desmistificador de dálias

“inventar vida de onde [talvez] nunca saiu sequer um sopro de ar”

José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias

O que o novo coronavírus (COVID-19) pode nos ensinar sobre Educação

... Ou o que a Educação pode nos ensinar sobre situações como essa.


Imagem 01_corossdadfe.jpeg Imagem via Centre Dome

Mais que demonstrar a fragilidade do corpo humano frente a agentes biológicos patógenos como os dos vírus, essa pandemia relacionada ao novo coronavírus (COVID-19) pode servir para lembrarmos o quanto os gastos em Educação, muitas vezes descritos pelas mídias (impressas, digitais) como um “custo”, é fundamental naquilo que realmente deveria significar: um “investimento”. Investir em Educação é o critério número um para chegarmos ao patamar de uma sociedade humana, para avançarmos e irmos além dos estágios iniciais do que consideramos e chamamos de humanidade, que nunca houve, como nos lembrava Milton Santos. O geógrafo brasileiro afirmava que ainda estamos fazendo os ensaios do que será a humanidade, do que ela pode ser. Numa sociedade assim designada, mesmo diante de um cenário caótico como o que agora se configura, não haveria o desespero na proporção que hoje vemos, pois as pessoas estariam mais bem preparadas para lidar com tais situações, ao não ter que se preocupar com questões básicas de sobrevivência, como acesso a alimentação, moradia e atendimento médico adequados.

Imagem 02_djdfdijaqdj.jpg Imagem via Pam Barker

E o que a Educação tem a ver com isso? Se precisamos de mais médicos, mais hospitais, mais segurança, mais cuidados, mais moradias, mais qualidade de vida, de que adianta ficar falando em Educação? A primeira e mais rápida resposta que podemos dar a questões tão genéricas como estas seria: ela tem tudo a ver. O fato de alguém questionar o valor e o papel da Educação na construção de uma sociedade melhor é o principal sintoma do quanto ela é necessária. Sim, precisamos de mais médicos, mais hospitais, mais segurança, cuidados, moradias, tudo que equacionado resume-se em qualidade de vida. Todavia, precisamos de mais médicos que estejam preocupados não somente com seus salários, mas com aqueles a quem atenderão; precisamos de mais hospitais, que estejam a serviço da população de modo geral, e não apenas reservado para quem pode pagar; precisamos de uma segurança que proteja a população, não que a agrida e mate pela cor de sua pele, pelo seu local de origem, por sua crença ou sexualidade; precisamos de acesso a alimentação e cuidados básicos, saneamento e água potável, moradias que se sustentem debaixo de fortes chuvas e enchentes. Uma qualidade de vida que se efetive em realidade concreta, e não como um produto vendido nas propagandas televisivas para quem pode pagar. De geração a geração todos no bairro já conhecem essa lição...

Imagem -3_derqwe.jpg “Homeless and hungry please help thanks god bless” (Sem teto e com fome, por favor ajude. Deus abençoe). Imagem via Fox 29

A população sabe o que precisa, e os governantes (ainda que não pareça) também. Entretanto, para chegar a tal realidade seria necessário um sistema educacional que estivesse pautado nos valores mais essenciais de uma sociedade, como os que fazem as pessoas conviverem entre si em busca de modos de cooperação, e não na lógica de mercado que converte tudo em capital e incentiva a competição como critério primordial – em que cada um é classificado e definido por aquilo que tem, pelo que possui materialmente. Em resumo, uma Educação em que a política não fosse confundida com politicagem, em que interesses pessoais não fossem confundidos com interesses coletivos, como acontece nessa escola do mundo ao avesso tão bem descrita por Eduardo Galeano, onde a grandeza se confunde com o grande e o legado social se confunde com legado financeiro.

O grave risco de colapso que evidenciamos atualmente a partir da pandemia do novo coronavírus se deu, sobretudo, não pelo vírus em si, mas pela simples forma como as pessoas trataram e vêm tratando a situação. Desinformada e ignorantizada, como nos lembra Eduardo Marinho, a maior parte da população, sabotada em seus direitos e mantida intencionalmente na ignorância (para que se sintam inferiores, incapazes e impotentes), tem acesso a um processo educativo sistematizado que contribui eficazmente para a propagação do vírus. Uma população bem instruída, assim como bem alimentada, bem nutrida, bem empregada, física e mentalmente mais bem preparada e saudável, ajudaria a enfrentar a situação simplesmente usando do bom senso. “De modo singular, talvez o procedimento geral mais eficaz para evitar que um surto se torne uma pandemia total seja o simples bom senso. O elemento-chave é educar a população sobre os procedimentos elementares de cuidados de saúde e saneamento. Por exemplo, lavar as mãos ao manusear alimentos, manter limpas a sua casa e as áreas externas, tomar corretamente os medicamentos e outros procedimentos semelhantes ajudam bastante a deter as doenças infecciosas antes que se transformem em uma pandemia ou mesmo em uma epidemia”, descreve o matemático John Casti.

