desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Diálogos (im)possíveis: Manoel de Barros e Kazuo Ohno

Kazuo Ohno e Manoel de Barros (que eu saiba) nunca conversaram. No entanto, a potência motriz de uma aula possibilitou o encontro entre os dois artistas (e, por sorte, eu estava presente).


01. Ivan_Constantinovich_Aivazovsky_-_Exploding_Ship.JPG Imagem por Ivan Constantinovich Aivazovsky, “Exploding Ship”.

A nau incendiária da ficção”. Este é o nome da disciplina que o professor Leandro Belinaso está atualmente ministrando no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC. “A noção de ficção a partir de ensaios de Michel Foucault escritos sobre a literatura. Clausuras contemporâneas e experimentações ficcionais incendiárias. Naus ecosóficas: outras ficções de vida. Potencialidades da ficção para a pesquisa em educação”. Esta é sua ementa.

02. Imagem - Group DioNIS.jpg Imagem via Pinterest

É por meio dessas “experimentações ficcionais incendiárias”, ou dessas “outras ficções de vida”, que nossa embarcação levanta âncora, iça suas velas e parte para o desconhecido. Nesse admirável mar novo que navegamos, as surpresas pelo caminho são as mais variadas e inimagináveis possíveis. Se Deleuze afirmara que a aula é uma “espécie de matéria em movimento [em que] cada grupo ou cada estudante pega o que lhe convém”, aqui Leandro (até nosso próximo encontro também conhecido como o ponto da interrogação) dá um passo a mais (ou um passo em outro sentido), demonstrando que é possível, para cada grupo ou estudante, pegar também aquilo não lhe convém em uma aula.

E é justamente nesse movimento de captar ou pegar o que nos convém ou não, que em nossa última aula buscamos realizar o encontro entre três obras e seus autores, colocando-nos como mediadores deste processo. Compartilho aqui uma das tantas práticas incendiárias ficcionais que estamos tendo a oportunidade de inventar/experimentar, tornando possível o breve diálogo entre dois seres (um ser já vegetal que sonhava de mineral; e um ser de dança, de flor e de inseto), também conhecidos como Manoel de Barros e Kazuo Ohno.

03. Kazuo e Manoel dsdrf5454s.png Manoel de Barros (Eder Chiodetto/Folhapress/Arquivo) e Kazuo Ohno (Foto por Chris MaGee).

Como propõe a Colecionadora de Afetos [Sheila Hempkemeyer], a escrita aqui é entendida como uma “prática cotidiana que desvenda fragmentos de si, nossas versões inéditas e aquelas que se repetem editadas”. Logo, essa prática que apresento é mais de edição, que desvenda fragmentos de mim nos outros (Manoel e Kazuo), trazendo para o campo da (minha/nossa) realidade estes mestres da vida em um diálogo (im)possível, repetindo suas sabedorias (porém editando-as) em uma conversa composta muito mais pela força sugestiva de suas palavras (os gestos que emanam de seus pensamentos) do que por sua força explicativa ou conceitual.

O que me possibilita fazer uma releitura, uma reinterpretação/ressignificação de suas palavras/danças, ao me colocar como um transeunte no meio da noite, um flâneur, que por um momento resolve parar para se proteger da chuva que aumenta, quando então percebe, ali próximo, esses dois artistas também aguardando a chuva passar enquanto conversam distraídos, sem notar a minha presença.

04. maxresdefault55454.jpg

Situada a cena e os personagens (uma noite chuvosa, três sujeitos protegendo-se da chuva, dois deles conversando distraídos e o terceiro tentando escutar com atenção sem ser notado), sigamos para o diálogo:

– “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”, contou Manoel de Barros, que olhava firme pro chão até que uma forte luz no céu e seu subsequente som o fizeram mudar a direção do olhar.

Então Kazuo Ohno ficou um tempo olhando aquele céu em prantos, como se costurasse as palavras do Manoel em sua mente e em seu espírito. Até lhe dizer: – “É através do espírito que o vento sopra”. Mais um tempo em silêncio até que outro trovão cortasse o espaço entre os dois.

Manoel olhou para Kazuo e disse-lhe algo, mas não pude ouvir o início por conta de outro trovão. Lembro-me apenas de suas últimas palavras: – “Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres”.

Depois outro trovão, e mais outro, e um terceiro menos escandaloso. – “O que nós precisamos é efetivamente fitar nosso interior, olhar para nós mesmos”, refletiu Kazuo.

Aquilo pareceu deixar Manoel mais pensativo. Ele mexia em sua barba, movimentos curtos e lentos, então respondeu: – “Não tem altura o silêncio das palavras”.

Kazuo olhou para ele e depois para o céu, como se concordasse com o que acabara de ouvir. Em seguida, após um trovão cortar novamente o espaço, emendou: – “Aquilo que se ergue é efetivamente a sua dança”.

