desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

AH, O AMOR… PELOS LIVROS

Cuidado ao entrar ou passar em frente a uma livraria, você pode acabar se apaixonando.


01. Estúdio Cam 77a0c94c2b082a.jpg Livraria da Vila. Imagem por Estúdio Cam

Tudo começa com o primeiro olhar. Você está andando, distraído, pensamento longe, e então os olhares se cruzam e a magia acontece. Não pare, siga adiante, diz uma voz quase inaudível em sua mente. Mas você não a escuta e para. Desvie o olhar, desvie o olhar!, tenta gritar a voz. Seu olhar, todavia, não se preocupa muito em ouvir e prefere continuar apenas vendo. A voz então desaparece aos poucos e o único som distinguível no momento é o do seu coração; das batidas do seu coração, cada vez mais fortes e rápidas. Não tem escapatória, você foi fisgado, capturado, atraído pelo canto da sereia. Você está apaixonado.

02. livros-na-livraria0506_book-store_400x280.jpg Imagem via Alan Rinzler (Forbes)

O problema é que você acaba de se apaixonar por um livro. Mas não é um livro qualquer, é um livro de uma livraria. Todos sabem dos riscos de se apaixonar por livros em livrarias (eles são caros, muitas vezes mais do que se imagina, e não dá para você simplesmente levar seu amor com você para casa). Este pode ser um grande erro – mais um de tantos outros que te acompanharão. A diferença é que este erro costuma ser cometido com frequência, ainda que você diga que não o fará novamente. Se relacionar com livros que ficam expostos em livrarias é uma piores formas de relacionamento que existe porque, por mais que você insista e declare amor eterno, eles só sairão com você se... Você pagar por eles!

Não adianta dizer que agora será diferente. Por mais que você tente – e por mais que ela te diga que também o quer – a obra permanecerá exposta no mesmo lugar, todos os dias, até que você pague por ela. Você fala juras de amor, a acaricia, tenta despi-la folha por folha em suas mãos (isso quando não está presa dentro um plástico, um verdadeiro atentado aos seus instintos), só que não pode fazer com ela aquilo que deseja e que ela também diz querer tanto, porque se vocês começam o flerte e logo a intimidade se introduz, algo os lembra que não será daquela vez, que ainda não: o preço colado ao seu “corpo” ou fixado numa placa logo abaixo, que exalta suas qualidades ou destaca alguma promoção vagabunda de 10% (queremos promoção de verdade: no mínimo 50%!); sem contar nos demais livros ao lado, que os olham de forma ultrajante, como se estivessem fazendo algo inapropriado ao ambiente; ou os demais clientes da loja (cliente, não, eu não sou mais um cliente, você pensa), admiradores de sua escolhida, que o encaram esperando você sair para também terem a chance de estar com ela.

03. livraria_animacao_168796968.jpg Imagem por Diana Ribeiro

É um absurdo a exploração do corpo literário. Depois que você já foi capturado pela obra, pensa que ela só tem olhos para você. Imagina que suas palavras também são verdadeiras, que ela está sendo sincera ao dizer que você é o único… Ledo engano, doce encanto. Ela está lá, exposta, passada de mãos em mãos, explorada por homens, mulheres, adultos e até mesmo crianças e idosos (até mesmo por eles!). E não adianta gritar, espernear, fazer cena e dizer que vai embora e não volta nunca mais. As obras continuarão lá, com a mesma postura e olhar de sempre, pois elas sabem que somos indefesos ao seu poder de atração.

04. Livraria da Vila_03.jpg Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1731 - Jardim Paulista, São Paulo/SP). Imagem por Leonardo Finotti

É quando você percebe que não tem outro jeito senão... Por céus, não há. Você precisa... Comprá-la! Fato. Isso é angustiante, é cruel, é desliterário (vide desumano). Mas você precisa, não aguenta mais aquilo, a forma como ela é exposta, como todos a olham, a tocam, a querem. Você ouve seus pedidos de socorro, de me salve, de quero tanto estar com você, viver com você, só os dois, ouvindo música e fazendo leitura a noite toda.

