desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Seleção dos sonhos (de educadores/as)

E se fosse possível formar uma seleção de futebol com grandes educadores/as da história brasileira? Utilizando a força imaginativa, montei minha seleção dos sonhos.


00_seleção_dos_sonhos_00.png Imagem original: Equipe do Brasil, com Romário e Ronaldo como titulares, para o amistoso contra a Alemanha, em 1998. Foto: Michael Dalder/Reuters - 26/3/1998 (aqui editada pelo próprio autor do texto)

O Futebol é uma das grandes paixões da maioria dos brasileiros, isso ninguém tem dúvida. Seja em época de Copa do Mundo ou mesmo em disputas estaduais, com o forte apelo da mídia – que busca fazer de um Flamengo x Bangu pelo Campeonato Carioca um evento tão memorável quanto um Barcelona x Manchester United pela Ligas dos Campeões – essa paixão mexe com as pessoas de um modo que uma análise acadêmica, por mais bem feita que seja, dificilmente consegue alcançar a complexidade que envolve esse esporte, de tamanha força e atração popular. Para isso, um aliado é a literatura, e sobre o assunto recomendaria dois livros do uruguaio Eduardo Galeano: “Futebol ao sol e à sombra” e “Fechado por motivo de futebol”.

Eu também sou fã do futebol, principalmente do futebol bem jogado, a exemplo do Flamengo de Zico na década de 1980, do Barcelona de Messi na segunda metade dos anos 2000 em diante e do Manchester City de Guardiola atualmente. Assim como sou fã do futebol, sou um fã ainda maior da Educação (dos processos educativos, de ensino e de aprendizagem, sejam eles de caráter formal, informal ou não-formal). E se o futebol-arte me fascina, uma educação-arte também causa tamanho efeito; não confundir educação-arte com a disciplina educação artística. Refiro-me aqui às práticas pedagógicas que conseguem envolver discentes e docentes em uma experiência auto-formativa geradora de possibilidades, que despertam a curiosidade pelo aprender e estão baseadas, sobretudo, em ações afetivas, estéticas e humanas – de escuta sensível e olhar atento sobre o que acontece com os outros e com nós mesmos durante tais processos.

Uma prática que costumava fazer quando criança era a de criar listas, dos melhores discos, das melhores músicas, dos melhores videoclipes, entre outras. Uma lista em especial era a dos melhores jogadores, que formariam em minha mente a equipe ideal, aquela que ganharia qualquer torneio que disputasse. Eu fui crescendo, e enquanto crescia ia também deixando de lado a produção de listas como essas que mencionei. Todavia, nada me impede vez ou outra de adormecer o adulto que hoje sou e acordar a criança que ainda reside em mim (como acredito que resida em cada um de nós). Então voltei a fazer uma nova lista dos melhores jogadores, só que essa tem uma diferença substancial: não se trata mais dos melhores jogadores do futebol, e sim dos melhores ‘jogadores’ da história da Educação brasileira. A ideia surgiu depois que um amigo e colega do doutorado, o moçambicano Machaia Muhammade Mualaca, pediu ajuda para listar grandes educadores brasileiros. Diante do desafio, fui começando a pensar em quais nomes não poderia deixar de fora, apesar de saber que minha memória certamente esqueceria alguém que não ‘deveria’ esquecer. A lista ficou com 26 nomes, de diferentes áreas do saber ligados ao processo educativo no Brasil, e depois de enviá-la me veio em mente a ideia de filtrá-la ainda mais e criar uma nova lista: a da seleção do sonhos a partir desses nomes. Tarefa nada fácil. Deixo a seguir os/as 11 titulares e alguns/mas “reservas” (que seus ‘fãs’ me perdoem por deixá-los no banco) da Educação brasileira. Antes de seguir para os nomes, convém enfatizar que se trata tão somente de uma atividade imaginativa criada sem fins acadêmicos, mas que possui um caráter lúdico e pedagógico, ao aproximar alguns dos nomes que integram o cânone da cultura nacional à população em geral, pela analogia ao futebol. Quem sabe dessa forma mais pessoas possam conhecer alguns dos ‘astros’ da nossa história, que tanto fizeram/fazem pelo nosso país – e assim os vejam como ídolos tão importantes quantos os Pelés, Zicos, Ronaldos, Romários, Martas, etc.

