desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Sobre a privada da Maitê Proença, Espiritualidade e Dinheiro

Compartilho a seguir o texto, na íntegra, escrito por Pedro Peñuela (artista da dança, psicólogo e pesquisador) sobre espiritualidade e dinheiro. Um texto pertinente. Uma reflexão necessária.


Obvious_privada_.jpg Imagem via Facebook

"Precisamos conversar sobre espiritualidade e dinheiro” é o título original deste texto, escrito pelo artista e psicólogo Pedro Peñuela. Foi por meio de Leo Nogueira Paqonawta, que o compartilhou com esse título mais sugestivo em seu facebook ("Sobre a privada da Maitê Proença, Espiritualidade e Dinheiro"), que tive contato com o tema. Não tinha lido ou ouvido sobre o assunto quando fiz a leitura; logo pude notar que se tratava de um texto muito pertinente e que trazia uma reflexão mais que necessária. Por isso também o compartilho, com a devida autorização do autor, na íntegra aqui para vocês - no intuito de ampliar o acesso a ele. Boa leitura e boa reflexão...

“Recentemente li um relato de Maitê Proença em que ela dizia que viveu uma experiência espiritual muito transformadora quando, numa viagem à Índia, o mestre espiritual da ocasião lhe disse para limpar uma privada e então ela o fez como uma forma de meditação e descobriu as maravilhas espirituais de limpar uma privada, coisa que ela nunca tinha vivido antes.

Ora, na volta ao Brasil, depois de sua "experiência espiritual", ela percebeu como essa ação poderia ser feita com minúcia e dedicação e que suas empregadas não a estavam executando com essa mesma entrega espiritual, de modo que a experiência vivida na Índia lhe estimulou a cobrar uma limpeza maior das privadas de sua casa por parte de suas empregadas.

Não consegui engolir a notícia, mas achei que os absurdos dessa história eram óbvios demais pra que eu ou qualquer outra pessoa precisasse escrever um texto sobre. Daí vejo hoje na minha linha do tempo a frase “Dinheiro e espiritualidade são a mesma coisa. Se sua consciência é abundante você terá também abundância de dinheiro.”

Não tenho nenhuma intenção de avaliar ou julgar a pessoa que proferiu a frase ou que a compartilhou, nem também a Maitê Proença, o Prem Baba e outros cujas atitudes muitas vezes estão incluídos no que quero questionar aqui. Esse texto não tem a intenção de julgar ou me colocar em alguma posição de superioridade, mas de provocar questionamento e sim, pro-ble-ma-ti-zar (essa palavra que tem se desgastado tanto aqui no Facebook), porque, sim, é muito necessário.

A palavra "espiritualidade" tem sido usada de forma tão ampla e vaga (e muitas vezes sem critério algum), que têm abarcado desde tradições muito antigas como as diferentes formas de budismo, as práticas de yoga, o vedanta, o taoísmo, ou o cristianismo nas suas mil vertentes, ou a cabala, ou religiões indígenas, ou pedaços recortados de rituais e saberes oriundos de povos indígenas, ou discursos modernos que cabem em frases curtas de facebook, ou adaptações de conhecimentos antigos pra velocidade dos humanos urbanos contemporâneos, etc. Ou seja, um guarda-chuva gigante e meio sem limites que abrange de A a Z e onde o trigo aparece muito bem misturado com o joio, e com todo tipo de outras coisas (de microplásticos a incensos de essências artificiais tóxicas).

Como tenho desde a adolescência estudado alguns sistemas de prática e pensamento que estão aí incluídos nesse guarda-chuva da "espiritualidade" (no meu caso, com mais afinco, o zen-budismo, o taoísmo e práticas de yoga e chikung), frases como essa que citei acima e depoimentos como o da Maitê me tocam muito e simplesmente não consigo ignorar e cuidar da minha vida sem falar nada a respeito. Sobre a Maitê, bom, será mesmo que é preciso dizer quão problemático é essa senhora - que mesmo bastante rica, ainda recebe até hoje uma gorda pensão do governo por ser filha de militar, tendo já criticado o bolsa família e outras políticas de mínima mitigação da miséria - considerar digno e aceitável relatar sua iluminação espiritual ao fazer uma viagem cara à Índia pra descobrir que pode também descer dos seus privilégios e limpar uma privada e então voltar ao Brasil e exigir que suas empregadas (que limpam privadas desde sua condição de não ter outra opção, não receber heranças nem pensões, viverem num país racista, feudal, cheio de todo tipo de heranças da escravidão) limpem melhor as privadas de sua casa? Espero que não, né?

