desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.

Sobre crianças, educação e capital

“Se pararmos para pensar nas pequenas coisas, conseguiremos entender as grandes”. Essas palavras proferidas por José Saramago podem ajudar a entendermos quando a obviedade nem sempre é tão óbvia assim.


01. Imagem 1 - Sobre crianaças, livros.jpg Imagem por Julien "Seth" Malland

Imagine uma noite de autógrafos para pequenos escritores de 2 a 3 anos de idade. Essa é uma ação que vem acontecendo com cada vez mais frequência nas escolas de educação infantil (sobretudo nas particulares) e não deixa de ser, a princípio, uma ação linda e encantadora para os pais e a maioria dos adultos. Quantos não gostam de dizer o quanto estão orgulhosos de seus filhos, sobrinhos e afilhados enquanto tiram uma self para postar nas redes sociais? Mas, se tratando das crianças, será que um evento como esse é tão maravilhoso como aparenta ser? Às vezes sim. É inegável que ter a atenção dos adultos cause enorme prazer e satisfação nas crianças - porque elas bem sabem o quanto é difícil que isso aconteça -, mas até que ponto isso deixa de ser um momento gratificante para se tornar uma ação conflitiva?

02. Banksy_hiiihiuh.jpg Imagem por Banksy

De um ponto de vista da pedagogia, não faz muito sentido fazer uma criança ficar parada não sei quanto tempo para escrever seu nome (muitas vezes contra sua vontade) em um livro impresso para agradar os adultos presentes. Eu, me colocando no lugar de uma delas, me sentiria aborrecido e chateado por não poder simplesmente me livrar daquela cadeira e aproveitar a noite brincando com meus amigos – algo raro de acontecer, já que em muitas escolas não existe espaço para brincadeira, pois o brincar não é visto com a seriedade pedagógica que talvez pudesse tornar muitas de nossas escolas um lugar menos aflitivo e angustiante para tantas crianças; e com a crescente sensação de insegurança, o excessivo uso de dispositivos digitais e o pouco tempo livre deixado às crianças, é difícil que elas possam se encontrar em horários diferentes do da escola apenas para passar um tempo juntas, brincando. E lembrem-se, estamos falando de sujeitos de 2 a 3 anos de idade.

03. DSC06160.jpg Imagem por Julien "Seth" Malland

Retornemos ao evento. As crianças estão lá, sentadas em suas mesas e autografando um a um os livros que lhes são entregues. É bom recordar que eles ainda estão começando a assimilar as técnicas de leitura e escrita, e que escrever uma única letra é algo que pode levar muito mais tempo do que do alto de nossa ignorância adultocêntrica podemos imaginar. Logo, deveríamos considerar que isso pode se tornar uma atividade penosa para elas, vendo muitos adultos conversando entre si e parecendo se divertir enquanto ficam ali sentadas, tendo que desenhar as letras que compõem seu nome naqueles livros que aos poucos perdem seu sentido. Algo que supostamente foi pensado para as crianças pode acabar se tornando uma atividade estressante e pouco agradável às mesmas. O que deveria estimular a escrita, acaba tendo um efeito contrário. Na verdade, as instituições que fazem isso costumam perder, a meu ver, duas grandes oportunidades: a de demonstrar como o processo educativo está centrado nas crianças, não forçando elas a fazer algo desnecessário; e além disso, a de possibilitar uma maior interação da escola com os pais e a comunidade, pois quantas vezes temos a possibilidade de ter os pais presentes em eventos escolares?

