detalhes dissonantes num mundo de gigantes

Cotidiano, arte, humanismo, natureza e caos

Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana.

A passagem do tempo com Juliette Binoche

“Acima das nuvens” do francês Olivier Assayas (2014) revela os conflitos entre a juventude e a maturidade. Passado e presente em negociação.


No filme “Acima das nuvens” Juliette Binoche é Maria Enders, uma atriz consagrada que recebe o convite para reencenar a peça que lhe trouxe a fama.

A obra apresenta janelas-espelhos que revelam conflitos femininos. Há mais de uma camada de história. O grande tema é a passagem do tempo e a inutilidade dos espelhos do passado. No jogo do tempo há perdas e ganhos.

O desafio é atuar na mesma peça “A Serpente de Maloja”, em outro papel. Na primeira versão, ela interpretou Sigrid, a jovem sedutora que conduz Helena ao suicídio.

“Acima das nuvens”, dirigido pelo francês Olivier Assayas (2014) apresenta os conflitos de papéis femininos diferentes e complementares. Juventude X maturidade. Há algumas comparações entre a grande arte e os produtos culturais descartáveis. A vida real e a vida idealizada.

Os diálogos são bem construídos. As imagens e os movimentos são exuberantes. A paisagem não é apenas imagem bonita, reforça e conduz os diálogos.

As personagens jovens são belas, sensuais, perturbadoras, sem consciência sobre os dramas da passagem do tempo. A juventude é exaltada por não ter amarras, dizer o que pensa, viver o imediatismo. Jo-Anne Ellis, interpretada por Chloë Grace Moretz é uma celebridade que se envolve em escândalos que recheiam as páginas da web. Usa o seu poder pessoal sem compaixão, não faz concessões.

Kristen Stewart (Crepúsculo) é Valentine, assistente de Maria. Ela tenta ajudar a chefe no entendimento sobre a personagem Helena. Há a possibilidade de um caso amoroso entre as duas. Mas esta não é uma camada de história explícita. Ou talvez não exista romance. Não há certezas.

Os dramas pessoais se misturam aos profissionais. Maria Enders vivencia um processo de divórcio. Na sua vida burguesa de atriz consagrada, há lacunas que não são explicadas. Há narcisismo junto a doses de insegurança e muita delicadeza. Ao aceitar o papel de Helena, a protagonista enfrenta o seu dilema existencial.

Um chalé nos Alpes Suíços é o espaço para muitas inquietudes. Ali perto há um abismo onde mora uma serpente. O abismo pode ser uma metáfora sobre a passagem do tempo, ou até mesmo representar a proximidade da morte. As nuvens passam num movimento de serpente.

Como quem observa através de uma janela, eu vislumbrei temores que eu vivencio na minha relação com a passagem do tempo. Fiquei inquieta por uns dias, mexeu em algumas fibras do meu arsenal de emoções.

No entanto eu sei que algumas pessoas nem chegaram perto de alguma identificação.

No final da sessão, ouvi uma moça reclamando porque esperava um filme de amor entre duas mulheres. Outra pessoa reclamava do sono. Eu me identifiquei com uma outra mulher, cuja expressão era de espanto e de contentamento.

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