desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Em resposta a “Sobre a seleção”

Algumas palavras sobre o futebol (descrito por Galeano como um "dos negócios mais lucrativos do mundo") e sua relação política e social a partir de um discurso contemporâneo.


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Realizei a leitura de um texto intitulado “Sobre a seleção”, compartilhado no facebook com essa imagem que representa a bandeira nacional brasileira. O texto dizia o seguinte:

“Eu torço pelo Brasil, para a seleção brasileira, honro as cores impregnadas na minha civilidade. Tenho a emoção de reunir com amigos e gritar, urrar, entrar em êxtase na hora do gol... Não há laços que remetam a ligação entre a Copa e a situação política atual... a Ex Presidente Dilma foi xingada, vaiada, durante o jogo de abertura da Copa no Itaquerão, e mesmo assim foi eleita presidente, três meses depois... há ligação alguma referente a favorecimento eleitoral?? Haverá para Temer?? Transformará de vilão a herói ou salvador?? A insatisfação com o desempenho do governo, principalmente, relacionado a economia está em 82%, isso mudará se a seleção for campeã, creio que não...não há relação alguma... Se você não torce pela seleção, você é antipatriota, chega a ser irritante escutar sermões do tipo “o país nessa situação e o povo preocupado com futebol”, “só querem saber de pão e circo”, “enquanto você grita gol, estão roubando nosso dinheiro em Brasília”, “que o Brasil caia na primeira fase”, “que venha outro 7 a 1" e por aí vai… quanta bobagem.. Torço pelo Brasil e preocupo com todas as dificuldades que estamos passando, e iremos sair dessa situação deplorável... deixarei de lado o mau humor dos que não enxergam a poesia que emana dos gramados. Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, Rede Globo de televisão, todos passarão, mas a seleção passarinha... continuará conosco. Sou nacionalista ufanista e torço pelo Brasil, se você não torce, sinto muito.”

02. dsdsImagem via Ian Leslie.jpg Imagem via Ian Leslie

Ao finalizar a leitura fiquei pensando que há muito mais “laços” e “relações” do que se pode imaginar quando pensamos em futebol e política (se ficássemos só no contexto nacional, já teríamos muito o que pensar a respeito). Pensar e acreditar no contrário, que isso não existe, eis algo que considero mais sério de discutir do que se as pessoas estão ou não torcendo para o Brasil e as justificativas para tal atitude.

Hoje (e esse hoje é figurativo, indica dizer algum tempo) o futebol é uma das indústrias mais lucrativas que existe, indústria essa que alimenta a economia que, por sua vez, financia e controla a maioria dos sistemas políticos nacionais. Essa articulação se dá por várias vias, sendo a maior delas a da indústria midiática, sobretudo a da televisão e da propaganda, que associa uma imagem de brasileiro/a a uma ideia de “brasilidade”, de identidade e unidade nacional, fazendo muitos acreditarem que seja natural, como se tivessem nascido com ela, como se viesse do âmago de cada um/a, e não como se fosse fabricada, construída, elaborada histórica-culturalmente.

E, diante deste aspecto, o triste é constatar que muitos ainda reproduzem (e aplaudem) discursos vinculados (inconscientemente ou não) a grupos e partidos ditatoriais que deixaram, na história da humanidade, um legado de discriminação, de preconceitos e de ódio – além de todo um rastro de sangue, morte e esquecimento – como a melhor alternativa política e social: “honro as cores impregnadas na minha civilidade”, “Se você não torce pela seleção, você é antipatriota”, “Sou nacionalista ufanista e torço pelo Brasil, se você não torce, sinto muito”.

Não me preocupo muito com quem torce ou deixa de torcer para o Brasil (ou qualquer seleção de futebol) e ainda de associá-la à sua nação, assim como para aqueles/as que queiram ou não demonstrar e manifestar isso; essa é, acredito, uma questão de cada um/a, não cabendo a mim fazer julgamentos. O que me preocupa nesse tipo de discurso, desvinculado de qualquer historicidade – compreensível se lembrarmos que vivemos em um país onde o investimento e o estímulo ao próprio futebol é superior à leitura e ao ato de ler, por exemplo – é o fato de que ele geralmente traz uma ideia de prática social que está diretamente articulada a uma visão excludente e contra-humana: para se afirmar e impor a “minha” imagem (soberana, verdadeira, melhor), é preciso denegrir a imagem do outro (subalterna, falsa, inferior). O discurso que busca uma “unidade” se contradiz ao mencionar o outro, aquele que pensa e age diferente.