01_Manoel_Bomfim_1.jpg Manoel Bomfim. Imagem via Opera Mundi, por Paulo Victor Melo

Para começar, qualquer seleção dos sonhos precisa de um goleiro de qualidade ímpar, que impressione por sua agilidade e pela atenção constante, mesmo quando o jogo parece tranquilo. Dentro de sua área ele é o dono, e sua força impõe-se pela confiança que transmite aos jogadores de sua equipe e pelo medo que gera nos adversários. Além disso, levando em consideração o movimento que reconfigura a posição do número 1 em nossos tempos, é desejável que ele também tenha habilidade para sair jogando com os pés, tendo maior participação durante a partida, ao ser acionado quando necessário. Por isso, o nome escolhido para assumir essa posição na seleção dos sonhos composta por educadores brasileiros é o de Manoel Bomfim (1868-1932), esse sergipano, nascido na capital Aracaju, autor de vasta obra em diferentes áreas (Psicologia, Medicina, História, Sociologia, Educação, entre outras). Bomfim, ao contrário do pensamento hegemônico na época, contrariava a tese de que o atraso brasileiro e latino-americano era uma consequência natural devido a nossa “composição étnica, climática ou de uma suposta inferioridade racial”. Não obstante, ao ir contra os “determinismos étnicos, climáticos e geográficos e aprofundar-se na formação colonial para explicar os problemas brasileiros”, ele também acreditava que seria por meio do investimento na educação que conseguiríamos superar esse ‘atraso’ em nossa sociedade. “É possível dizer que Bomfim antecipou algumas idéias posteriormente adotadas pela Psicologia, como as de Vigotski e Piaget, assim como teria antecipado as idéias de Ernest Bloch e Antonio Gramsci em sua interpretação da sociedade. Entretanto, Bonfim permaneceu esquecido na historiografia brasileira, fenômeno esse que pode ser parcialmente explicado por suas diferenças e pela contraposição de seus pensamentos para a época”. Considerando uma seleção brasileira de educadores/as, a torcida ficaria tranquila sabendo que debaixo das traves teríamos um dos melhores de nossa história.

02_Heitor_Villa_Lobos_2.jpg Heitor Villa-Lobos. Imagem via Revista Verso e Arte, por Osvaldo Colarusso

Dando continuidade aos titulares dessa seleção dos sonhos, para ocupar a vaga na lateral direita a preferência seria a de alguém que dominasse a técnica e a arte daquilo que faz. Um jogador inteligente, seguro, que defende tão bem quanto ataca. Quem melhor para essa posição senão Heitor Villa-Lobos (1887-1959)? De acordo com a Academia Brasileira de Música, esse carioca, nascido no Rio de Janeiro, sedimentou suas referências musicais em três diferentes momentos: na primeira década do século XX, com a música popular urbana do Rio de Janeiro, o folclore musical brasileiro, o impressionismo francês e a música de J. S. Bach; na década de 1920, considerado o período de suas mais arrojadas e vanguardistas obras, sendo “também o período em que se faz conhecer internacionalmente, quando realiza suas viagens a Paris”; e o terceiro momento seria o da década de 1930, “quando Villa-Lobos abraça a causa da educação musical e desenvolve o projeto do Canto Orfeônico, juntando multidões em estádios de futebol com o apoio do governo de Getúlio Vargas”. Um dos objetivos de Villa-Lobos era abrir um diálogo entre cultura erudita e cultura popular, e neste sentido ele “soube criar um estilo que fosse “síntese” entre o melhor do folclore nacional e o melhor da tradição erudita europeia: em conformidade com os cânones da época, Villa almejava a construção do nacional numa linguagem que pudesse ser também apreciada pelo mundo exterior, inserida nos “padrões aceitos” por este último”. Logo, o músico educador brasileiro teria o perfil necessário para assumir nossa lateral-direita: firme em suas posturas, ele seria como aquele jogador amado por todos os torcedores, desde os que ficam assistindo os jogos de modo passivo em seus camarotes, aos mais fanáticos da antiga geral – me refiro aqui aos icônicos personagens do setor mais popular do Maracanã, a famosa geral, que em 2005 foi demolida para que o estádio se enquadrasse aos ‘padrões europeus’.

