detalhes dissonantes num mundo de gigantes

Cotidiano, arte, humanismo, natureza e caos

Regina Barbosa

Eu respiro, caminho, escrevo, expresso as estranhezas e as belezas de ser humana.

Quem segue tantas recomendações?

Em todo canto há dicas para o bem viver. Há um excesso de instruções muitas vezes contraditórias. Prefiro aprender com Manoel de Barros sobre as simplicidades do cotidiano.


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Na conturbada atualidade há um excesso de instruções. Há dicas de como ser feliz, como emagrecer, como conquistar, como disfarçar a dor. Há uma quantidade enorme de listagens de atitudes para o bem viver em textos, em cartazes eletrônicos, em poemas visuais e também no formato audiovisual.

Em cada meio há dicas de como cuidar da casa, como cuidar do corpo, cuidar da carreira, obter sucesso. É necessário frequentar uma academia, viajar, ter estilo; fazer amigos, se livrar de amigos; não questionar, não ficar triste, não expressar tristeza; não falar muito, não falar pouco. Muitas vezes, o incentivo para a poupança, ocorre ao mesmo tempo do incentivo para a gastança. Quem segue tantas recomendações? Haja tempo, dinheiro, conflitos e frustrações.

Tem até manuais ensinando como odiar, como perseguir, como ameaçar e massacrar uma pessoa ou um grupo social. Um horror!

Algumas mensagens recomendam a redução do stress, mas ao ler o texto sobre o assunto algumas vezes fico bem estressada.

Lembrei do trecho "Quem lê tanta notícia", da canção "Alegria, Alegria" (1968), composta por Caetano Veloso. Além da vertente contestadora da obra que deu início ao tropicalismo, há também uma crônica da época. Imagino hoje, uma versão desta canção, a pergunta poderia ser: Quem segue tantas instruções?

O público em geral aceita, guiado pelo senso comum, consome os manuais de comportamentos, muitas vezes sem levantar questionamentos mínimos. Eu também leio alguns textos com instruções. Precisamos de muitas pistas para atravessar o labirinto da existência. Será? Não tenho muitas certezas. As dúvidas me conduzem muito mais.

Talvez o fenômeno seja reflexo de um pacote de incentivos para que cada pessoa obedeça a comandos, em especial há o incentivo para o consumo de produtos e serviços, indicados direta e indiretamente nos guias de comportamentos.

Sabe a colher de pau? Somente como um exemplo, nos últimos anos surgiram instruções para o não uso deste utensílio doméstico. Será mesmo que um objeto artesanal é tão nocivo? E porque não são veiculadas, na mesma quantidade, as informações sobre os resíduos tóxicos encontrados em utensílios produzidos com material sintético? É a tal sociedade da informação, um grande poço de contradições.

Para o especialista em Ciência da Informação, Aldo Barreto:"a sociedade da informação é uma tecnoutopia, cuja ênfase recai nas tecnologias da informação, do processamento, armazenamento e transmissão de dados, de tecnologização produtiva que pouco leva em conta a construção compartilhada dos saberes que possibilita a configuração de sociedades democráticas".

Ainda que o cenário pareça sombrio, a sociedade em rede, ao mesmo tempo que recebe muitas instruções, consome muitos produtos, cria e vivencia novos formatos de relações sociais.

Ontem, o dia todo eu trabalhei, quando chegou a noite arranjei um tempo para ficar no quintal do meu silêncio. Reencontrei na bagunça da estante, o “Livro sobre nada”. Como muitos já sabem, o texto de Manoel de Barros, além de não informativo, reverencia a não utilidade da poesia: “Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar”. Expressa e irradia liberdade. Em vários de seus poemas há um clima de imprevisibilidade: “Poesia é quando a tarde está competente para dálias.”

Um dos poetas contemporâneos brasileiros mais significativos, Manoel de Barros, nascido em Cuiabá-MT, em sua obra enaltece a natureza: “Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos”.

Esta leitura funcionou lindamente como uma certa desconstrução do excesso de instruções. Hoje acordei me sentindo mais preparada para observar uma borboleta. Uma árvore que tem na minha rua aceitou com paciência os restos dos meus senões, incertezas e incongruências.

Por Regina Barbosa, agosto de 2015

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Referências:

BARROS, Manoel de. “Livro sobre nada”. Editora Record. Rio de janeiro-RJ. 1996

BARRETO, ALDO DE ALBUQUERQUE. A questão da informação. Artigo publicado na Revista São Paulo em Perspectiva, Fundação Seade, v 8, n 4 , 1994.

Orwell, George, "1984", Editora Saraiva

Alegria,Alegria. Caetano Veloso. 1968. Rio de janeiro-RJ

A ilustração é de autor desconhecido, registro de una arte de rua, num muro do bairro do Grajaú, Rio de janeiro-RJ.


Regina Barbosa

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