Imagem 04_ffasf.jpg “Wash your hands” (Lave suas mãos). Imagem via William Murphy

Esse tipo de situação (in)felizmente serve para demonstrar o quanto uma sociedade em que seus indivíduos tiveram a garantia de acesso a um bom processo formativo escolar, com base em princípios comuns e coletivos de empatia, alteridade e solidariedade, pode estar mais preparada para lidar com situações adversas como essa. Com bons sistemas educacionais, que não se restrinjam a uns enquanto à maioria é tirado esse direito, o número de profissionais ligados à área da saúde poderia ser maior, especialmente em áreas afastadas onde não há leitos, número suficiente de profissionais e sequer existam hospitais; lugares onde a maioria dos filhos da classe média-alta não querem ir porque aprenderam, muitas vezes desde o berço, que não devem se misturar com os outros (esses outros sendo, em sua maioria, os negros, os periféricos, os habitantes do campo, os pobres – ou os que não têm dinheiro, uma vez que o conceito de riqueza e pobreza pode ser relativizado de muitas formas). Pessoas formadas nessa lógica não percebem o compromisso e a responsabilidade que assumem ao ter acesso a saberes e conhecimentos que muitos não tiveram, simplesmente por uma estrutura social que nega às outras pessoas o mesmo tipo de acesso. Não se trata de ser melhor ou pior que os outros, nem tampouco do discurso que incita uma suposta meritocracia. Trata-se de uma estrutura montada sob privilégios e mentiras, não pautada em direitos e deveres. Ter acesso a uma boa Educação é um direito. Compartilhar os saberes adquiridos durante este processo deveria ser uma responsabilidade social. No entanto, a preocupação dessa pequena classe privilegiada que tem acesso aos conhecimentos públicos que deveriam ser disponibilizados a todos se concentra, para a maior parte dela, em quanto dinheiro ganharão ao fim de sua formação; desse modo mantêm a engrenagem do sistema funcionando, não percebendo as mentiras e ilusões que são induzidos a acreditar e ter, que (de)formam seu pensamento e comportamento.

Imagem 05_fsafew.jpg Imagem via Fatherly

Outro aspecto importante é que o acesso a bons sistemas educacionais eleva não somente o número de profissionais nestas áreas, mas também o nível de conscientização nas sociedades. Isso é fundamental para duas coisas: primeiro, saber como agir nesses casos, não esperando que a situação piore ou que o governo faça algo para que enfim efetivamente algo seja feito. Cada um, diante das informações então presentes, tomaria medidas preventivas com maior rapidez e eficácia. Segundo: uma sociedade bem instruída se reflete também em uma sociedade menos apreensiva e desesperada. Confiamos nos profissionais de saúde porque sabemos que tiveram uma boa formação (e que se preocupam com nós, não apenas em quanto ganharão para fazer aquilo que aprenderam a fazer); assim como confiamos nos governos porque eles foram escolhidos por nós, e soubemos escolher aqueles que supostamente nos "representam", sem o perigo de em momentos críticos como este estarmos sendo representados por figuras tão pífias como hoje notamos.

O medo, o pânico e a paranoia certamente continuariam presentes em uma sociedade que investisse mais em Educação, porém em uma medida menor do que a que estamos presenciando, em que muitas pessoas perdem a noção da realidade e são incapazes de analisar com calma as questões mais triviais que poderiam ser resolvidas de modo rápido e simples.

Imagem 06_cofodsfsfi.jpg Imagem via Comox Valley Record

Acontece que uma sociedade que se preocupa com Educação significa também que se preocupa com justiça e igualdade, ao exercer a democracia substancial e não apenas a formal, como salientara José Saramago. Nesse sentido, uma sociedade justa não tem moradores de rua, não tem famintos, não tem refugiados, não tem ninguéns, porque todos importam e são importantes. A relevância disso é não termos consciências pesadas todas as noites ao pensar em como estão aqueles moradores de rua ou que não têm qualquer tipo de assistência para enfrentar uma situação que os que têm casa, alimentos e outros produtos disponíveis não sabem o que fazer. Sim, a Educação, quando bem orientada, põe o dedo nas feridas de nossas sociedades, e continua a fazer isso até que algo mude (ou até que nós mudemos, recordando Paulo Freire, uma vez que é na nossa mudança que percebemos a mudança social).

Gostaria de finalizar essa reflexão ressaltando que em uma sociedade assim – em que os governos (locais, regionais, nacionais) invistam seriamente em Educação, voltada para a boa convivência, menos preocupada com a cultura da competição e mais atenta aos benefícios da cooperação entre os indivíduos –, quando chegarmos a vivenciar outras situações semelhantes como a do novo coronavírus (que não se trata de “se”, mas de “quando”), teremos chance de sair desse cenário de modo mais rápido e consistente, com menos perdas que poderiam ser evitáveis. E estaremos ainda aplaudindo de pé não só os profissionais da Saúde, mas também os dos Serviços Gerais, que limpam as ruas e os edifícios, que recolhem o lixo, que plantam e colhem, que costuram, que vendem, que fazem e entregam comida, que dirigem os veículos levando diferentes profissionais necessários para atender a população, que também abastecem supermercados, farmácias e hospitais com mantimentos e outros produtos, que constroem hospitais, escolas e estabelecimentos onde, na atual lógica de nossa sociedade, costumam ser impedidos de entrar.

Zé Ramalho - Cidadão Música composta por Lúcio Barbosa na década de 1970, e regravada por nomes como Zé Geraldo, Luiz Gonzaga, Zé Ramalho, Renato Teixeira, Elymar Santos, Wilson Paim, entre outros.

Aplaudindo e lembrando que eles são tão relevantes quanto os médicos e demais profissionais da Saúde, pois como seres interdependentes todos dependem uns dos outros. Assim talvez estejamos dando mais um pequeno passo e nos aproximando do patamar de humanidade a que Milton Santos se referia. Enquanto pudermos pensar e trabalhar, por meio de uma evolução interna e pessoal, para seguir essa direção de uma sociedade justa e, por isso, de fato democrática, estaremos contribuindo na produção de ideias para adiar o fim do mundo.


José Douglas Alves dos Santos

Escritor, pedagogo, cinéfilo, mestre em Educação e Desmistificador de Dálias.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //José Douglas Alves dos Santos