desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Entre uma arma e um cachorro, escolha a segunda opção

A discussão sobre posse de armas de fogo no Brasil continua gerando muita controvérsia. Para tentar contribuir na compreensão do que isso pode resultar, trago dois simples exemplos.


bmzvatyx2h0rlayedfvhutico.jpg Fonte da imagem: Canal do Dog

"A bala tem sempre duas pontas. Morre a vítima, de um lado. Do outro, sucumbe sempre o próprio matador." (Mia Couto, em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra").

No final do ano passado, após os tristes acontecimentos que marcaram a política brasileira, a discussão sobre posse de armas de fogo no Brasil (um dos principais pontos da campanha de Jair Bolsonaro) ganhou muita força e repercussão. Ao defender que os cidadãos "de bem" (expressão que mais parece reforçar uma prepotência e/ou ignorância daqueles que a utilizam) tenham acesso às armas de fogo, o atual presidente amplia o nível de violência a uma nova escala, ainda mais assustadora, considerando que a situação no território nacional já pode ser considerada alarmante em muitos casos.

Uma das primeiras medidas tomadas pelo então presidente foi assinar, em 15 de janeiro de 2019, um decreto para facilitar a posse de armas de fogo no país. Com o velho discurso de auto-defesa, o "controverso decreto autoriza a posse de uma arma de fogo em casa ou no trabalho, mas não permite que ela seja transportada em locais públicos". E com isso muitos de seus eleitores podem justificar a "sensatez" (é até difícil utilizar essa palavra aqui) de seu representante (de quem, também é difícil saber), ao pensarem que isso de fato contribuirá na maior segurança pessoal, e que o discurso dos que pensam diferente é sensacionalista e/ou ideológico, pelo simples fato de terem perdido as eleições.

No início de abril aconteceu, no Rio de Janeiro, aquela que é considerada a maior feira de armas da América Latina. Um dos presentes no evento, eleitor convicto de Bolsonaro, chegou a afirmar que a proposta do presidente ajudava a desaparecer o que ele chamou de "tabu em torno das armas", uma vez que "as armas não são perigosas em si mesmas, mas apenas de acordo com as intenções daqueles que as possuem". Refutar a suposta ideia de que as armas não estarão expostas em espaços públicos, como descreve o decreto, e que elas não são perigosas em si mesmas, como afirma o eleitor de bolsonaro, não é tarefa das mais difíceis; basta para isso um pouco mais de atenção aos sinais que a realidade tantas vezes nos apresenta.

Para demonstrar isso, compartilharei duas histórias, um narrada por um amigo, Thiago Santos, e a outra por John Grogan. A primeira, um relato muito poético da perversa realidade que se configura, diz o seguinte:

Hoje (06/12/2018), ao ir a UFS na minha ida cotidiana, pego a linha 060 e me deparo com uma situação um tanto complicada (nunca vista por mim antes nestas condições). Um senhor armado, claramente nervoso, ataca verbalmente outra pessoa, por suspeitas de roubo. Se autodenominando "cidadão de bem", sente-se no direito de fazer justiça com as próprias mãos. "Eu sou cidadão de bem, você é bandido", dizia em bom som. Daí, lanço uma nota de cuidado. Cuidado! pois eles definem quem é bandido Cuidado! Você que 'rouba' do governo os direitos básicos garantidos na constituição Cuidado! Você que tem tatuagem Cuidado! Você que é LGBTQ Cuidado! Você que é de outra religião Cuidado! Você que está na guerra e pede paz ...Eles pedem paz e fazem a guerra... Cuidado! Seja lá o que você pense, haja, seja lá quem queira ser ... Uma vez atirada, bala não escolhe cor, raça, credo, status sociais ... (Thiago Santos)

As armas ficarão mesmo restrita aos ambientes domésticos e de trabalho? Isso parecer ser algo pouco provável de se concretizar. Mas, imaginando que tal realidade se concretize, será que o fato de ter armas em casa não traria mesmo nenhum risco? Desconsiderando os inúmeros casos de morte por acidente quando crianças e jovens encontram o "esconderijo" das armas, fiquemos com o exemplo descrito por John Grogan:

Esqueça a arma, tente a segurança de quatro patas Quando o sequestrador entrou no quarto de Laura Staples, 8 anos, naquela noite de domingo em 1998, esqueceu de levar em consideração um ponto importante. A casa dos Staples em Hatboro estava equipada com uma arma secreta muito poderosa e preparada para evitar exatamente esse tipo de crime. Uma arma com potencial para matar, mas com a garantia de nunca ferir acidentalmente um membro da família. A arma não era um revólver ou espingarda ou mesmo um obus. Não atendia pelo nome de Glock ou Colt ou Ruger. Atendia pelo nome de Rocky: um cão rhodesian ridgeback com cerca de 50 quilos de músculo poderosos. O intruso sacou uma faca e cobriu a boca de Laura com a mão, enquanto os pais da menina, Michael e Joan, dormiam no quarto ao lado. "Ela tentou resistir, mas aquele homem horrendo a dominou e começou a descer as escadas com ela", disse seu pai na semana passada. Enquanto lutava inutilmente com o agressor, seu pé derrubou uma foto da parede. O barulho não foi suficiente para acordar seus pais, mas acordou Rocky, que estava dormindo no terceiro andar – onde não deveria estar – com a irmã mais velha de Laura, Megan. O cão desceu correndo as escadas, om os dentes arreganhados, e deu o bote. "O sujeito tentou usar Laura como escudo, mas Rocky foi mais esperto, lembrou Michael Staples. "Mordeu o canalha como pôde."

Prova irrefutável O invasor soltou Laura e correu para a porta. Rocky o perseguiu e agarrou o braço do homem com suas mandíbulas, deixando uma ferida pavorosa que o investigadores depois usaram para incriminar um suspeito preso nas redondezas. A essa altura, os gritos de Laura tomaram conta da casa. E seu pai surgiu correndo escada abaixo com uma arma que mantinha guardada para proteger a casa. O mau elemento já havia ido embora, o que era uma coisa boa, Staples percebeu. A adrenalina estava a mil, o coração disparara, as têmporas latejavam. Só se ouviam os gritos, a confusão era generalizada. Em questão de segundos, tinha saído do sono profundo e estava tentando entender um crime não consumado, que poderia ter abalado sua família para sempre. Staples, caçador experiente e entusiasta do tiro, não estava com condições de tomar qualquer decisão que significasse uma questão de vida ou morte tendo uma arma carregada nas mãos. – Eu estava fora do meu corpo. Eu não era Mike Staples. Era o Hulk. Eu não teria dúvida em estourar a cabeça de alguém – disse o pai. Até hoje, ele treme só de pensar no que poderia ter acontecido se ele, e não Rocky, tivesse encarado o sequestrador na escada, ele segurando uma arma, o sujeito segurando Laura. – Se eu me metesse na confusão com a arma, coisas ruins poderiam ter acontecido – ele disse. – Quando você dá com um cachorro de 50 quilos descendo as escadas na sua direção, não há negociação possível.

Gratidão eterna Passaram-se oito anos desde aquela noite terrível. Frankie Burton, o pedófilo, foi condenado pela tentativa de sequestro e enviado para a prisão, onde cumprirá uma pena de 42 a 118 anos. Laura, agora com 16 anos, irá fazer o colegial na Hatboro-Horsham High School, onde integra a equipe de corrida cross-country. Depois de anos de terapia, as feridas psicológicas estão desaparecendo lentamente. Rocky, um encrenqueiro incorrigível, que em mais de uma ocasião foi trazido de volta para casa no banco de um carro de polícia depois de sumir para namorar as fêmeas de Hatboro, ganhou jantares com filés, um desfile e o Prêmio National Dog Hero 2000, conferido pela Sociedade para a Prevenção da Crueldade com os Animais de Los Angeles. E o que é mais importante: conquistou a gratidão eterna de sua famíla. Três anos atrás, os veterinários diagnosticaram um câncer em Rocky. Ele morreu na noite de 12 de maio de 2004, véspera de seu nono aniversário. – A sensação de perda foi algo inconcebível – disse Staples. – Esse cão salvou a nossa família. Não existem palavras para expressar a emoção ou a dor. Os Staples agora têm outro garoto encrenqueiro. Seu nome é Júnior, e normalmente pode ser encontrado dormindo aos pés de Laura. Staples é um esportista que se sente à vontade com armas. Mas acha que a experiência de sua família serve de lição para aqueles que estão pensando em comprar uma arma para proteger a casa. – Pensei muito nessa questão das armas – ele dissse. – Depois desse episódio, simplesmente tranquei a minha. As armas não funcionam em uma casa. Um cachorro é realmente a melhor coisa. E é por isso que digo a todo mundo que conheço: não adquira uma arma, arranje um cachorro.

Na dúvida, compre um cachorro. E se não puder comprar um cachorro, não compre uma arma. Simples.


José Douglas Alves dos Santos

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