Seguramente, a ausência daquilo que poderíamos aqui relacionar ao que o historiador alemão Jörn Rüsen denominou de “consciência histórica”, que é o desenvolvimento de uma concepção de mundo que situe os indivíduos no tempo e no espaço que lhes são próprios, na forma de saberes (escolares ou não escolares) relacionados à sua vida prática, contribui para que esse tipo de discurso seja encontrado com certa facilidade no meio social – sobretudo no espaço das redes sociais. Uma consciência histórica possibilitaria ter uma melhor compreensão do mundo e, dessa maneira, realizar uma interpretação mais cuidadosa e coerente das experiências e dos fenômenos que acontecem nele. Nesse caso, ainda que se leve em consideração o fato de que o texto está falando de uma ligação do futebol com “a situação política atual”, é conveniente lembrar que a política, ou este cenário político, tem bases históricas muito bem sedimentadas, e que não foi por acaso ou obra do destino que chegamos ao estado que estamos hoje. Para melhor compreender esses tipos de discursos, talvez possamos fazer uma aproximação também com o que Paulo Freire descrevia como a passagem de uma “consciência ingênua” (aquela ainda incapaz de interpretar de modo mais consistente o mundo e seus processos históricos, de relacionar as causas aos fatos, de compreender a história e de articulá-la à História, caracterizando-se como uma posição passiva onde o mundo é determinado e a verdade sobre ele já foi dada e não supõe questionamentos) para a de uma “consciência crítica” (capaz de se colocar historicamente dentro do mundo, de se posicionar como sujeito histórico, de perceber com mais profundidade a História, de interpretá-la de acordo não apenas com os referenciais hegemonicamente estabelecidos, mas com outros parâmetros, outros olhares, por meio de outra lógica). Consciência histórica e consciência crítica da História, eis aspectos essenciais que perpassam a forma de ver e se ver o/no mundo.

03. fsdfewsfgds.jpg Imagem via Caneta e Café

Nenhum tipo de discurso está fora ou longe do contexto em que foi produzido, e como bem ressaltou Hannah Arendt, “o discurso é uma forma de ação”. Daqui a pouco estaremos tendo mais uma eleição, onde “coincidentemente” há um candidato que traz em suas falas ideias muito semelhantes desse “sentimento nacionalista”. Há ainda outro agravante, o de que algumas pessoas voltem a defender, nas escolas públicas do país, a educação moral e cívica como disciplina obrigatória – por considerar que ela também não apresenta nenhuma relação política...

O principal efeito prático do futebol na política é justamente o de silenciar sua discussão – ainda mais nesse período conturbado em que estamos quando muitos abutres tentam avançar para cima do poder público, aproveitando a chance que eles mesmo criaram numa jogada onde bandeirinha nenhum viu impedimento, o árbitro atrás do gol sequer viu jogada ilegal e o juiz dentro de campo (ainda que assegurado pelo árbitro de vídeo) também não notou qualquer lance fora da regra. Não se trata de agora politizar o futebol e correr o risco de perder o pouco de seu brilho que resta nesse esporte cada vez mais elitizado e burocratizado – e, por isso mesmo, já bastante politizado. Tirá-lo em absoluto da discussão política é aqui o maior risco, pois o que nos une como “nação” está muito além de onze jogadores, uma bola na rede e outro possível troféu levantado.

Obs.: deixo uma dica muito boa para quem gosta de futebol e, também, de ler. Há um ótimo livro para conhecer e aprender mais sobre futebol e seu vínculo político, cultural, social. Chama-se “Futebol ao sol e à sombra”, do Eduardo Galeano. Nessa época de Copa do Mundo, torna-se uma ótima companhia para antes, durante e/ou após os jogos.

Para as referências dentro do texto, sugiro a leitura de: Teoria da história: uma teoria da história como ciência e Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica, de Jörn Rüsen; A educação como prática da liberdade, Educação e mudança e Política e educação, de Paulo Freire; e ainda A promessa da política, de Hannah Arendt.


J. Douglas Alves

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
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