03_e_04_cecília_e_éclea.png Cecília Meireles e Éclea Bosi. Imagens via Revista Bula, por Carlos Willian Leite e Revista Pesquisa, por Mariluce Moura

Considerando que atualmente os zagueiros têm se concentrando não apenas no aspecto físico, mas também no domínio da velha pelota, de ter calma e sangue frio frente aos lances mais inesperados e aos atacantes mais habilidosos, além de ainda ter a tranquilidade necessária para saber sair jogando sem recorrer aos chutões desesperados e sem direção definida, optamos em nossa zaga por duas educadoras brasileiras: Cecília Meireles (1901-1964) e Éclea Bosi (1936-2017). Cecília, “a grande voz feminina da Poesia Brasileira”, também nascida no Rio de Janeiro, seria o tipo de zagueira que qualquer clube e seleção gostaria de ter no elenco. Autora de uma refinada literatura, que demonstrava uma poética concepção de mundo, além de um trabalho educativo exemplar (em 1934, ao ser designada para dirigir um Centro Infantil, ela criou “a primeira Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro”), essa jovem educadora e jornalista teria vaga garantida na equipe. E para atuar ao lado de alguém com a elegância e a disposição de Cecília, um bom nome para compor nossa dupla de zaga seria a da experiente Éclea Bosi, que conseguiria equilibrar o ímpeto de nossa jovem escritora com a segurança necessária para que não corrêssemos riscos. O que Cecília teria em velocidade, Éclea teria em visão de jogo, dando o bote certeiro nos jogadores.

05_furtado_e_freyre.png Celso Furtado e Gilberto Freyre. Imagens via CAECO e SEED-PR

Em frente à zaga teríamos alguém que impusesse respeito em relação aos adversários e à própria equipe. Pensando nisso, Gilberto Freyre (1900-1987) poderia ser como a figura de Dunga na época do Tetra em 1994. Firme em suas jogadas, daria ainda mais força e experiência à equipe. No entanto, ainda pensando nessas características e levando em consideração que o número 5 de nossa seleção poderia também ser o famoso “professor” ou “arquiteto”, o “maestro” da equipe, que orientaria e organizaria a parte defensiva e faria a ligação com a ofensiva (tal como fizeram Claudio Maldonado na seleção chilena, Andrea Pirlo na italiana, Steven Gerrard na inglesa, Xavi Hernándes na espanhola, ou como fazem Toni Kroos na Alemanha e Luka Modrić na seleção croata atualmente), outro nome talvez pudesse se destacar e ganhar a titularidade, que seria o de Celso Furtado (1920-2004). Esse sertanejo nascido no interior da Paraíba, na cidade de Pombal, foi um dos mais respeitáveis pensadores brasileiros, integrando a “Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), [...] única escola de pensamento econômico surgida no Terceiro Mundo”, e junto com o economista argentino Raúl Presbisch, o maior protagonista da instituição. Posteriormente elaboraria “para o governo federal o estudo "Uma política de desenvolvimento para o Nordeste", origem da criação, em 1959, da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE)”. Durante o governo de João Goulart, “foi o primeiro titular do Ministério do Planejamento (1962-63)”, e com o golpe civil-militar de 1964, ao ter os direitos políticos cassados, dedicou-se “então à pesquisa e ao ensino da Economia do Desenvolvimento e da Economia da América Latina em diversas universidades como as de Yale (EUA, 1964-65), Sorbonne (França, 1965-85), American University (EUA, 1972), Cambridge (“Cátedra Simon Bolívar”- Inglaterra, 1973-74), Columbia (EUA, 1976-77)”. Continuou pensando o Brasil e suas problemáticas econômicas e sociais até o fim de sua vida, ocupando cargos de destaque em diferentes órgãos e instituições. Com todo esse currículo, nosso frente de zaga saberia lidar com as adversidades sem perder seu estilo de jogo.

06_janine_e_frigotto.png Renato Janine Ribeiro e Gaudêncio Frigotto. Imagens via Companhia das Letras e CUT-SC

A lateral esquerda é a posição de um jogador que tenha ousadia e habilidade garantidas. No rol de grandes educadores nacionais, um nome que vem se destacando neste aspecto é o do paulista natural de Araçatuba, Renato Janine Ribeiro (1949-), o mais jovem jogador dessa seleção. Ele que já foi ministro da Educação do Brasil, num período conturbado de nossa recente história, tem demonstrado domínio de seu território e tem o potencial esperado em um lateral-esquerdo, que é o de desestruturar a defesa adversária ao inovar em jogadas muito bem executadas e fazer cruzamentos na área como se estes fossem passes precisos para o gol. Com seu faro de gol aguçado, Janine também poderia ser usado, em determinados jogos, para atuar como meia ofensivo, uma vez que teria gás para atacar e defender. Com sua inabalável filosofia política, o número 6 teria uma ótima relação com a torcida por demonstrar dentro de campo uma disposição impressionante, sempre acreditando na vitória, mesmo que o jogo estivesse nos acréscimos do segundo tempo. E como primeiro substituto, ou alguém que assumiria a lateral esquerda quando Janine fosse para o meio-campo, teríamos outro jovem educador brasileiro, o gaúcho Gaudêncio Frigotto (1947-), natural de Antônio Prado, “que se projetou nacionalmente “como um intelectual crítico nos pequenos e grandes embates” sempre se colocando entre os melhores intelectuais que labutam em prol da educação pública de qualidade social que queremos, sempre em sintonia com os problemas da nossa vida social, política e econômica”.

