desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Capturando os Instantes com Manoel de Barros e Luísa Evangelista

Por meio de uma Pentax Spotmatic F, presente que o avô deu ao pai e agora chega às suas mãos, Luísa Evangelista se aproxima de Manoel de Barros em sua captura dos instantes (e daquilo que é “desimportante”).


Manoel de Barros, que ao escrever sobre o nada escrevia também sobre o tudo, foi um dos artistas que mais conseguiu capturar os instantes, apresentando de forma singular as grandezas do ínfimo – notando a beleza nas ruínas, no esquecido, no descartado, no “invisível”. Sua lucidez tinha ares muito profundos, do tipo que poucas raízes humanas conseguem alcançar – só os que se desconectam dessa realidade, dessa lógica do absurdo, são capazes de chegar tão longe...

O escritor mato-grossense capturava a poesia dos instantes e as transcendia em palavras. Tornava o impossível possível por meio dessa que parece, em nossos tempos, uma rara qualidade humana: a sensibilidade (no olhar, na escuta, no trato com o outro, seja este outro um ser animal, vegetal ou de qualquer espécie). Mas, no fundo, esta talvez não seja uma qualidade tão rara assim; olhando com atenção notaremos algo a mais que de repente se faz presença. Lembremos as palavras do Eduardo Galeano: “Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca”. Ainda existe muita gente, como Manoel de Barros e o próprio Galeano, que enxerga a grandeza do ínfimo, as coisas menos vistas (ou mais vistas e menos reparadas), os ninguéns e os nadas (que são muitos e tudo).

02. mia_manoelvdvddf.jpg Imagem via Consultório Poético (por Mariana Portela)

Uma artista que tem contribuído neste processo de olhar com maestria o cotidiano e seus momentos é a Luísa Evangelista. Por meio das palavras e também da fotografia, essa jovem catarinense formada em Psicologia, que agora está rumo ao sul da Bahia, vem capturando os instantes e reparando na beleza que nos atravessa (ou que a atravessamos). Como a própria artista afirma: “Escrevo porque ando na rua atenta às coisas desimportantes, me encanto com elas e com as histórias que caminham por aí. Insisto em capturar os instantes, em vez de esperar que eles passem, bem como a vida que brota em meio ao concreto, tão inesperada e subversiva”.

03. câmera fdfjsdlfsl.jpg

E uma série muito bonita que a Luísa vem fazendo é a que apresento a seguir, que tem um significado bem especial. As imagens foram “capturadas” por meio de uma câmera Pentax Spotmatic F – para quem não conhece, ela “foi lançada em 1964 e foi a primeira câmera a ter um sistema de medição de luz através da lente, ou TTL Light Metering. Ela é totalmente mecânica, exceto pela parte do fotômetro e é compatível com lentes de Rosca M42. Esse modelo, a Spotmatic F, foi lançada em 1973”.

Este detalhe ganha ainda mais relevo quando sabemos da história por trás da câmera. Luísa descreve da seguinte forma: “Meu avô era fotógrafo e deu uma Pentax Spotmatic F, na época lançamento, para o meu pai quando passou no vestibular. Treze anos depois eu nasci, e os registros da minha primeira infância foram feitos com ela, são os registros mais coloridos e bonitos que tenho. Vinte anos depois, eis que resolvo levar a câmera pra restauração, e descubro de novo as cores e o encantamento que traz fotografar com a atenção no presente, no tempo de cada imagem”. O presente que o avô dera ao seu pai agora está em suas mãos e vem sendo muito bem utilizado, como podemos ver na sequência.

Abaixo de cada fotografia estão também as curtas histórias que Luísa enxerga e que dão novos sentidos às imagens. E entre uma imagem e outra, deixo alguns trechos de obras do Manoel de Barros, promovendo um diálogo entre um menino que carregava água na peneira e que insistia em enxergar na incompletude do homem sua maior riqueza, e uma menina formada na mesma didática da invenção que o menino Manoel se formou e que agora insiste em continuar vendo o encantamento da nossa incompletude.

