detalhes dissonantes num mundo de gigantes

Cotidiano, arte, humanismo, natureza e caos

Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana.

A sofrência sonora

A cultura de massa e os barulhos invasivos. As escolhas musicais alheias alterando o cotidiano.


Nos últimos dias tenho ouvido, de forma involuntária, os hits “Porque homem não chora” e "Bilu bilu" do baiano Pablo. Certamente um dos cantores com mais êxito de vendas no verão 2014-15 em nosso país. Tomei conhecimento dessas canções faz uns quinze dias num transporte coletivo, através de uma pessoa (não usuária de fone de ouvido).

Sofrência é um termo engraçado, foi criada pelo pernambucano Fábio Francisco que tem conquistado popularidade. Ele veiculou um vídeo no whatsapp, fazendo alusão as músicas do Pablo. O que cai na rede é peixe e os lucros do Pablo, da gravadora e também do Fábio estão indo muito bem.

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Não tenho a intenção de analisar essa vertente comercial e muito menos discutir gostos musicais. Não, não mesmo. Estou mais interessada em refletir sobre como estou usando o meu tempo.

Na vidinha cotidiana, há uma pressão medonha pelo cumprimento de papeis sociais e profissionais. Há uma escassez de tempo. São muitas as tensões que desejamos desfazer num final de semana. A casa é um refúgio para o descanso e também um recanto lúdico. Lugar onde desejamos (ou imaginamos) ter autonomia.

Durante a semana trabalhei muito, hoje é domingo e quero desfrutar o meu tempo livre. Vem da vizinhança um som atrapalhando o sossego. Havia mapeado filmes no "Netflix". Começo tentando me concentrar na leitura de um livro.

Muitas pessoas estão no bar da esquina super curtindo repetidas vezes as músicas da sofrência: “Vou te deixar, vou te deixar / Por favor não implora, porque homem não chora!”, e "Cola agora sua boca em mim e faz Bilu bilu bilu bilu". As pessoas se alegram, extravasam as emoções. E tudo bem, daqui a seis meses terão outros hits e nem lembrarão do Pablo da sofrência e do Arrocha.

No final da década de 1940, Theodor Adorno e Max Horkheimer usaram pela primeira vez o termo indústria cultural. E previram os efeitos da arte produzida e consumida como uma mera mercadoria.

A pradronização é uma das principais técnicas que uma indústria adota, visando ampliar a produtividade, reduzir custos e evitar desperdícios. No caso da produção de torneiras ou de parafusos, a padronização pode resultar em produtos com excelência. No campo cultural, a padronização não siginifica busca de excelência, muito pelo contrário. Com a ausência de inventividade o resultado são produtos com pouco apuro técnico, pouca afirmação de estilo ou de identidade.

Atualmente, uma das vantagens das tecnologias digitais é a diversidade. No entanto, no mar de dados da web, as obras de arte mais elaboradas não estão tendo uma boa visibilidade, assim como não aparecem com destaque nas prateleiras das lojas físicas.

Acesso uma play list. Ligo a caixa de som, num volume capaz de rebater o barulho que vem do ambiente externo. Uma canção da Los Hermanos fala de um Horizonte distante. “Por onde vou guiar / o olhar que não enxerga mais / Dá-me luz, ó Deus do tempo“. Mariana Aydar, numa composição de Leci Brandão: "Carnaval não é esse colosso / Nossa escola é raiz, é madeira".

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Os barulhos invasivos refletem as dificuldades de uso dos espaços coletivos. A música pode gerar diálogos, cantorias, reflexões, causar raiva, fazer chorar ou dançar. São muitas as músicas do mundo.

A legislação brasileira permite barulhos nos espaços urbanos entre 6h as 22h, numa altura determinada. O som que toca no bar está no horário permitido e nem exageradamente alto. O que mais incomoda é a repetição. Mas como reclamar de uma repetição musical?

Noel Rosa, na voz de Paulinho da Viola lembra: “a filosofia hoje me auxilia a viver indiferente assim” Com a música elasteço músculos internos, meu corpo quer dançar, meu coração fica bonzinho.

Sabemos que os conflitos relativos aos barulhos urbanos tendem a aumentar, ampliando também as possibilidades de regulação para coibir os abusos. Mas como suportar os efeitos da padronização cultural?

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Referência bibliográfica: ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Editora Zahar.

MÚSICAS: NOEL ROSA | PAULINHO DA VIOLA. Filosofia. 1929; NAUBER | PABLO. PORQUE HOMEM NÃO CHORA. 2014; PABLO. Bilu bilu. 2014; LOS HERMANOS. Horizonte distante. 2005; LECI BRANDÃO | MARIANA AYDAR: Zé do Caroço. 2006.

IMAGENS: Fotografias de Regina Barbosa: Mercadorias expostas no Mercado da Uruguaiana, Rio de janeiro-RJ, 2011; Capas de vinil. Bar do Paulo, Arapiraca-AL,2007


Regina Barbosa

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