07_florestan_e_chauí.png Florestan Fernandes e Marilena Chauí. Imagens via Geledes e Companhia de Letras

Para a camisa número 7 precisaríamos de um meia que ligasse a zaga ao ataque de modo rápido e preciso. Seria uma versão melhorada do William Arão no atual Flamengo, ou um Juninho Pernambucano na época do Vasco no final da década de 1990, ou ainda um Iniesta do Barcelona recente ou um Rakitić na atual equipe do Barça (com mais velocidade para marcar os adversários em cima). Um jogador que seria a primeira opção de passe para o número 5, e que avançaria a bola ao número 10 da equipe ou diretamente aos atacantes, além de marcar gols com frequência. Ele teria um chute e passe certeiros, surpreendendo o goleiro ou a zaga adversária. Para tal posição o nome ideal seria Florestan Fernandes (1920-1995), tendo como primeiro substituto a Marilena Chauí (1941-), que poderia entrar em jogos complicados no lugar de algum centroavante para deixar o Florestan mais livre para atacar, sem se preocupar tanto com a parte defensiva. Essa dupla de paulistas certamente daria muitas dores de cabeça às equipes adversárias, devido a inegável qualidade técnica que apresentam. Na seleção eles teriam a desenvoltura de um Mané Garrincha, ou para citar dois jogadores contemporâneos, teriam uma postura de jogo semelhante ao de David Silva e Leroy Sané (só que com mais comprometimento coletivo), ambos do Manchester City.

08_milton_e_brandão.png Milton Santos e Carlos Rodrigues Brandão. Imagens via Portal Aprendiz e Astrolábio

Para jogar ao lado de Florestan Fernandes, precisaríamos de alguém que tivesse uma técnica também muito refinada e experiência suficiente para ficar com a braçadeira de capitão (sempre entregue à Éclea Bosi em caso de substituição). Dois nomes se qualificariam para a posição: Milton Santos (1926-2001) e Carlos Rodrigues Brandão (1940-), seu substituto imediato. Nascido em Brotas de Macaúbas, o baiano Milton Santos foi um dos maiores intelectuais brasileiros, ganhando em fevereiro de 1994 o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin-Lud, “o único agraciado com o prêmio considerado o “Nobel da Geografia” fora do eixo Europa-América do Norte”, isso até 2017, quando “o nigeriano Akin Mabogunje, da Universidade de Ibadan e ex-presidente da União Geográfica Internacional, quebrou esse tabu e se tornou o segundo geógrafo do Sul Global” a também levar o prêmio. Depois de treze anos exilado no exterior, Milton Santos retornou ao Brasil e seus livros, amplamente publicados e conhecidos fora do país, foram finalmente reconhecidos em solo nacional. “Suas ideias foram responsáveis pela renovação de boa parte dos conceitos e temas debatidos na geografia brasileira”. Detentor de um abrangente conhecimento sócio-espacial, Milton Santos se destacaria pela orientação tática dos jogadores e pela ampla visão de jogo, como se olhasse a partida do alto, da arquibancada. Não estaria muito preocupado em marcar gols, mas seria comum que levasse o prêmio de melhor em campo durante os jogos e torneios. Devido ao seu comprovado saber e à sua experiência, a braçadeira de capitão seria mais do que justa. O carioca Carlos Rodrigues Brandão, por sua vez, estaria à altura de substitui-lo, ao considerarmos sua experiência pelo campo da educação e da cultura, sobretudo da educação e cultura popular, o que lhe permitiria uma visão do jogo tão apurada quanto a do titular baiano.

