desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Contos incendiários

Apresento três breves contos criados a partir do Seminário Especial intitulado “A Nau Incendiária da Ficção”, ministrado pelo Prof. Leandro Belinaso, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC.


04_fdfs_dasdas_fire.jpg Imagem via The Modern Observer Group

O título dessa postagem faz referência à disciplina “A Nau Incendiária da Ficção”, ministrada pelo Prof. Leandro Belinaso, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – e que já foi comentada por aqui anteriormente, no texto “Diálogos (im)possíveis: manoel de barros e kazuo ohno”. Os três breves contos incendiários que apresento têm temáticas distintas e foram produzidos como o trabalho de conclusão do curso. O primeiro conto, “Uma criança entre nós”, busca trazer uma reflexão sobre nosso modo de vida e sobre a lógica adultocêntrica que muitas vezes reproduzimos em nosso cotidiano; o segundo, “Refém do desespero”, atenta aos casos que parecem ser cada vez mais frequentes entre os professores brasileiros (todavia, peço que não o considerem de modo generalizado ao fim da leitura; este conto representa a realidade de muitos, mas não de todos e nem da maioria dos docentes em nosso país); e o último, “Assalto Gourmet”, retrata o aumento da tensão entre as pessoas associado ao descaso com a segurança pública (na qual, adianto: seria somente uma tentativa de ser cômico, se não fosse também trágico). A seguir transcrevo os contos e desejo uma boa leitura.

01_Imagem via Public Domain Pictures.jpg Imagem via Public Domain Pictures

Uma criança entre nós

Você está andando depressa. Parece preocupado – talvez esteja atrasado para algum compromisso. Não há ninguém por perto, as ruas estão vazias. Você nem percebe que anda sozinho tão concentrado está em suas obrigações. Então, você quase tropeça. Uma criança, parada bem na sua frente, surge do nada. A primeira coisa que pensa é: “De onde diabos surgiu essa criança?!”. Ela fica parada, olhando pro chão. Do alto de seu tamanho você fala para ela sair da frente e manda ter cuidado por onde anda. Mas ela continua parada. Você tenta desviar, seguindo pela esquerda; mas ela acompanha seu movimento. Então você tenta ir pela direita, e ela faz o mesmo – como se estivesse brincando – e você quase a derruba. “Não vê que está me atrapalhando? Sai logo da frente!”. Mas ela não sai. Sua vontade agora é de chutar ela para bem longe. “Escute aqui, estou falando sério, é melhor você sair logo da minha frente”. Ela continua olhando pro chão, sem dar a mínima para as suas palavras. Depois você pensa melhor e avalia que seria mais adequado chutar os pais ou os responsáveis dela por a deixarem ali, sozinha, atrapalhando o seu dia. “Merda, merda, merda”, sua mente poluída repete. “Vai atrapalhar a vida de outro e me deixa em paz!”. Mas a criança não deixa você passar e seguir adiante. “Vem cá, qual o seu problema? Nunca te ensinaram bons modos em sua casa? Você sabia que as crianças não podem tratar os adultos dessa forma?”. O silêncio permaneceu onipresente naquele espaço. “Parece que nem falar sabe!”, você grita. Então uma voz baixa e sutil diz: “Desculpa”, levantando o rosto devagar e olhando diretamente na sua direção. “Eu só queria lembrar”, conclui a criança. Por algum motivo você estranha aquele rosto e aquela voz. Há algo que não consegue identificar. Ela sai de sua frente e você segue, apressado, como se nem tivesse parado. No fim do dia, ao voltar para casa, antes de dormir, aquele episódio recobre seus pensamentos, e você entende porque estranhou aquela criança; é como se ela estivesse olhando diretamente para você agora. Aquela criança, na verdade, era você. Mas você não lembra.