04. fedfsdfw.JPG “Gosto de ver Emília e suas raízes subversivas, De sentir o balanço de suas folhas dançarem, como dançam as crianças despreocupadas na calçada. Às vezes caminho imersa na multidão e me deparo com ela- Pra lembrar da vida líquida que escorre em canto, Corre nua e grita alto pelas fendas do concreto, mesmo que um dia tenham lhe dito Que a rua não era lugar Pra flor nascer.” (Luísa Evangelista)

“No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo.” (Manoel de Barros, em “O livro das ignorãças”)

05. IMG_20170507_232529.jpg “Sinto em texturas O gosto quente de um dia qualquer O som áspero de passos retos O tato doce de um sorriso torto

Sinto oceano em ser grão Grão em ser gente Gente em ser nós

Sinto pipa De tanto desenhar céu.” (Luísa Evangelista)

“Porque a maneira de reduzir o isolado que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e lembranças, é botando enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É, enfim, através das vadias palavras, ir alargando os nossos limites.” (Manoel de Barros, em “Livro de pré-coisas”)

06. IMG_20170504_234940.jpg “Se Nem For Terra

Se Trans For Mar” (Leminski)

A pedra Pedra sendo Eu tenho gosto de jazer no chão. Só privo com lagarto e borboletas. Certas conchas se abrigam em mim. De meus interstícios crescem musgos. Passarinhos me usam para afiar seus bicos. Às vezes uma garça me ocupa de dia. Fico louvoso. Há outros privilégios de ser pedra: a - Eu irrito o silêncio dos insetos. b - Sou batido de luar nas solitudes. c - Tomo banho de orvalho de manhã. d - E o sol me cumprimenta por primeiro. (Manoel de Barros, em “Tratado geral das grandezas do ínfimo”)

07. fyffuy.jpg “Na rua, de sapatos, voa o tempo, perdido no chão que pisou durante horas, sumido de si mesmo no deixar-se por aí Até que um dia, o tempo vai cansar dessa história de não existir. Descalço, sem pressa ele será poesia e dança, meio rio, meio criança.” (Luísa Evangelista)

“Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.” (Manoel de Barros, em “O livro das ignorãças”)

08. kgffiuk.jpg “Ser-vento em cada pedaço de mar que chega em terra firme.” (Luísa Evangelista)

“Amo a nobreza do chão!” (Manoel de Barros, em “Escritos em verbal de ave”)

09. jhghjiig.JPG “F l o r e s c e r” (por Luísa Evangelista)

“. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.” (Manoel de Barros, em “Memórias inventadas: a infância”)

10. djdydh.JPG “Sou um abraço do tempo, guardo em mim a chuva - entre nuvem e oceano.” (Luísa Evangelista)

“Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.” (Manoel de Barros, em “Livro sobre nada”)

11. ihhijpik´´.jpg “La luna” (por Luísa Evangelista)

“Sofro uma espécie de encantamento poético.” (Manoel de Barros, em “Poemas rupestres”)

12. gjerogfoopjg.jpg “Ele tirou a roupa e os sapatos - vestiu-se com seu próprio tempo.” (Luísa Evangelista)

"Difícil fotografar o silêncio." (Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”)

13. ouj~iohk.JPG “Quando vou pro mar Vejo o mundo e o outro lado dele Pra então mergulhar em mim.” (Luísa Evangelista)

"Um fim de mar colore os horizontes." (Manoel de Barros, em “O livro das ignorãças”)

01. fdsfjsd29A2.jpg "Ocupamos a rua – escutou a mulher dizendo – e com seu pouco tamanho olhou em volta. Era tão grande, tão novo, tão colorido. Sentiu o frio na barriga de quem podia ter a cidade nos braços, agora ela era maior que aquela esquina, quase feito céu." (Luísa Evangelista)

“Aprendo com abelhas que com aeroplanos. É um olhar para baixo que eu nasci tendo. É um olhar para o ser menor, para o insignificante que eu me criei tendo. O ser que na sociedade é chutado como uma barata – cresce de importância para o meu olho. Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo. Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão – Antes que das coisas celestiais. Pessoas pertencidas de abandono me comovem: tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.” (Manoel de Barros, em “Retrato do artista quando coisa”)

Àqueles/as que gostaram de conhecer o trabalho da Luísa e quiserem continuar conferindo seus “encantamentos poéticos”, basta segui-la no Instagram: luivieira_


J. Douglas Alves

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