detalhes dissonantes num mundo de gigantes

Cotidiano, arte, humanismo, natureza e caos

Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana.

Eu me desapego das coisas fazendo novas coleções

O mundo está repleto de objetos inúteis, melhor fazer coleções sublimes. Você já fez coleções de abraços?


Faço faxina, removo papéis que não cabem nas gavetas. Descarto boletos, cupons fiscais e outros impressos que nem devia ter guardado. E também jogo fora panfletos, revistas e crachás de eventos.

Quis alterar o estado das coisas. As coleções mais desejadas são as de alegria. Os sorrisos e as gargalhadas precisam constar na lista dos maiores patrimônios da humanidade.

O cotidiano tem muitos contornos e eu tenho algumas esquisitices. Acho razoável falar mal da chuva que molha o sapato, falar mal do controle remoto que não funciona, mas eu não quero colecionar queixas.

Já colecionei teimosia e sempre tive mais sonhos do que podia caber na vida de uma pessoa. Mas eu não quero acumular medos. Jogo fora objetos, decido me aventurar em coleções que não ocupem espaços.

Nas bagunças domésticas achei uma coleção de vidros de perfume ocupando espaço, joguei no lixo comum do meu desapego. Já fiz coleção de ingressos de espetáculos que foram dispensados em outras arrumações. Os cartazes de cinema eu guardei por mais tempo. Cultivar trecos inúteis é uma mania antiga.

Cada coisa tem a sua importância num tempo determinado. Hoje joguei fora diversas capas de um suplemento cultural. Eu guardo bilhetes com a palavra amor e outras palavras de carinho.

Os porquinhos de barro por muito tempo acumularam poeira. Cada coleção perde a graça em cada mudança de moradia. Em cada arrumação, o material não cabia nos armários e prateleiras. Foi necessário seleção dos objetos significativos.

Acumulamos coisas úteis. Os acervos eu acho bonito nas casas alheias. Na estante, deixei apenas os livros mais expressivos.

As inutilidades são sublimes. Será que alguma pessoa já guardou bocejos? Eu adoro os bocejos que saem num momento de muita preguiça. As lembranças de cheiros nem sei onde guardo. Cheiro de terra molhada aduba as melhores emoções. Cheiro de jasmim me afaga por dentro.

Quero sempre lembrar o céu azul de algumas tardes de sábado. Nenhuma câmera consegue guardar azul tão lúcido e vívido. Tenho uma coleção de músicas para cantar no banheiro, onde posso cantar errado e desafinado; algumas canções ouço no domingo, outras na sexta-feira.

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Algumas coleções e bagunças ainda estão pelos cantos pedindo providências.

Num mundo com tantas disputas e intrigas, os carinhos devem acontecer no plural. Abraços apertados, abraços largos, abraços demorados. Uma coleção de lembranças de abraços não ocupa espaço e ajuda nos momentos frios.

A vida é movimento e afirmação, a memoria afetiva merece apreço.

Algumas novas coleções eu deixo acontecer. Sei, depois vai haver uma bagunça de sensações e emoções. No futuro eu penso uma forma de arrumação.

Foto Regina Barbosa porquinhos5.jpg Fotografias: Regina Barbosa

Revisão de textos: Camila Figueiredo


Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana. .
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