detalhes dissonantes num mundo de gigantes

Cotidiano, arte, humanismo, natureza e caos

Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana.

A felicidade tem sido procurada no Shopping Center

Grupos preferem a barbárie como saída para a crise. Em cada loja tem convites para uma vida feliz.


Tenho tido indigestão pelo excesso de palavras, postagens e boatos. Há sobre a minha cabeça um amontoado de funções e necessidades sociais. São muitos os desastres acontecidos e outros por acontecer. Um sem número de preconceitos, intrigas e disputas.

Os jogos de poder e as manipulações midiáticas me apresentam uma dose imensa de complexidade e de paradoxos. O mundo está em crise, mas na minha timeline tem diversas postagens indicando como ser feliz numa simples ida ao Shopping Center.

Um condomínio de casas de luxo para ser construído aterrou um mangue, mas promete qualidade de vida. Madeiras são retiradas da mata, desfazendo a moradia de pássaros e insetos para produzir mesas e cadeiras de design inovador.

Sofá, o móvel mais generoso da casa, oferece conforto e abrigo, feito de madeira, pano, espuma, não é apenas uma peça de mobiliário, parece conter em sua estrutura, um afeto sincero.

Neste pedaço de mundo, sinto o corpo fugir. Mas a mente faz outras perguntas e indagações. Folheio revistas onde há conselhos para sair do sofá, há ordens para malhar o corpo, fazer pilates, fazer natação.

O mundo está em crise, mas numa conversa na padaria fiquei sabendo que uma porta bandeira desfilou na Sapucaí tendo o corpo acima do peso. Na banca de revista eu conheci o vestido que a cantora Anitta usou numa festa. O escândalo é porque foi barato, comprado na loja Riachuelo. Gente!

A minha timeline exibe disputas, banalidades e falta de amor. Grupos defendem a barbárie como saída para a crise. Homossexuais são perseguidos; negros são hostilizados. Garotos bossais destilam preconceitos.

Enquanto isso, a felicidade tem sido procurada no shopping, nos supermercado e nos sites de compras. Mas a satisfação é passageira e sempre cabe um pouco mais de desejo quando se tem algo a mais para consumir. No shopping tem placas de liquidação e convites para uma vida feliz.

A sociedade do consumo é também a sociedade do individualismo. Mas o que ocorre é um individualismo fajuto. Pouca gente sabe respirar, pouca gente conhece sua vida interior. Não existe espaço para a subjetividade.

Em cada canto, em cada loja, em cada revista, em cada site tem diversas dicas de uma vida feliz que posso conquistar dependendo da minha capacidade de pagar por algum serviço ou produto.

Eu preciso de silêncio para acessar em mim o que há de mais vivo. Preciso de silêncio para iluminar minha vida, curar minhas fobias. Mas não é fácil o silêncio, não é fácil meditar. Não é fácil esvaziar a mente que está sempre cobrando, perguntando, indagando. Por isso eu escrevo, preciso expressar uma imensidão de contradições. Não é fácil viver num mundo com pouco espaço para ser.

Sou eu que acordo todo dia dentro de mim. O mundo está desabando e eu preciso garimpar alguma forma de ser. E que se explodam as fofocas, os boatos, as cobranças, os consumos. Converso comigo e decido me proteger.

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Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana. .
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