04. kfjnhelmfpfpncio.jpeg Imagem por Julien "Seth" Malland

Raymond Williams, um dos mais notáveis pensadores contemporâneos, afirmara que "evidentemente não apenas nos encontramos em situações, também criamos situações", que podem ser agradáveis ou desconfortáveis a depender das circunstâncias. No exemplo aqui descrito, as crianças se encontraram numa situação desconfortável criadas pelos adultos que se sentiam à vontade com o ocorrido - claro, não eram eles a ficarem sentados escrevendo seus nomes enquanto as crianças tiravam foto para postar nas redes sociais. Outra forma de realizar uma atividade semelhante seria a criança, com a orientação das/os professoras/es, criar ou ajudar na criação do próprio livro, ao invés da produção/impressão de muitos exemplares que tem a justificativa de incentivar a escrita, porém não se trata de outra coisa senão o uso das crianças pelo sistema institucional para angariar mais fundos monetários à custa da ingenuidade, desconsideração ou desconhecimento dos pais e responsáveis quanto ao processo formativo de seus filhos. Seria muito mais significativo se a própria criança pudesse, por exemplo, confeccionar sua obra manualmente, que poderia ser feita, por mais simples que fosse, com o uso de diversos tipos de materiais, e após o processo as professoras e/ou os professores poderiam colar o texto dela no livro criado (considerando que poderia ser muito penoso para ela escrever todo o texto). E as crianças ainda ajudariam a criar/ilustrar sua capa, algo que fosse de sua preferência, não um produto qualquer que possa ser facilmente replicado para venda.

05. magem 4 fgfgds.jpg Imagem por Julien "Seth" Malland

Logo, esse trabalho não poderia ser comprado com tanta facilidade, pois sendo único, individual, no máximo seria possível tirar alguma xerox que não ficaria parecida com o original, portanto seria mais uma cópia pouco significativa. E daí?, podemos perguntar. De que adianta ter um livro de seu filho de 2 ou 3 anos espalhado por toda cidade? Mais lindo e memorável não seria ter o livro em sua casa, uma obra que você saberia que foi feita com a ajuda dele e que você, como mãe ou pai, teria a responsabilidade de cuidar bem dela para que posteriormente tanto seu filho ou sua filha, já jovem/adulta, quanto você mesmo e demais pessoas que vivenciaram aquele momento pudessem olhar o "produto" e atribuir um significado maior a ele? Aqui cabem as palavras de Antoine de Saint-Exupéry, autor de um conhecido Pequeno Príncipe: "este mundo de pequenas coisas que nos recompensam, o dinheiro não compra". E aqui não é diferente. Neste sentido, a "noite de autógrafos" poderia ser trocada pela "noite de leitura" dessas obras então criadas, que seriam únicas, teriam um sentido pedagógico bem definido e a crianças não teriam que passar um bom tempo daquela que deveria ser uma noite especial sentadas tendo que escrever seu nome em vários exemplares que não lhes representam de fato.

06. Julien Seth Malland, Lógi Cult (x15).jpg Imagem por Julien "Seth" Malland

A escola poderia até mesmo convidar os pais para lerem os textos ou chamar outras pessoas que fazem parte do núcleo familiar da criança, ou então pessoas ligadas ao processo de escrita (professores, escritores) para fazerem isso. O texto de cada criança seria lido e se daria a devida atenção coletivamente. Imagine só, uma criança ouvir seu pai ou sua mãe lendo sua produção escrita? Ou alguma pessoa da comunidade, que já tivesse publicado livros, fazendo isso? Isso sim seria uma melhor forma de considerar e respeitar a produção da criança. Sem contar que o livro criado teria a possibilidade de circular entre aqueles que estão mais próximos da criança, e ela mesma teria maior prazer em mostrar a obra para tais pessoas. Nessa idade da vida a melhor forma de incentivar a escrita é incentivando a escuta e a leitura. É por meio desses processos que futuramente ela poderá se tornar uma boa escritora. "Boa" mais no sentido de gostar e de saber escrever - o passo mais importante que podemos esperar e desejar de nossas crianças -, do que em relação ao mérito da qualidade técnico-estética-argumentativa de seus textos.