09_darcy_e_josué.png Darcy Ribeiro e Josué de Castro. Imagens via Blog Estante Virtual, por Natália Figueiredo e O Espaço da Geografia

Numa das posições mais aclamadas do futebol, a do centroavante, nossa seleção precisaria de alguém que conhecesse sua função como poucos. Levando em consideração os educadores brasileiros que conheciam e entendiam o Brasil como a palma de sua mão, talvez um dos melhores nomes para segurar o peso dessa camisa seria o de Darcy Ribeiro (1922-1997), esse mineiro de Montes Claros, que certamente teria uma maestria com a bola nos pés em frente ao gol como possuía com seu trabalho de antropólogo, escritor, político e educador. Seria o tipo de atacante que incomoda muito a zaga adversária, porque é versátil, inteligente e fatal nas finalizações. O mínimo de espaço seria suficiente para ele deixar sua marca registrada – sem contar que devido ao entrosamento com Manoel Bomfim, um dos diferenciais de nossa seleção seria o número de gols saindo de uma jogada pouco esperada: os passes diretos do nosso número 1 para nosso número 9, numa sintonia de assustar até aqueles que supunham dominar as técnicas futebolísticas. Como seu substituto, outro maestro da educação brasileira, "uma figura marcante de cientista, de professor, de homem público, de parlamentar": Josué de Castro (1908-1973). Se Darcy era um analista Sui generis da realidade brasileira, sobretudo em relação aos povos indígenas, Josué, pernambucano de Recife, era outro, por meio de sua luta política contra a fome, "a princípio no Recife e em seguida no Brasil e no mundo". De Centroavantes nossos torcedores (nosso país) não teriam do que reclamar.

10_anísio_e_alves.png Anísio Teixeira e Rubem Alves. Imagens via Info Escola, por Robison Sá e Pensador

A camisa 10 possui uma áurea e uma mística difícil de explicar. Este costuma ser o número destinado ao principal jogador dos clubes e seleções. Para enfrentar o desafio não basta ser ótimo, precisa também ser genial – mas mantendo a humildade necessária dos gênios. Dentre os representantes da educação brasileira, minha opção seria por outro baiano, natural de Caetité: Anísio Teixeira (1900-1971). Sua história “e todo o seu movimento para a concretização das suas idéias, constitui um verdadeiro exemplo para a humanidade e para os educadores. Praticava a reflexão pela ação, construindo, na prática, toda uma filosofia que deixou profundas marcas e grandes contribuições para a civilização, em todos os postos ocupados na área de educação”. A partir da influência do pensamento pedagógico de John Dewey, no início da década de 1930, Anísio "assumiu a presidência da Associação Brasileira de Educação (ABE) e foi – junto com Lourenço Filho, Fernando de Azevedo e outros – um dos mais destacados signatários do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova” no Brasil, importante movimento que traria novas propostas educativas em um período de grande efervescência no cenário político, cultural e educacional em todo mundo. Anísio tinha a educação como base central de seu trabalho, ocupando diversos cargos de relevo: “Inspetor-Geral do Ensino da Secretaria do Interior, Justiça e Instrução Pública na Bahia (1924-1929); de Diretor Geral de Instrução Pública na cidade do Rio de Janeiro (1931); Secretário da Educação e Saúde em Salvador (1945-1950); Secretário de Educação e Saúde da Bahia (1947-1950); diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) e da Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES (1951 e 1964); e investiu ainda na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) em 1955, na Universidade de Brasília - UnB (1960), tornando-se membro do Conselho Federal de Educação em 1962 e, posteriormente Reitor da UnB (1964)”. Devido não apenas à sua posição como educador, mas também às ações desenvolvidas ao longo de sua carreira, a camisa 10 da nossa seleção lhe cairia muito bem. Em uma simples comparação, Anísio Teixeira representaria para a educação o que Lionel Messi representa para o futebol: a genialidade em pessoa. E em caso de suspensão por cartão amarelo ou vermelho (o que dificilmente aconteceria), ou por conta de lesões inesperadas, seu substituto seria alguém com uma criatividade, capacidade imaginativa e amor pela educação tão fortes quanto a do educador baiano. Trata-se de Rubem Alves (1933-2014), esse mineiro natural de Boa Esperança, um adulto que escutava e respeitava as crianças como poucos. Mesmo não se comparando à genialidade de Anísio, Rubem Alves estaria associado a outro típico camisa 10, o brilhante meia Alex (que se destacou jogando no Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe), um autêntico representante do futebol-arte, sendo também Rubem Alves um autêntico representante da educação-arte que tanto precisamos.

