrada de qualquer jeito. Ou, simplesmente: como isso pode atrair mais pessoas aos cinemas quando vivenciamos um período de tão fácil acesso aos filmes exibidos, via internet? A pessoa sai de sua casa, às vezes longe de onde ela mora, pega uma, duas, três conduções, chega lá e de repente a carteira ficou em casa ou foi perdida pelo caminho (ou, até mesmo, foi levada em sua bolsa depois de um assalto). Você está com o dinheiro, se preparou e se organizou para aquele momento, tem outras formas de comprovar que é estudante, não quer refazer todo caminho de volta frustrado, mas por força da lei é impedido (não especificamente pela lei, mas por quem a cumpre) de assistir a sessão. Eu, como amante da sétima arte e como alguém que por muito tempo não teve acesso ao cinema, ainda faço o possível para estar ali, porque atribuo um significado àquele lugar em meu processo formativo. Todavia, quando a burocracia sobressai-se sobre o bom senso, eu começo a ficar preocupado – passa-se a enxergar nas pessoas o seu pior (uma fraude, um impostor) e não aquilo que elas têm de melhor.

05. mafalda_burocracia_1.jpg “Mafalda”, por Quino (imagem via “A soma de todos os afetos”)

Algo se perde nessa intrincada rede de relações mecanizadas (pragmática, burocratizada). Darei um exemplo à guisa de comparação, visando demonstrar melhor meu ponto de vista: eu, como professor, sou convidado para participar da banca de monografia de algum(a) discente de graduação. Recebo o texto de alguém que passou por um intenso processo formativo (e que talvez eu tenha tido a oportunidade de acompanhar boa parte dele). Sei que o aluno ou a aluna está ali naquele texto, sinto que de alguma forma sua história, sua memória, sua voz, sua presença está contida naquelas palavras. Entretanto, por força do hábito, percebo que o texto não segue o padrão da escrita acadêmica (não está de acordo com as normas da ABNT!). Devido a este detalhe (aqui me refiro tão somente às questões de formatação), digo-lhe, depois de sua apresentação: "Desculpe, mas eu não posso aprová-lo(a) porque seu trabalho não está de acordo com as normas". Eu estaria desconsiderando, primeiro, todo o processo formativo por qual aquele(a) estudante passou; segundo, resumiria minha avaliação a meros parâmetros burocráticos; terceiro, desconsideraria também a criatividade do sujeito que pode ter "transgredido" as normas consciente de tal decisão, por não se conformar apenas com uma lógica que deva reger a vida acadêmica. Em outras palavras, eu estaria agindo tal qual uma máquina que só cumpre ordens (ordens estas que geralmente vêm de cima para baixo, impondo-me algo que eu não ouso questionar ou buscar alternativas de relativizá-las).

Não sei se meu exemplo ajudou a esclarecer o ponto em questão. Só quis enfatizar o quanto podemos complicar ainda mais a vida das pessoas (às vezes sem nem perceber os efeitos de tal processo). Não se facilita o acesso à cultura; pelo contrário, complica-a, ampliando o fosso entre os que podem e os que não podem pagar por ela. Este episódio me fez lembrar, de alguma forma, das palavras do Millôr Fernandes em sua Bíblia do Caos: “Os radicais se matam pra romper as grandes leis que controlam a sociedade e acabam governados por portarias e decretos”. Assim corremos esse risco todos nós: abrir mão do pouco que nos resta e governar nossos pensamentos e comportamentos com base apenas nas leis, nos esquecendo das palavras que Martin Luther King Jr. um dia pronunciou: “É nosso dever moral, e obrigação, desobedecer a uma lei injusta”. Sei que isso foi pronunciado em outro contexto bem diferente, mas acredito ser também um dever moral desobedecer a leis que distanciem os indivíduos do acesso à arte e cultura.

06. Chaplin 45543985439.jpg Cena do filme “O Garoto” (The Kid, 1921, de Charles Chaplin)


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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