07. Seth_fdimages.jpg Imagem por Julien "Seth" Malland

E em tempos onde jovens e adultos pouco parecem ter paciência para ouvir os outros e tampouco dedicar seu tempo à leitura literária (ou mesmo científica), estaríamos ainda contribuindo para diminuir esse problema que aflige nossa sociedade e que aumenta a distância entre as pessoas. Porque o ato de escutar, quando bem direcionado e trabalhado na infância, mais do que uma questão ética é também um exercício de cidadania, de troca de experiências fundamentais para estabelecermos relações saudáveis entre nós, de produção de conhecimento e de vida, de aproximação dos sujeitos. E o ato da leitura eleva nossa sociedade em termos específicos e gerais: ajuda a formar pessoas mais concentradas em suas áreas e mais compreensivas política, social e culturalmente. Convém então pensar sobre a finalidade de nossos desejos como adultos levando efetivamente em consideração as vontades e necessidades das crianças. Até que ponto o desejo que criamos ou que estamos criando não passa de uma ilusão incentivada pela força do discurso hegemônico das aparências, da posse, do ter acima da necessidade do ser, que deveria ser nosso principal enfoque ao se tratar da formação de nossas crianças? Conforme mencionou Pepe Mujica, "esta etapa da sociedade capitalista precisa de uma cultura funcional a seus interesses, e a cultura deste tempo é o hiperconsumo. Cada um tem de ser um comprador escravizado, eternamente escravizado, que compre e fique sonhando em voltar a comprar, e que confunda isso com felicidade". A escola vende; os pais compram; as crianças assinam. No teatro cotidiano da vida, os adultos continuam a confundir dinheiro e posse com felicidade.

08. Blu 1.jpg Imagem por Blue

Nesse mundo da escola ao avesso já descrito por Eduardo Galeano, onde continuamos a confundir a grandeza com o grande, precisamos estar atentos a essas questões. E não deveria ser tão difícil assim de notar, pois muitas vezes acontecem diante de nós e de um modo tão explícito que beira o absurdo. Mas nem sempre o óbvio nos é óbvio ou o é para os outros, conforme aprendemos com Paulo Freire, por isso estar atento ao que nos parece habitual e comum é uma tarefa pedagógica das mais relevantes. Quando as imposições do mercado prescindem o interesse e necessidade dos sujeitos, sobretudo no espaço reservado à formação sistemática e formal de nossas crianças, devemos ligar o alerta de nossa consciência e começar a questionar nossas ações, perceber os valores que podemos estar ajudando a (des)construir e (re)afirmar na sociedade que queremos aos nossos filhos e filhas. Queremos lembrar de um livro que será guardado na estante de nossas casas e que talvez muitos dos que o adquiriram sequer leiam, ou queremos lembrar de uma noite em que meu filho estava feliz por mostrar um livro que ele ajudou a construir com as próprias mãos? Em que ficamos felizes por estar ali, com aquelas pessoas, partilhando daquele momento juntos?

09. Banksy_Girl_and_Heart_Balloon_(2840632113).jpg Imagem por Banksy

Não fosse o bastante, esse tipo de ação incentiva uma sutil prática de desigualdade - que perpassa pais e crianças. Quantos são os pais, mães ou responsáveis que terão condições de pagar pelos livros de seus filhos? Quantas crianças (e pais) não se sentirão desconfortáveis diante daqueles que demonstram ter grande poder de compra e percebem que elas não podem ter? A vergonha de si mesmo, de ser quem são, produzida pelas condições que lhes são impostas, de estar como estão, pode ser um peso árduo demais na vida desses sujeitos; e sem necessidade alguma. Gera mais um processo competitivo nesse mercado global que tem se tornado o mundo - na escola, no trabalho e nos momentos de lazer, onde o incentivo a cooperação perde espaço para o show do eu (ainda que este eu seja meu filho ou minha filha).


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, cinéfilo, Pedagogo, Mestre em Educação e Desmistificador de Dálias..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //José Douglas Alves dos Santos