detalhes dissonantes num mundo de gigantes

Cotidiano, arte, humanismo, natureza e caos

Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana.

Perdidos num mundo de espelhos

Acusamos os exageros alheios mas passamos muito tempo com os dedos grudados nas telas. Será que estamos cientes do quanto estamos vivendo num emaranhado de espelhos?


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Nas diversas rodas de conversas, o exibicionismo nas redes sociais tem sido um assunto recorrente. Acusamos os exageros alheios mas também postamos muitas imagens e textos nas redes. Acusamos os exageros alheios mas passamos muito tempo com os dedos grudados nas telas.

Os murais eletrônicos são fartamente usados para a autopromoção. Há um desfile de egos aparentemente felizes. As telas exibem muitos sorrisos e festas. Nem parece que no mundo há tantas pessoas passando perrengue de ordem afetiva, financeira ou social.

A antiga mania da fofoca ganha novos formatos e se alastra pelas fibras óticas. Nas redes sociais há um excesso de narrativas pessoais e carência de valores humanos. Falta amorosidade, alteridade e tolerância. As identidades perdem força numa maré de banalidades e padronizações de comportamentos.

E quem se aventura a expor problemas pessoais nem sempre recebe boas respostas. Tem quem narra complicações emocionais, até mesmo para encontrar com quem conversar.A depressão é tida como a principal doença a reduzir a qualidade de vida, atinge uma grande parcela da população. Quem se sente solitário/a pode procurar nas redes, interação e compreensão. No entanto, é estranho e desumano, mas a dor pode ser motivo de zoeira ou de descaso. O resultado pode ser mais sofrimento. As mazelas que permeiam as relações humanas como a ignorância, o egoísmo, os preconceitos se revelam e se propagam no meio virtual.

Os ressentimentos e os desafetos são veiculados em mensagens indiretas. E como socorro, são ofertadas frases com dicas comportamentais rasas. São fórmulas simplistas para se viver num mundo bem complexo.

Enquanto isso, no plano macro, o que ocorre são negócios, muitos negócios. Além do marketing direto, em cada rede social há configurações mapeando e direcionando interesses comerciais. As corporações estimulam imagens e falas pessoais, facilitando o mapeamento de preferências de marcas e produtos, visando maiores lucros e ampliação de poder.

Será que estamos cientes do quanto estamos vivendo num emaranhado de espelhos, fibras e fios? O ilustrador francês, Jean Jullien produziu uma série de ilustrações sobre o tema. São imagens um tanto esquisitas, mas refletem as nossas atitudes diárias.

Na mitologia grega, Narciso é um jovem de extrema beleza e julga não haver ninguém que o mereça. Ao apaixonar-se pelo seu reflexo na água fica cativo da própria imagem. Narciso não consegue se relacionar, não interage e nem observa o mundo ao redor.

Em cada momento, usamos telas para nos filtrar, nos focar, nos ostentar. Há muito narcisismo e também compulsão no modo como estamos usando as redes sociais. E no vasto campo da web, há muitos portais e sites interessantes que não estão sendo acessados. São muitos cursos online e oportunidades de crescimento profissional. Há uma quantidade enorme de páginas com arte, ciência; ou sobre gastronomia, decoração, saúde, jardinagem, entre outros temas que podem ser interessantes ou úteis na vida cotidiana.

Com tanta compulsão, competição, consumismo e banalidades caminhamos para um futuro com uma multidão de eus vazios e isolados? As redes sociais são ferramentas muito interessantes e funcionais. Certamente que não vão perder força, mas a busca constante de inovações é uma forte característica deste universo.

Os excessos e desgastes pedem reorganizações e reconstruções.

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Ilustrações: Jean Jullien.


Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana. .
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