Então você a compra. Ah, triste sina esta – pagar pelo grande amor de sua vida! E perguntam se você quer levá-la embrulhada, se é para presente. Será que não veem que tudo que você quer é tirá-la das amarras daquele lugar perverso, daquelas pessoas sádicas que parecem se divertir com seus sentimentos? Embrulhá-la, sério? Tudo que você quer é pegá-la nos braços e dizer que de agora em diante tudo ficará bem…

05. Merete Kivioja (2011) jdshfesj.jpg Imagem por Merete Kivioja (2011)

… Só que não ficará. No início será aquela paixão arrebatadora, dia e noite, quase sem parar. Você não conseguirá largá-la facilmente, não conseguirá pensar em outra coisa (seja na escola, na universidade, na ida ao trabalho, no trabalho e na volta dele, em qualquer lugar, você só pensa naquilo, só pensa nela). E ela estará lá, te esperando, te aguardando ansiosa para chegarem a novos níveis na relação, para ultrapassarem novos capítulos da história, enquanto o clímax só aumenta. Até que chega um momento em que de repente já não têm mais páginas a serem viradas, capítulos a serem deixados para trás. Acabou, simplesmente, acabou.

Não que vocês já não tenham mais interesse um no outro, longe disso, é o que você afirma a todos. No entanto, algo mudou. Ela começa a perceber que você já não mais a folheia como antigamente, já não mais a cheira nem a toca com a mesma sensibilidade (e até mesmo ousadia). Ela está na estante, ao lado de tantas outras obras. É sempre assim, no início ela te engana com seu charme avassalador. Mas depois de algum tempo o encanto se perde, chega ao fim.

06. estante-de-livros-weuifhiw.jpg Imagem Por Adriana Cecchi

Então ela começa a te observar mais atentamente e percebe que algo te angustia, que você está preocupado, deixando-o mais distante. Todos os dias aquilo, o que será que pode estar acontecendo?, se pergunta. No entanto, ela repara algo diferente. Você começa a usar outras roupas que não costuma usar com frequência, volta para casa mais tarde, já não a olha todos os dias quando chega. Não pode ser, pensa ela. Por outro lado, você também está numa situação delicada, não esperava que aquilo acontecesse assim tão rápido (e se pergunta se é mesmo possível, se está acontecendo de novo).

07. 7e643bc344aea3ec291965c8f5cd8420.jpg Charlie Bronw – Snoopy. Imagem via Pinterest

Até que ela o flagra, em sua casa, com outra – outra obra! –, ali, explicitamente, diante dela, você folheando-a com a mesma vontade com que a folheou um dia. Oh, não, isso não pode ser verdade, ela não quer acreditar. Mas você não tem como negar, seus olhos dizem tudo, você está apaixonado. De novo. No início ainda tentou resistir (a grana tá curta, as despesas estão aumentando e o espaço na estante diminuindo), só que não conseguiu (parcelava para várias vezes, sem juros e ainda mantinha o desconto de 30%). Você não pensa, não pensa, dizia aquela voz interior voltando a ser abafada dentro de ti. Mais um livro exposto na livraria. Mais uma obra em que não conseguiu desviar o olhar. E então começa, tudo outra vez.

08. TIRINHA PRODUZIDA PELO ARTISTA ARGENTINO LINIERS fsdfterg.jpg Tirinha produzida pelo artista argentino Liniers

Obs: no fundo não acredito que os livros sintam ciúme de outros livros. Nem tampouco acredito que o encanto de uma obra literária produzido em nós, leitores e leitoras, se perca com o tempo. Na verdade, o que mudam não são os livros, e sim nós. É certo que algumas obras, com o tempo, não gerarão mais aquela magia de quando havíamos sentido em nossa primeira leitura; como também pode ocorrer o contrário, pode ser que com o tempo a magia apenas cresça mais, aumentando também nosso apego ao livro. Um livro não tem ciúme de outro, mas talvez não se sinta muito confortável parado nas estantes. Por isso devemos fazer o possível para cuidar bem deles e permitir que novas pessoas, outras mãos e olhares (responsáveis por continuar cuidando deles), tenham acesso ao poder de nos levar a novas dimensões e voltar a enxergar a realidade com outras perspectivas. Não precisa sair por aí dando seus livros, se desfazendo deles. Apenas se sinta bem quando outras pessoas demonstram interesse em ler suas obras, emprestando-as ou presenteando-as quando for o caso. Tal como os brinquedos, os livros precisam de novas mãos, novos olhares, novos sorrisos (ou lágrimas, em determinados casos); e como os pássaros, eles precisam continuar batendo suas asas (nos fazendo sentir a emoção de voar junto com eles por meio de nossa imaginação).

09. Pinterest efaar.png Imagem via Pinterest


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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