A questão é que a Maitê, como tantas pessoas muito ricas que hoje "se espiritualizam" bastante ao praticar yoga, assistir as palestras da Monja Coen, compartilhar a flor do dia do Prem Baba, entre outros contatos com a "espiritualidade" disponíveis, sobretudo pra quem pode pagar e/ou pra quem teve mais opções do que somente passar por um sistema público de educação básica que já sequer consegue dar conta da aprendizagem mínima da leitura, tem considerado cada vez menos contraditória a ideia de que o dinheiro vem pra quem se espiritualiza e que ficar rico é sinal de consciência espiritual (ideia já presente no discurso dos protestantes calvinistas que impulsionaram o capitalismo colonial e todo tipo de exploração e destruição de povos originários cujos restos de saberes hoje rendem tanta grana nos workshops de xamanismo dados por descendentes de europeus).

Estamos num mundo em que 82% de toda riqueza produzida fica com apenas 1% da população, num país com níveis de desigualdade tão imensos que juízes e parlamentares ganham valores de auxílio-moradia maiores do que os ganhos de 92% da população. Num país em que quase metade das pessoas não têm acesso sequer a tratamento de esgoto. Num planeta cuja população ao mesmo tempo mantém padrões de consumo que já excedem a capacidade da natureza de regenerar os recursos naturais básicos (água, solo, oxigênio, vegetação) usados para sustentar os níveis de consumo atuais, e onde apesar de 1/6 da população viver (ou morrer) com fome e sem segurança alimentar, desperdiçam-se 2 bilhões de toneladas de alimento.

Em resumo, um mundo bastante desigual, em que a riqueza extrema e a miséria se interalimentam. Basta ver a lista das pessoas mais ricas e ficará claro o papel de setores como a mineração, a indústria de armas e de guerra, as grandes redes de roupa (frequentemente flagradas explorando trabalho escravo), etc. na geração do dinheiro e da riqueza, agora associados a consciência e elevação espiritual. Quer dizer que se fiquei rico fabricando e vendendo armas, nenhum problema, o dinheiro me seguiu graças a minha consciência de abundância? Não estou dizendo com isso que espiritualidade deva significar necessariamente pobreza, Muito pelo contrário.

Eu pessoalmente luto e acredito profundamente num mundo em que a riqueza chegue para todos, porque de fato, os dados acima mostram como a natureza e a cultura humanas são abundantes e que já há recursos pra que todo mundo viva uma vida muito melhor do que a vivida pela grande maioria. Há recursos e possibilidades pra uma distribuição justa da riqueza e pra que todo mundo desfrute de prosperidade e tenha suas necessidades materiais básicas totalmente satisfeitas. (Inclusive recomendo muito que quem estiver lendo e não conhecer, conheça os diferentes projetos que existem no mundo em torno da ideia da renda mínima).

Mas não parece justo e digno dizer que a riqueza seja sinônimo ou oriundo de consciência espiritual, ou seja indício de consciência espiritual (muito menos de bom karma ou boas ações em vidas passadas) e que a miséria seja oriunda de falta de consciência espiritual.

Aliás, depois de estudar bastante o budismo, depois de não aguentar mais ver retiros e eventos espirituais que cobram a metade do salário mínimo por um fim de semana de vivências e onde a única pessoa negra ou periférica era a faxineira que limpava o espaço recebendo o salário miserável que nossa sociedade naturaliza como o que lhe cabe receber, e depois de ter lido com atenção Lao Tzu e Chuang Tzu (sim, leitura básica imprescindível), acho mesmo que alguns dos grandes, dos maiores e mais lindos mestres espirituais que encontrei foram catadores de lixo, e também empregadas domésticas. Foram das pessoas que mais profunda e lindamente me ensinaram sobre espiritualidade e me mostraram quanto chão ainda tenho pra chegar um dia perto do grau de consciência espiritual e sabedoria que essas pessoas têm.

Não conheço hoje ao meu redor pessoas mais próximas do que diz o Tao te ching do que alguns dos catadores de lixo com quem tive o privilégio de conversar um pouco. E não, o dinheiro não os segue como o metal segue o ímã, eles não estão ricos graças à sua consciência espiritual, e também não cobram por suas palestras, nem levam você pra uma viagem maravilhosa à Índia, onde você terá experiências espirituais lindas se tiver estômago pra ignorar ou justificar a miséria que você verá lá (eu estive na Índia e posso falar mais sobre isso em outra ocasião se for o caso).

Se acharmos que espiritualidade é um conjunto de práticas gostosinhas pra classe rica se desestressar, ou um conjunto de discursos de teologia da prosperidade e sobre como ficar rico sem culpa ao se conectar com sua consciência de abundância sem muito questionamento sobre como o dinheiro é produzido, como e por onde circula em nossa sociedade, do meu ponto de vista, só estamos contribuindo pra embelezar com fotos de pôr do sol e flores de lotus uma realidade de miséria e desigualdade atrozes.

(Em tempo, se você se interessa por espiritualidade e dinheiro, além de ler livros sobre cabala do dinheiro, leis espirituais do sucesso, etc. recomendo muito a leitura do livro "Karma Cola", de Gita Mehta.) Namastê. Gasshô. Tashi Delek."

De Pedro Peñuela 08 jan 2018


J. Douglas Alves

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