LC

Mistura de diversas belezas rendeu a estranheza do meu ser... Duas partes estranhas de conhecidos desconhecidos que se tornou uma... Sou milhões de células que em breve deixarão de existir mas eu continuarei a ser LC

Leila e O Livro

Um conto, porque as vezes eu me dou um desconto e devaneio. Se descumprir a regra eu vou, ao menos vou me manter na essência de por vezes ser simplesmente DEVANEIOS.


150788_4521539607890_1897476527_n.jpg Livros são únicos, independente da classificação, únicos. Pode até surgir um que é cópia do outro, único. Semelhantes no número de páginas, únicos. Personagens que vivem histórias tão parecidas...únicos. Mas aquela trama é idêntica a do outro, cópia, ÚNICO.

Livros já haviam sido lidos por Leila. Desde cedo, talvez cedo de mais, ela estava sempre envolvida com um exemplar. Aparentemente não sabia viver sem um livro. Alguns foram lidos as escondidas, isso evitava falatório. Outros eram expostos com orgulho. Alguns colocados na estante como troféus, deviam ser exibidos. Mas todos eram escolhidos pela capa, por sua aparente arte, ARTE (?). As páginas não eram bem preenchidas, os autores de qualidade questionável, não apenas por sua popularidade, aliás, EXATAMENTE por ela.

Após diversas leituras e releituras, Leila CANSOU. Desistiu das capas envernizadas, dos couches foscos, dos detalhes em relevo. Resolveu pensar só em letras, no alfabeto inteiro dançando em sua mente, incluindo os quase esquecidos: K, W e Y. Tudo sem um rumo, sem um porquê, apenas LETRAS. Por vezes unia duas ou três letrinhas, separava em silabas, quando dava, juntava dali, separava daqui, despretensiosamente COMPONDO.

Acontecia de alguém lhe propor um livro, era estranho Leila sem livros. De soslaio era possível ler o título que já dizia sou autoajuda, e aquilo deixa Leila com sono só de pensar. Ela dormia. Acordava e alguém já tinha colocado uma aventura sobre a sua cabeceira. O cheiro das páginas novas causavam náuseas, se fosse cheiro das páginas dos livros de sebo então era vômito imediato, agora, se fossem dos livros das estantes domésticas, PÂNICO.

A novidade de estar desacompanhada de um exemplar permitia a felicidade da ignorância quase completa e alimentava ainda mais o desejo de permanência nesse estado. Era admissível no máximo uma revista semanal carregada de bobagens, algumas fotos para descontrair e poucas BEM POUCAS letras no papel, e MUITAS na cabeça.

O discurso, ainda que chocante convencia: CANSEI de livro. A alma pedia O LIVRO. Convencia a quem não importava. Por dentro as composições evoluíam e diziam com clareza sobre as buscas, os quereres. A vida seguia incompleta.

Um dia acordou inquieta, nem no espelho queria olhar. Lutou durante todo o domingo, com unhas, dentes, letras, vozes, até se dar por vencida. Andando na ponta dos pés, olhando para todos os lados, decidiu VIVER.

Olhar atento, coração acelerado, Leila olhava para todas as prateleiras dos dois andares de uma GRANDE BIBLIOTECA. Sem tocar em nenhum, lia os títulos dos livros, apenas olhava atentamente para as lombadas, BASTAVA. Mas avistou um que foi preciso TOCAR.

Pegou em suas mãos, sentiu o cheiro, passou a mão por todo ele, e o único arrepio que sentia era o de emoção. Queria mais. Quando se preparava para abrir o livro percebeu a aproximação de alguém, era um bibliotecário que a convidou para sentar numa mesa ao lado para falar sobre aquele livro raro.

O tal livro chegou à biblioteca há mais de 20 anos, ninguém sabe ao certo de onde vem, como a maioria dos livros daquela sessão, era cheio de mistério. Mas havia particularidades inusitadas NELE. Jamais alguém conseguiu ler além do que estava escrito na capa e contracapa, simplesmente porque ninguém conseguiu abri-lo.

Tentativas frustradas já haviam sido feitas por diversos interessados. Por vezes mais de uma pessoa tentou forçar a abertura conjuntamente, e NADA. Era um livro sem leitor porque lido não queria ser. O bibliotecário sugeriu a Leila que procurasse outro livro raro, mas que pudesse ser lido. Deixou uma pilha de bons títulos sobre a mesa, e se retirou.

Leila olhou para as paredes. Leila pensou. Leila olhou para os livros sobre a mesa. Leila pensou. Leila olhou atentamente para o livro ainda em suas mãos. Leila ABRIU.

Sem qualquer esforço físico o livro foi aberto. Em pouco tempo ELE abriria o CORAÇÃO DE LEILA.

Em pouco tempo aquela leitora adormecida foi acordando e lendo mais atentamente cada página. Em visitas diárias descobria um novo trecho de uma história fascinante. Olhares curiosos observavam suas leituras, mas tudo com muito respeito à magia daquele encontro.

Leila lia. Leila voltava pra casa e dormia. Leila lia. Leila voltava para casa e dormia. Leila lia. E Leila sabia que não teria fim o livro, pois ele teria novas páginas a cada novo dia. Leila nunca mais dormiria... IGUAL. 532718_318293684918720_471366617_n.jpg

Leila chegou um dia a biblioteca e foi surpreendida ao olhar para a prateleira e não encontrar O Livro. Com o coração apertado foi até a sala do bibliotecário, que já a esperava.

_ Olá Leila, que bom vê-la _ Eu... _ Tenho uma coisa para você. Tirou um embrulho de presente simples da gaveta e entregou a ela. _ O Livro é seu. Leve-o com você. Livros foram feitos para serem lidos pelos leitores certos, pois somente esses são capazes de reconhecer o seu valor. Esse livro raro parece ter sido feito apenas para você, então SIGAM com êxito em seus caminhos.


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Mistura de diversas belezas rendeu a estranheza do meu ser... Duas partes estranhas de conhecidos desconhecidos que se tornou uma... Sou milhões de células que em breve deixarão de existir mas eu continuarei a ser LC.
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