11_paulo_freire_11.jpg Paulo Freire. Imagem via Revista Cult, por Helô D'Angelo

Para fechar os onze titulares dessa seleção, aquele a quem muitos vêm falando de modo por vezes grosseiro e perverso: nosso Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire (1921-1997). Se alguns poucos querem negar a contribuição desse pernambucano natural de Recife para o país (e não apenas para o Brasil, levando em consideração que ele é uma referência a nível mundial), estes o fazem por interesses nefastos e egoístas; tentam ignorantizar o povo porque sabem que o acesso ao pensamento freireano é um perigo muito grande aos seus jogos de poder. A princípio, Freire receberia a camisa número 10 e também a braçadeira de capitão, mas para melhor se encaixar à proposta de jogo desenvolvida para nomes tão seletos, preferi escalá-lo à frente do time, no ataque, para assustar ainda mais os adversários que não aguentam sequer ouvir seu nome – e isso também ajudaria taticamente, uma vez que a equipe adversária se preocuparia em demasia com Freire e deixaria Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes mais livres como opção de passe para Anísio Teixeira. Ao lado de Anísio e Darcy, Paulo Freire formaria o ataque dos sonhos de qualquer seleção. Livre da pressão de ser o capitão da equipe, e sem assumir o papel de principal artilheiro, ele ficaria à vontade para desenvolver seu jogo e assim contribuir como sempre contribuiu com a Educação.

12_arroyo_e_chico.png Miguel Arroyo e Chico Mendes. Imagens via Capacitar Eventos e Blog da Boitempo

E para treinar essa equipe, quem seria o melhor treinador e auxiliar técnico para assumirem a função? Para mim, dois nomes dariam conta do recado: o espanhol-brasileiro Miguel G. Arroyo (?-) como técnico, e o acreano Chico Mendes (1944-1988) como seu auxiliar. Arroyo teria a postura de um técnico firme mas que não deixa de atualizar sua proposta de jogo, ao ser considerado um “educador em diálogo com nosso tempo”, ou seja, gritaria com o juiz e os jogadores quando fosse preciso, todavia manteria a elegância e traria pequenas mudanças pontuais para surpreender os adversários. Chico Mendes, como auxiliar, manteria a equipe coesa e atenta ao necessário, fazendo um trabalho mais específico para que cada um dos jogadores percebesse que estavam participando de um jogo coletivo, e que por isso precisavam efetivamente jogar juntos, senão de nada adiantaria tanta qualidade técnica sem uma filosofia de jogo comum.

13_taça_do_mundo_13.JPG Taça da Copa do Mundo. Imagem via Uol

É difícil imaginar que com uma seleção dessas o Brasil não conquistasse o mundo – na ciência, na arte e na cultura. Estes foram alguns dos nomes que, da primeira lista então desenvolvida a partir do pedido de Machaia, escolhi para compor minha seleção de grandes educadores/as do Brasil. Se seria realmente tão boa assim para triunfar em uma Copa do Mundo de seleções composta por grandes educadores/as, não tem como saber. A seleção canarinho de futebol de 1982 que encantou o mundo não conquistou a taça. Nem sempre os melhores voltam para casa como vencedores dos torneios que disputam, mas o legado que deixam é maior do que qualquer conquista. Ao se espelhar em tais nomes talvez possamos chegar mais perto de alcançar aquilo que tanto almejamos: uma sociedade melhor, por meio de uma Educação melhor, todos os dias.

Ah, e não custa lembrar: minha seleção não está imune às críticas. Posso ter esquecido grandes nomes que na sua lista não ficariam de fora, mas se por acaso não os/as considerei em minha escalação peço desculpas, pois só podia escolher 11 ‘educadores/as’ que foram/são referências para mim. Sugiro que utilize também da imaginação e escale sua própria seleção, compartilhando por aqui e/ou em outros espaços para mantermos essa tão relevante memória coletiva e social, em tempos de esquecimento, viva.

Abaixo, a lista completa com os nomes que compõem essa seleção:

01. Manoel Bomfim 02. Heitor Villa-Lobos 03. Cecília Meireles 04. Éclea Bosi 05. Celso Furtado (Gilberto Freyre) 06. Renato Janine Ribeiro (Gaudêncio Frigotto) 07. Florestan Fernandes (Marilena Chauí) 08. Milton Santos (Carlos Rodrigues Brandão) 09. Darcy Ribeiro (Josué de Castro) 10. Anísio Teixeira (Rubem Alves) 11. Paulo Freire

Técnico: Miguel G. Arroyo Auxiliar técnico: Chico Mendes


José Douglas Alves dos Santos

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