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02_lisa_simpso_o_grito_43r.jpg Representação da obra “O Grito”, de Edvard Munch. Imagem via We Heart It

Refém do desespero

Ela chegou e foi sentando, parecia angustiada. “Preciso de ajuda. Me ajude, por favor”, disse logo em seguida. Não havia mais ninguém ali, só os dois. Ele fixou o olhar nos olhos perdidos e distantes daquela mulher. Antes que pudesse reagir a qualquer ação, ela voltou a falar: “Eu não consigo, já tentei de tudo, mas na consigo. Por que é tão difícil assim?”, perguntou, com os olhos prestes a transbordar. “Sei que sou fraca, sei que não aprendo com meus erros. Mas parece ser sempre a mesma merda. Sempre!”. Ele pensou em falar algo diante da situação (“Acalme-se, tudo ficará bem”; “Não precisa ficar assim, tudo passa, isso também passará”, etc.), porém as palavras e pensamentos se aglomeravam em sua mente/garganta sem conseguir dizer nada. “Você está me ouvindo!?”, gritou ela de repente, segurando forte em seu braço. “Está me ouvindo!”. Ele apenas balançou a cabeça o mais rápido que pôde, tentando afirmar que sim, ouvia ela em alto e bom som. Seu braço começava a doer e o olhar dela transmutava-se da angústia ao total desespero psicótico, como se o lançasse cada vez mais contra a parede, como se estivesse se aproximando de algum precipício. “Pense em algo, pense em algo, pense em algo e rápido”, era o que a mente dele repetia. Um som de sirene escolar interrompe o cenário. Ela solta o braço do menino, que pega de volta seu material que havia caído no chão e sai correndo em disparada – salvo pelo gongo, literalmente. O rosto da mulher, de aterrorizante entra em estado catatônico. Ela gira o corpo devagar; com dificuldade segue na direção da sala de aula. “Só mais uma aula”, pensa e repete a professora, antes de entrar.

03_tryr_Assalto_Charge.jpg Imagem do cartunista EDRA (Elcio Danilo Russo Amorim)

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Assalto Gourmet

Senhores e senhoras, ladies and gentlemen, boa noite. Sou o Michel Neves e estarei servindo vocês no assalto dessa noite. Por favor, fiquem à vontade, relaxados, aproveitando a brisa noturna, enquanto apresento nosso cardápio de assaltos do dia. Estamos com ótimas opções, a começar pela dica da casa: o assalto sem susto. Neste, vocês me passam todos os itens que tiverem à mão e escondidos, assim como todo dinheiro, e não preciso mostrar nenhum tipo de arma. O assalto é rápido e a digestão imediata. Nossa segunda opção é o assalto com susto. Para quem gosta de um tempero mais apimentando, vamos dizer. Geralmente, neste tipo de assalto utilizo uma faca ou outro objeto de ponta afiada, deixando-o próximo aos olhos do cliente para que ele saiba que não se trata de brincadeira. Dando prosseguimento ao nosso menu, apresento agora o traumatischer Angriff, ou assalto traumático. Este vem sendo considerado nosso campeão de vendas, para quem ainda não conhece consiste em um assalto com arma de fogo, o que faz com que muitos fiquem traumatizados quando experimentam essa opção. Na sequência temos o asalto secuela, ou assalto sequela, que se trata de atirar ou esfaquear em alguma parte do corpo do nosso cliente, com o devido cuidado para deixá-lo em condições de sobreviver. E nossa última opção de hoje é o assaut au revoir, ou seja, o assalto despedida. Em resumo, seria o seu último assalto nesta vida. Bem, são essas as opções para a noite de hoje. Peço desculpas por não entregar o cardápio impresso, é que tivemos um problema técnico com a gráfica responsável pela impressão. Não se preocupem, fiquem calmos, vocês podem pensar à vontade pois estamos com tempo. E caso haja algum estrangeiro no grupo, posso acionar a central ou chamar o gerente; em questão de instantes um tradutor aparecerá. No momento trabalhamos com tradução para o inglês, o espanhol, o francês, o italiano e o alemão – estamos providenciando novos profissionais, e em breve teremos tradução também para o russo e o mandarim. Ah, e temos ainda intérpretes de Libras, se for o caso. Aproveito a ocasião para deixar com vocês o meu cartão, se preferirem utilizar o sistema delivery. Então, já posso anotar os pedidos?

04_fire)dsdfasunnamed-4.jpg Imagem via Live of Nepal

Estes foram os três contos desenvolvidos para "A Nau Incendiária da Ficção" e que resolvi compartilhar com vocês. Espero que o tempo de leitura tenha sido proveitoso. Fiquem à vontade para compartilhar, deixar comentários, críticas, sugestões ou até mesmo para contar suas próprias histórias (fictícias ou não) relacionadas aos temas expostos. Obrigado.

José Douglas Alves dos Santos 27.12.2017


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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