Manoel então pareceu se lembrar de algum episódio de sua trajetória de vida, olhando para o céu e suas luzes temerosas que continuavam a ressoar durante a noite. – “Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas de Corumbá. Me disse que as coisas que não existem são mais bonitas”, falou ele.

Outra luz muito forte tomou parte do céu, e antes de seu estrondo, Kazuo afirmou olhando para ela: – “Consciência cósmica, isso é Deus”.

05. Imagem via Ficção Científica Brasileira.jpg Imagem via Ficção Científica Brasileira

Então aquele barulho ensurdecedor veio em seguida. Parecia vir de todas as direções. Prolongou-se por um tempo; tempo suficiente para que os dois personagens fossem embora. Eles simplesmente tinham saído de modo tão imperceptível quanto eu ali chegara. Diante daquele diálogo – que agora penso ter sido um diálogo a três: Manoel de Barros, Kazuo Ohno e o Céu Tempestuoso – fiquei por um longo tempo pensando e tentando não esquecer as palavras que foram pronunciadas. Ao chegar em casa procurei minha mochila, peguei meu caderno de anotações, uma caneta e comecei a colocar no papel aquela conversa. Só quando finalizei percebi algo diferente. Notadamente diferente. Ali não estavam as palavras do Manoel e do Kazuo. Aquelas eram, na verdade, as palavras reveladas pelos trovões. "Como era possível", fiquei pensando, "conseguir traduzi-las?". Não sei. Depois de um tempo eu reescrevi a história conforme vocês a leram, com as palavras dos dois grandes artistas citados. Transcrevo a seguir a conversa completa, agora incluindo as palavras que cabem ao Céu Tempestuoso:

Contou Manoel de Barros: – “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”.

Em seguida um som forte respondeu: Há muitas maneiras sérias de sentir, mas para vocês só o pulso é verdadeiro.

Então Kazuo pronunciou: – “É através do espírito que o vento sopra”.

Depois de um tempo, outro trovão refletiu: É através do pulso que a vida sopra.

Manoel continuou: – “Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres”.

Então três trovões cortaram o espaço em resposta: Sem pulsar, já reparei, vocês perdem a chance de voar livres.

Ao que Kazuo, depois de um tempo, refletiu: – “O que nós precisamos é efetivamente fitar nosso interior, olhar para nós mesmos”.

O Céu Tempestuoso pareceu concordar, não emitindo nenhum trovão em resposta.

Manoel, mais pensativo, disse: – “Não tem altura o silêncio das palavras”.

Ao que um trovão correspondeu: Não tem chão o grito do pulso.

Kazuo olhou para ele e para o céu, como se concordasse com o que acabara de ouvir. E manifestou-se: – “Aquilo que se ergue é efetivamente a sua dança”.

Aquilo que se sente é efetivamente a sua dança. Qual a dança de vocês?, continuou o Céu Tempestuoso.

Manoel então pareceu se lembrar de algum episódio: – “Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas de Corumbá. Me disse que as coisas que não existem são mais bonitas”, falou ele.

O Céu concordou: As coisas que não existem continuam sendo as mais bonitas.

Outra luz muito forte tomou parte do céu e, antes de seu estrondo, Kazuo afirmou, olhando para ela: – “Consciência cósmica, isso é Deus”.

Então um trovão respondeu-lhe: Consciência corpórea, isso são vocês.

06. listen - cara mcdonald ss.jpeg Imagem via Cara McDonald

Essa história que acabei de narrar é apenas uma das tantas práticas incendiárias ficcionais que têm surgido nesse mar aberto na qual navegamos durante a disciplina inicialmente mencionada. Depois de finalizá-la, relendo-a, tive a sensação de estar diante de uma dialética do esclarecimento (ou de uma desalética do esclarecimento, como talvez Manoel de Barros preferisse denominar; ou ainda de uma dança do esclarecimento, como Kazuo Ohno preferisse). Neste caso, não importa muito o significado atribuído às palavras, mas os seus sentidos ou des-sentidos, aquilo que elas sugerem em forma de gestos e de sensações. Continuemos a navegar, guiados pelas estrelas, guiados por cada um de nós. Escutando-nos e buscando novos diálogos (im)possíveis.

Obras citadas BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.

BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.

Colecionadora de Afetos [Sheila HEMPKEMEYER]. Alumiações. Breve palavras, setembro de 2017.

DELEUZE, Gilles. O abecedário de Gilles Deleuze – P de Professor. Realização de Pierre-André Boutang, produzido pelas Éditions Montparnasse, Paris [No Brasil, foi divulgado pela TV Escola, Ministério da Educação], 1988/1989.

OHNO, Kazuo. Treino e(m) poesia. São Paulo: N-1, 2016.


J. Douglas Alves

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